Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Exposição do fotógrafo Serguei Maksimishin foge dos clichês da Rússia

Mostra na Caixa Cultural São Paulo conta com 65 fotografias, que fazem um panorama social dos últimos 20 anos do país

Pedro Rocha, Especial para O Estado

30 Maio 2018 | 06h00

Em junho, a Rússia vai estar no centro das atenções de todo o mundo por conta da Copa do Mundo de Futebol. Muito longe das atrações turísticas e das figuras de matrioskas, uma exposição fotográfica em São Paulo, na Caixa Cultural, traz um olhar diferente, mais crítico e social, sobre o país, pelas lentes do fotógrafo russo Serguei Maksimishin. A mostra O Último Império abre ao público a partir desta quarta-feira, 30. 

O fotógrafo, que está no Brasil para a abertura da exposição, conversou com o Estado. “Fico feliz que as pessoas aqui se interessaram pelo meu trabalho, é um grande prazer estar aqui”, diz Maksimishin. “Mas não sei quantas pessoas virão”, brinca. 

O artista russo, de 54 anos, começou a fotografar o seu país nos anos 1990, quando se formou em fotojornalismo pela Universidade Estatal de São Petersburgo. Logo se interessou por capturar imagens que mostrassem a reabertura política e econômica da Rússia, por todo o seu extenso território, de Kaliningrado a Kamchatka, e também dos outros países da antiga União Soviética, o “último império” a que o título da exposição se refere, após o fim do regime comunista. “Toda a exposição é para falar sobre as mudanças a partir de uma investigação”, explica Maksimishin. “Acredito que o trabalho de um fotógrafo é um trabalho de investigação sobre um assunto. Essa exibição é sobre o ‘último império’ e sobre os 20 anos que se passaram desde então.”

Com a exposição, Serguei Maksimishin espera que o público brasileiro possa conhecer aspectos diferentes sobre o país, uma situação que ele compara com estereótipos que o mundo tem sobre o Brasil, como samba e futebol. “A Rússia é o maior país do mundo e conosco acontece o mesmo que acontece com o Brasil. Espero que o interesse das pessoas vá além das matrioskas.”

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Apesar da proximidade da Copa do Mundo, foi uma coincidência a realização da exposição, segundo a também russa Maria Vragova, diretora executiva da Ars et Vita, que realiza a mostra. “Não pensamos nisso, mas é uma coincidência feliz”, acredita Vragova. “Ele é um dos fotógrafos mais importantes da Rússia. Faz fotojornalismo, mas com o olhar de um artista. Ele tem um olhar muito crítico e faz as pessoas enxergarem a Rússia além dos clichês, como ela é de verdade.”

Ao todo, serão exibidas na Caixa Cultural 65 fotografias de Serguei Maksimishin, escolhidas sob a curadoria de Luiz Gustavo Carvalho. “Ele tem um olhar muito perspicaz sobre o país dele”, elogia o curador. “É importante mostrar como esse país, de proporções tão gigantescas, ainda vive influenciado por esse ‘último império’. Neste ano, tivemos lá a reeleição de um presidente que, depois de Stalin, é a figura com mais tempo de poder.” Para Luiz Gustavo, há uma relação clara da Rússia retratada por Serguei Maksimishin com o Brasil. “Ele viveu toda a loucura que foi o início dos anos 1990, o que se assemelha muito ao que o Brasil viveu na era Collor.” 

Em suas fotografias, Maksimishin reúne cenas de pessoas comuns e todo o choque cultural entre a invasão do capitalismo e os resquícios do comunismo. “O antigo cotidiano da União Soviética ainda aparece em detalhes, como um busto de Lenin na decoração de um restaurante”, ressalta Carvalho. O humor, ácido e por vezes negro, também está presente em algumas cenas, como no registro de uma pessoa vestida como um personagem do programa infantil Teletubies em frente a uma pequena igreja de um povoado. “É um humor quase sarcástico, mas que não tira o personagem de seu caráter humano, não faz dele apenas um objeto.”

‘O ÚLTIMO IMPÉRIO’, DE SERGUEI MAKSIMISHIAN

Caixa Cultural São Paulo

Praça da Sé, 111. Tel. 3321-4400.

3ª a dom., 9 às 19h. Gratuito

Até 29/7

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