Julia Gunther/The New York Times
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Exposição 'Hansken, o Elefante de Rembrandt' revela o interesse do pintor pelo animal

A mostra na Casa de Rembrandt, em Amsterdã, conta a história de uma fêmea de elefante asiático, que passou o restante da sua vida na Europa e se tornou um espetáculo famoso e popular

Nina Siegal, The New York Times

20 de julho de 2021 | 15h00


AMSTERDÃ - Na gravura Adão e Eva no Paraíso de Rembrandt, datada de 1638, há dois símbolos do bem e do mal. Um dragão paira sobre o casal que contempla a maçã proibida, representando o perigo da tentação. E no fundo, um pequeno elefante rechonchudo brinca na luz do sol, um sinal de castidade e de graça. O significado destes símbolos, embora obscuros hoje, seria reconhecido na Europa no século 17.

O dragão desenhado por Rembrandt era fruto de sua imaginação. Mas o elefante parece surpreendentemente uma criatura viva. Como Rembrandt, que nunca saiu da Holanda, podia saber como era um elefante?

A reposta a esta pergunta vem na forma de uma exposição. Hansken, o Elefante de Rembrandt, na Casa de Rembrandt, em Amsterdã. A mostra, que irá até o dia 29 de agosto, conta a história de uma fêmea de elefante asiático, que passou o restante da sua vida na Europa e se tornou um espetáculo famoso e popular.

A vida deste elefante constitui uma obsessão pessoal do naturalista holandês e historiador da arte Michael Roscam Abbing há quase vinte anos. Ele publicou o seu primeiro volume, relativamente pequeno, sobre Hansken em 2006, mas continuou buscando documentação adicional sobre o seu paradeiro e biografia nos últimos 15 anos, o que resultou em um novo livro e na mostra da Casa de Rembrandt.

O que ele descobriu foi que Hansken teve uma importância descomunal na arte, no entretenimento popular e na ciência durante a sua breve existência de cerca de 25 anos. Ela foi retratada pelo menos três vezes por Rembrandt, viajou até o Báltico de navio, e a pé até a Dinamarca, e depois para a Itália, e se tornou o primeiro elefante asiático descrito pela ciência ocidental.



“É uma história muito trágica, na realidade, mas também fascinante”, segundo Leonore van Sloten, curadora da Casa de Rembandt. “É incrível pensar que haja tão pouca informação sobre um animal”.

“Ela foi trazida para um mundo ao qual não pertencia”, acrescentou  van Stolen, “mas se tornou uma espécie de janela para a vida daquela época.”

Hansken nasceu em 1630 na ilha de Ceilão, atual Sri Lanka. A Companhia Holandesa das Índias Orientais comerciava com a ilha, e o governante da Holanda, o príncipe Frederick Henry, pediu às autoridades que enviassem para ele um jovem elefante como curiosidade.

Os elefantes eram uma verdadeira raridade na Europa, antes dos tempos modernos.

“No século 15, havia um único elefante na Europa”, afirmou Roscam Abbing. “No século 16, nós conhecemos dois ou três destes animais, e o mesmo aconteceu no século 17”.

A viagem levou cerca de sete meses, e Hansken chegou à Holanda em 1633. Frederick Henry a manteve em seus estábulos reais, juntamente com outros animais exóticos. Mas, talvez por causa do gasto e da dificuldade de mantê-la, posteriormente, ele a deu a um parente, o conde John Maurice.

Ela mudou de dono pelos menos mais duas vezes antes de ser comprada  por Cornelius van Groenevelt, um aspirante a animador, por 20 mil florins, ou o equivalente a  cerca de meio milhão de dólares hoje. Hansken passou o resto da vida com Groenevelt, que a levava de cidade em cidade como atração.

Ele ensinou ao elefante alguns truques - como carregar um balde, deitar, segurar uma espada e disparar uma arma - que foram pintados em estampas do artista suíço Jeremias Glaser, e em outros desenhos e gravuras de artistas desconhecidos, às vezes, como publicidade para as suas próprias apresentações.

Uma das primeiras paradas de Hansken foi em Amsterdã, em 1637, provavelmente a primeira vez em que foi vista por Rembrandt. No mesmo ano, ele criou um desenho detalhado do animal captando as texturas e as dobras de sua pele e a curvatura do seu tronco. O desenho provavelmente serviu de estudo para Adão e Eva, a gravura realizada posteriormente.

“Ele estava interessado no animal em si, e não nos truques que ele realizava”, afirmou Roscam Abbing. “Os outros artistas se concentraram em como ela disparava uma arma ou carregava um balde de água, mas não Rembrandt. Ele estava interessado em captar o próprio elefante”.

Roscam Abbing conseguiu documentar a chegada de Hansken em pelo menos 136 cidades e povoados na Europa. Ela visitou Amsterdã quatro vezes durante a sua vida. Rembrandt talvez a tenha visto em duas ou três daquelas ocasiões. Por volta de 1641, ele a desenhou novamente, retratando-a três versões do animal de vários ângulos, e em diferentes poses: comendo, reclinando e caminhando.

Depois de anos de excursões e apresentações, provavelmente mal alimentada e com escassos cuidados (porque os europeus não sabiam quase nada a respeito do tratamento destes animais), Hansken sofreu um colapso na Piazza della Signoria, uma grande praça de Florença, na Itália, no dia 9 de novembro de 1655, com cerca de 25 anos.



Os seus últimos momentos foram captados em três desenhos por um artista italiano, Stefano della Bella, que casualmente se encontrava no lugar.

“Não se soube ao certo o que aconteceu com ela; inicialmente, pensou-se que tivesse sido envenenada”, afirmou van Stolen.

Depois de um exame médico, foi determinado que ela morrera de uma febre em consequência de uma infecção. Tinha graves abscessos nos pés.

Van Groenvelt vendeu o corpo de Hansken ao grão duque de Toscana, Ferdinando II de’Medici, que estava interessado em ciências naturais. Ele mandou estudar cuidadosamente o seu corpo e descrevê-lo na literatura científica. Sua pele e esqueleto posteriormente foram expostos na Galeria Uffizi.

A pele se deteriorou e foi jogada fora no século 19, mas o esqueleto de Hansken sobrevive até hoje e faz parte da coleção permanente do Museo della Specola, na Universidade de Florença.

O seu crânio está emprestado para a Casa de Rembrandt como parte da mostra.

“Não há ossos de nenhum outro contemporâneo de Rembrandt que seja possível ver, sequer os ossos do próprio Rembrandt”, disse van Sloten, “Por isso, é  incrível estar perto dela”.


Tradução de Anna Capovilla

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