Ricardo Miyada
Ricardo Miyada

Exposição lança luz sobre obra do artista paranaense Miguel Bakun

Comparado a Van Gogh, artista tem trabalhos expostos no Instituto Tomie Ohtake com obras de Volpi, Iberê Camargo e Guignard

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 03h00

Degas costumava dizer que “arte não é o que você vê, mas o que você faz outros verem”. E o que o pintor paranaense Miguel Bakun (1909-1963) faz os outros verem não é exatamente a representação do mundo, mas o mundo recriado segundo uma visão religiosa, talvez marcada pela xantopsia, como Van Gogh, com quem, aliás, foi comparado, em 1948, pelo grande crítico e tradutor Sérgio Milliet (1898-1966). Seja como for, é flagrante o predomínio do amarelo em todas as 35 telas de Bakun que integram a exposição Aprendendo com Miguel Bakun: Subtropical, em cartaz até 26 de maio no Instituto Tomie Ohtake. Com curadoria de Luise Malmaceda e Paulo Miyada, a mostra é dividida em três núcleos: o primeiro contempla a paisagem sulista, reunindo obras desde Alfredo Andersen (1869-1935) até Caio Reisewitz, nascido em 1967; o segundo circunscreve Bakun no cenário modernista brasileiro ao lado de outros grandes pintores, como Guignard (1896-1962), Volpi (1896-1988), Pancetti (1902-1958) e Iberê Camargo (1914-1994); o terceiro núcleo destaca o trabalho de contemporâneos que têm na paisagem – tema de Bakun – uma fonte de pesquisa.

O mínimo que se pode dizer de Bakun é que sua paisagem pós-impressionista, distante da alegria solar das cores tropicais, vem carregada de um sentimento cinzento, de profunda melancolia. Depressivo, como Van Gogh, Bakun acabou por se matar em seu ateliê, aos 53 anos, em pleno verão. Também como o pintor holandês, Bakun tinha preferência pelas mesmas cores: branco, amarelo e azul. Dizem que os portadores de xantopsia confundem as duas primeiras, numa espécie de daltonismo induzido – no caso de Van Gogh, pela intoxicação por digitálicos. De qualquer modo, pode ser que a tese de Gauguin sobre Van Gogh também seja válida para Bakun.

Gauguin, ao comentar uma tela de girassóis de Van Gogh, comparou os reflexos da luz do sol sobre as flores à alma do amigo holandês que, acossada pela paisagem soturna de seu país, buscava consolo no calor daquele amarelo. A curadora da exposição no Instituto Tomie Ohtake, Luise Malmaceda, acredita que a paisagem subtropical de Bakun tenha sido desconsiderada por seus contemporâneos justamente por sua distância das representações quentes, tropicais – e até mesmo a praia do pintor é avessa à natureza luminosa de seu amigo Pancetti, por exemplo, como mostra uma tela de Bakun colocada ao lado de uma pintura do artista campineiro.

Uma pesquisa de Luise Malmaceda sobre o sul do Brasil, mais especificamente sobre a arte praticada na região nos anos 1960 e 1970, levou de modo quase automático à obra de Bakun, diz ela. Segunda mostra da série Aprendendo com... (a primeira, de 2015, foi sobre Caymmi e a civilização praieira), a exposição pretende reavaliar o papel de Bakun. “Ele fica num limbo historiográfico, pois não é acadêmico e tampouco pode ser classificado como moderno”, argumenta a curadora diante das cinco pequenas telas que introduzem o visitante no universo do pintor, paisagens paranaenses que ignoram os mandamentos da perspectiva renascentista para construir uma dimensão espacial própria, em que a visão panteísta de Bakun revela o avesso da natureza.

E esse “avesso” é a própria alma de bosques e lagos pintados como projeções de um mundo sagrado. Místico, o pintor passou a vida divorciado do mundo concreto. Filho de emigrantes eslavos, aprendeu o ofício de alfaiate, mas não seguiu na profissão. Aos 17 anos, ingressou na Marinha e, em 1917, foi transferido para a Escola de Grumetes no Rio, onde conheceu e ficou amigo de Pancetti, que o incentivou a pintar. Ao cair do mastro de um navio, foi desligado da Marinha e passou o resto da vida arrastando uma das pernas. Para sobreviver, em sua volta a Curitiba, virou fotógrafo lambe-lambe e pintor de letreiros. Nos anos 1950 a situação melhorou um pouco – é a época mais produtiva do pintor. Mesmo assim, sempre viveu modestamente e, no fim da vida, sua situação era mesmo precária. 

Hoje, o interesse do mercado pela obra de Bakun cresce e o faz reviver. Há controvérsias sobre as pinturas do último período, que traduzem a visão animista da natureza em forma de espíritos formados por nuvens, ondas e o movimento das árvores, levando alguns críticos a identificar nessas telas uma adesão ao surrealismo. Em todo caso, Bakun foi, sim, um homem de fé, mas profundamente desesperado – o que pode parecer paradoxal, mas não se considerarmos o caso de Van Gogh na pintura e o de Flannery O’Connor na literatura.

Contemporâneos em diálogo

Dois pintores que integram a exposição dominada pela pintura de Bakun se destacam na mostra pelo diálogo íntimo com sua arte, embora não fossem próximos: Volpi e Guignard. Para ambos – e também para Bakun – vale a máxima de Cézanne, para quem a arte opera um milagre, justamente “o de transformar o mundo em pintura”. Mesmo sem comungar da mesma crença de Bakun numa dimensão sobrenatural, Volpi e Guignard, assim como Cézanne, ao transfigurar a paisagem, operavam igualmente esse milagre. Não restituíam a aparência do mundo visível na tela, mas, como disse Merleau-Ponty a respeito de seu conterrâneo pintor, anexavam a parte do invisível percebida de forma oculta pelo artista.

As paisagens dos anos 1940 de Volpi e Guignard, reproduzidas ao lado, são exemplos de uma certa ausência que, paradoxalmente, enche os olhos do espectador como uma experiência numinosa, misteriosa. Em Bakun, até a figura humana surge amalgamada à paisagem, afirmando a plenitude dessa imagem que não está no mundo, mas se revela por meio da pintura de um gênio

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