MARIA DO ROSÁRIO CAETANO
MARIA DO ROSÁRIO CAETANO

Exposição mostra influência da Revolução Mexicana de 1910 sobre as artes do país

Conjunto de mais de 200 obras, entre pinturas, murais, revistas, fotografias, caricaturas, além de filmes e áudios, configura o imaginário gerado pelas ideias revolucionárias

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2017 | 16h00

 CIDADE DO MÉXICO  - Pinta la Revolución é o título de uma formidável exposição em cartaz até 7 de maio no Palácio de Bellas Artes, na Cidade do México. Conjunto de mais de 200 obras, entre pinturas, murais, revistas, fotografias, caricaturas, além de filmes e áudios, configura o imaginário gerado pela Revolução Mexicana de 1910. Claro, lá estão os carros-chefes do nacionalismo mexicano, como Siqueiros, Orozco, Rivera, além de Frida Kahlo e Tamayo. Mas também há os menos votados no exterior como María Isquierdo, Mardonio Magaña e outros, que problematizam a equação simplista “pintura mexicana: nacionalismo” e estão ligados mais a correntes internacionais e ao estridentismo, em seu diálogo com as vanguardas.

Além do impacto visual e emocional das obras, produz-se no visitante consciência da força com que os eventos históricos do início do século no México se estenderam pelas décadas seguintes. E que permanece viva talvez até hoje, num momento de comoção nacional contra as políticas discriminatórias de Donald Trump e seu plano de construção de um muro para separar os dois países. 

Na verdade, por seu riquíssimo patrimônio histórico, o México nunca deixou de estar na moda, para dizer assim. Prova disso é o recente sucesso editorial de Viva!, do francês Patrick Deville, bestseller em dezenas de países, Brasil inclusive.

Nesse livro magnífico, definido pelo autor como “romance sem ficção”, os nomes desses pintores e muralistas ressurgem em meio a outros, em particular aos de dois estrangeiros que escolheram o México para viver – o escritor inglês Malcolm Lowry e o revolucionário soviético Leon Trotski. São os personagens principais, histórias paralelas que jamais se encontram, embora tenham vivido na mesma época e país, encarnando duas tipologias opostas. A primeira, a do artista atormentado que se destrói em busca da obra de arte perfeita. A segunda, o homem de ação emparedado por um rival poderoso, que acaba por matá-lo. 

Trotski, parceiro de Lenin na Revolução de Outubro e criador do Exército Vermelho, caído em desgraça na disputa do poder com Stalin e sobrevivente de vários exílios, abrigou-se no México na época tolerante do governo do presidente Lázaro Cárdenas del Río.

Lowry, alcoólatra sustentado pelo pai milionário, interna-se em Cuernavaca, onde procura dar forma à sua obra-prima, À Sombra do Vulcão, depois filmada por John Huston com Albert Finney no papel do atormentado cônsul inglês Geoffrey Firmin. 

Trotski e sua esposa Natalia Sedova conseguiram vistos mexicanos por intercessão de Diego Rivera. Depois da chegada, em Tampico, instalaram-se na Casa Azul, onde o muralista vivia com Frida Kahlo. A hospitalidade não impediu Trotski de manter um caso amoroso com Frida. Afinal, Frida e Diego viveram um dos mais famosos casamentos abertos do século 20, ao lado do de Sartre e Simone de Beauvoir. 

Depois, Trotski mudou-se para casa própria, no mesmo bairro de Coyoacán, a alguns quarteirões da Casa Azul, hoje transformada no Museu Frida Kahlo. Foi lá, nessa casa da Calle Viena (também hoje um museu), que Trotski sofreu o primeiro atentado contra sua vida, comandado pelo muralista stalinista David Alfaro Siqueiros, e do qual saiu ileso. Não escapou do segundo atentado, quando o agente de Stalin, Ramon Mercader, infiltrou-se no bunker e golpeou sua cabeça com uma picareta de alpinista. Ferido, Trotski faleceu no dia seguinte. Esta tragédia real, tingida por toques ficcionais, é descrita em outro best-seller sobre o período, O Homem Que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura. E deu origem ao filme clássico de Joseph Losey O Assassinato de Trotski.

De forma figurada ou literal, são histórias escritas a sangue, vivas e coloridas, cheias de fúria e paixão, como os painéis e quadros expostos no Palácio de Bellas Artes na Cidade do México. 

Mística mexicana forneceu temas e heróis para o cinema

Pancho Villa e Emiliano Zapata, os guerrilheiros camponeses, são as figuras ícones da Revolução de 1910.

A história desses heróis do povo incendiou o imaginário mundial e não apenas o dos artistas plásticos conterrâneos. Um norte-americano, John Reed, foi o grande repórter da Revolução. Seu México Insurgente é um sucesso editorial desde então e um dos precursores, talvez “o” pioneiro do chamado jornalismo literário. Deu origem ao belo filme de Paul Leduc Reed - México Insurgente. 

Quem encarna Zapata, na versão de Hollywood, é ninguém menos que Marlon Brando. Em Viva Zapata!, de Elia Kazan, com roteiro de John Steinbeck, o guerrilheiro é descrito como indomável na luta contra o ditador Porfírio Diaz. Não muda quando chega ao poder e paga alto preço pela independência.

Zapata é universalmente conhecido. Já se alguém falar em B. Traven poucos saberão de quem se trata. No entanto, se dissermos que é autor de O Tesouro de Sierra Madre, o caso muda de figura, pois seu romance inspirou o famoso filme de John Huston. A história de aventura e cobiça é estrelada por um Humphrey Bogart despojado de qualquer charme romântico. 

A vida do próprio Traven daria um romance ou um épico em longa-metragem, como lembra Patrick Deville em seu livro. Até hoje ninguém conhece direito sua identidade. Supõe-se que seja pseudônimo do anarquista alemão Ret Marut, condenado à morte por um atentado e que buscou o México como refúgio. Lá escreveu inúmeros livros, além de Sierra Madre, e que também foram para o cinema. Macário, dirigido por Roberto Gavaldon, e La Revolución de los Colgados, por Índio Fernandez, são dois exemplos. O escritor também se fazia passar por Traven Torsvan ou Hal Croves, conforme a ocasião. Morreu em 1969, na Cidade do México. 

A Trilogia da Revolução, de Fernando de Fuentes, é hoje tida como marco clássico do cinema do país. Uma das partes do tríptico – Vamonos con Pancho Villa – foi eleita melhor filme mexicano da História em uma lista de 100 títulos escolhida por críticos, cineastas e estudiosos. O Compadre Mendoza, também parte da trilogia, ocupa o terceiro posto na lista. 

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