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Exposição em SP lança luz na obra multimídia do artista Mário Lago

Poeta, compositor e ator e marcou teatro, cinema e TV

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 03h00

Ele jurava que chegaria aos 100 anos. Numa de suas últimas entrevistas, Mário Lago chegou a declarar – “Fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue nem eu fujo dele.” Mas não chegou ao centenário. Morreu em 2002, aos 90 anos. Como Orson Welles, numa conversa com jornalistas – “Vocês são poucos, eu sou muitos” –, Mário Lago foi poeta, advogado, radialista, compositor e ator. Aos 15 anos, poetava. Aos 20 e poucos militava na política, depois de se formar em Direito pela Federal do Rio. Filho de um maestro e neto de um anarquista que também era flautista, Mário Lago fez sua opção pelo marxismo em 1933. Tinha 22 anos.

A política esteve sempre presente em sua vida, mas ele nunca foi homem de um só campo de atividade. Expressou-se em diversos. Uma exposição no MuBE, a ser inaugurada dia 26, dá conta dessa personalidade extraordinária. Traz registros audiovisuais de seus trabalhos no cinema e na televisão, da militância e da vida pessoal. A curadoria é de Mário Lago Filho e os visitantes poderão ver/ouvir os poemas de Mário musicados por Frejat, Arnaldo Antunes, Lenine e Danilo Caymmi. Entre outras preciosidades, há um depoimento de Lima Duarte sobre o início da amizade de ambos e uma apresentação conjunta com Roberto Carlos, de 1991, quando eles cantam Saudades da Amélia.

Embora fosse comunista convicto e defendesse a igualdade social e política, independentemente de raça, sexo ou cor, Mário Lago fez história na MPB com uma música que virou o emblema da mulher submissa, resignada e ‘do lar’. “Amélia não tinha a menor vaidade/E achava bonito não ter o que comer.” Sua estreia como letrista foi com Menina, Eu Sei de Uma Coisa, parceria com Custódio Mesquita, gravada por Mário Reis em 1935. Três anos depois, Orlando Silva gravou Nada Além, de novo da dupla Mesquita/Lago. Ai Que Saudades da Amélia e Atire a Primeira Pedra foram parcerias com Ataulfo Alves; É Tão Gostoso, Seu Moço, com Chocolate. E não se pode esquecer de Aurora, em dupla com Roberto Roberti, que ganhou o mundo na voz de Carmen Miranda.

Mário Lago tinha plena consciência de que influenciava e era influenciado pela sociedade em que viveu – e que chamava de ‘moldura do meu quadro’. Além da música e da teledramaturgia, participou como ator de novelas e filmes. No cinema desde 1947 – com Asas do Brasil, de Moacyr Fenelon, sobre o cotidiano de pilotos da aviação nacional –, participou de obras viscerais nos anos 1960, muitas delas emblemáticas do Cinema Novo. Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias; O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade; Terra em Transe, de Glauber Rocha; Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite; O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl; Os Herdeiros, de Carlos Diegues; São Bernardo, de Leon Hirszman.

Na televisão, foram muitas novelas que ajudaram a definir e consagrar o gênero – Selva de Pedra, Cavalo de Aço, O Espigão, Pecado Capital, Dancin’ Days, Plumas & Paetês, Baila Comigo, Guerra dos Sexos. Fez também (mini)séries – Grande Sertão: Veredas, O Tempo e o Vento, Hilda Furacão. E ainda foi autor, escrevendo os livros Chico Nunes das Alagoas, Na Rolança do Tempo, Bagaço de Beira-Estrada e Meia Porção de Sarapatel, antes de ser biografado (em 1998) por Mônica Velloso em Mário Lago – Boemia e Política. Coordenadora-geral do evento, Mariana Marinho diz que, ao apresentar a releitura contemporânea de poemas inéditos de Mário Lago por compositores brasileiros importantes, a exposição deixa em evidência a atemporalidade da arte do biografado. “O conteúdo proposto pelo MuBE é sedutor tanto para os jovens que vão conhecer a obra multimídia do artista, quanto para aqueles que acompanharam a importante história desse verdadeiro titã da arte brasileira.”

MÁRIO LAGO 

MuBE. Avenida Europa, 218, Jardim Europa, tel. 2594-2601. De 3ª a dom., das 11 h às 17 h. Grátis. De 26/2 a 22/3. 

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