Pierre Verger/Galeria Marcelo Guarnieri
Pierre Verger/Galeria Marcelo Guarnieri

Exposição exibe fotos inéditas de Pierre Verger

A Galeria Marcelo Guarnieri abre dia 24 uma mostra com 120 imagens do fotógrafo, destacando seu trabalho como repórter fotográfico de revistas como a 'Life'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2018 | 05h01

Na madrugada do dia 5 de outubro de 1946, o fotógrafo e etnológo francês Pierre Verger (1902-1996) desembarcou no Brasil e, encantado com o País, acabou fixando residência em Salvador. Já era, então, um viajante experiente e um profissional respeitado que passara por diversas regiões da África, além dos EUA, México e China, sempre fotografando para grandes publicações (como a revista Life) ou para a agência parisiense que fundou com amigos, em 1939, a Alliance Photo. Todo esse material se encontra entre os mais de 60 mil negativos legados pelo fotógrafo à Fundação Pierre Verger de Salvador, que cuida do seu acervo. Muitas dessas imagens nunca foram expostas. É o caso da coleção de 120 fotografias que a Galeria Marcelo Guarnieri apresenta ao público a partir do próximo sábado, 24, na exposição que ficará aberta até 4 de abril. A entrada é gratuita.

Dividida em quatro núcleos, a mostra reúne a caixa-arquivo que Verger utilizou para guardar suas provas de contato, os livros publicados pela editora Corrupio, fundada em 1979, em Salvador, para preservar sua obra, as fotografias que registram o diálogo cultural entre as religiões afro-brasileiras e, finalmente, no último núcleo, uma seleção de cópias assinadas pelo próprio Verger que integraram a histórica exposição Pierre Verger, Le Messager, organizada em 1993 pela Revue Noire no Musée d’Art d’Afrique et d’Océanie.

A Revue Noire publicou naquele ano uma monografia sobre o fotógrafo que colocou sua obra no patamar dos grande fotógrafos humanistas dos anos 1930 e 1940 (Bellon, Boucher, Capa), destacando justamente as imagens do período, mas incluindo na edição registros feitos após o renascimento espiritual de Verger como “fatumbi” (ou “nascido de novo” graças ao Ifá com acesso às tradições iorubás), em 1953, na África. O livro tem mais de duas centenas de fotos, entre elas registros fotojornalísticos na Bolívia, Cuba, Estados Unidos, Japão, Peru, Nigéria e Vietnã, algumas na mostra da Galeria Marcelo Guarnieri.

Jêrome Souty, que escreveu um livro sobre Verger, entendeu a filiação de Verger ao candomblé como um refúgio para sua homossexualidade, camuflada durante a juventude, na França. Filho de um rico proprietário de gráfica, que não permitia sequer o trânsito interclassista do filho, Verger se libertou do condicionamento social e cultural após a morte do pai e da mãe. Vendeu a gráfica e usou o dinheiro para viajar pelo mundo, começando pelo Taiti. Com sua iniciação religiosa nos cultos aos orixás na África, sentiu que o candomblé, por aceitar seus fiéis sem distinção de preferência sexual, o livraria da marginalização.

É certo que a cultura africana fazia parte das discussões com amigos como Michel Leiris (que escreveu o clássico África Fantasma) bem antes de sua primeira viagem ao continente, em 1935. Verger e os amigos costumavam frequentar, nos anos 1930, o famoso Bal Nègre da Rua Blomet, em Paris, onde cozinheiros, motoristas e porteiros de hotel de origem africana ou antilhana tentavam esquecer as humilhações dos patrões dançando até o sol raiar. Após formar com amigos a agência Alliance, viajou 15 anos seguidos pela África e países citados anteriormente, encontrando na Bahia o ambiente favorável para exercer sem culpa sua vida homoafetiva de babalorixá.

Verger, em entrevista concedida a Véronique Mortaigne, revelou que, no começo, não se sentia à vontade com o ritual do candomblé. Não tinha espírito religioso e era “muito francês” para entrar em transe. Sentia-se mais à vontade entre os negros dos terreiros brasileiros que africanos – o que fez o fotógrafo se fixar em Salvador. A sensualidade dos corpos negros se movendo era, para ele, uma manifestação de caráter hierofânico – o que pode ser atestado em duas das fotos que ilustram esta página, a do pescador e do homem que observa Pancetti pintando numa praia baiana, ao longe.

Nessa mesma entrevista a Mortaigne, Verger diz que a fotografia o seduz pela “faculdade de fixar o que é fugidio, tonar perceptível e permanente aquilo que está fadado a desaparecer para sempre” – daí sua condição de nômade em trânsito perpétuo, circulando entre dois mundos, o físico e o espiritual (Lula Buarque de Holanda fez um documentário sobre ele que tem justamente como título Pierre Verger, Mensageiro entre Dois Mundos).

O destaque para o trabalho fotojornalístico de Verger na exposição, segundo o curador da mostra, o marchand Marcelo Guarnieri, visa, primeiro, a “reconstituir seu percurso histórico”, além de reconstruir a ponte que o liga a outros grandes profissionais da imprensa como Marcel Gautherot, José Medeiros e o veterano gaúcho Flávio Damm, hoje com 90 anos.

Fotojornalistas  - Entre os jornalistas que iniciaram sua carreira no Brasil na mesma época de Pierre Verger, o nome mais conhecido talvez seja o de outro francês, Jean Manzon (1915-1990), que, em 1943, se tornou parceiro do repórter David Nasser na revista O Cruzeiro. Ele e Henri Ballot foram pioneiros no registro de temas até então pouco explorados pela imprensa (ambos fotografaram tribos indígenas do Xingu). Nos mesmos anos 1940, outro fotojornalista iniciava sua carreira, passando a fotografar para a Revista do Globo, em 1946, o gaúcho Flávio Damm, que depois se tornaria um autor, seguindo os passados de Cartier-Bresson e outros fotógrafos egressos do jornalismo que fizeram da fotografia uma arte autônoma.

A exemplo de Verger, Damm trabalhou para a revista O Cruzeiro e registrou o cotidiano dos afrodescendentes no Brasil, enfatizando a segregação social e racial em imagens poderosas como a foto ao lado (outras podem ser vistas na Galeria Marcelo Guarnieri). Damm fundou com o piauiense José Medeiros (1921-1990) a agência Image, em 1962. Medeiros talvez seja o que mais se aproxima de Verger, sendo o primeiro brasileiro a registrar, em 1951, o ritual de iniciação de filhas de santo no candomblé.

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