James Nachtwey
James Nachtwey

Exposição destaca um dos maiores correspondentes de guerra do mundo

Fotos de James Nachtwey estão em mostra em Paris

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

PARIS - Pense nas mais impactantes imagens fotográficas do desmoronamento e dos escombros fumegantes do World Trade Center no 11 de Setembro, em Nova York. Há uma grande chance de que alguns desses ícones tenham saído das câmeras de um mesmo homem: James Nachtwey. Fotógrafo de guerra de trajetória única, o americano que vem há mais de 40 anos – 34 dos quais para a revista Time – registrando o curso da história contemporânea recebe na Maison Européenne de la Photographie, em Paris, a retrospectiva Memória, uma oportunidade de descobrir o trabalho de um dos gênios do fotojornalismo contemporâneo.

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Nachtwey nasceu em Syracuse, em 1948, nos Estados Unidos pós-2.ª Guerra Mundial. Sua juventude se deu em meio aos turbulentos anos 1960, época de luta por direitos civis e de assassinatos políticos em seu país, e de revoltas políticas fracassadas e revoluções culturais bem-sucedidas na Europa e na Ásia. Em meio a esse ambiente em transformação, de contestação à Guerra do Vietnã, o estudante de História da Arte e de Ciência Política do prestigioso Dartmouth College forjou seu ethos profissional.

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Sua opção foi pela fotografia, e em 1976 iniciou na NBC, trabalhando no Novo México. Em 1980, retornou a Nova York como fotógrafo independente. Um ano depois, cobriu para agências a turbulência política entre republicanos e unionistas na Irlanda do Norte. O trabalho lhe abriu as portas do jornalismo internacional, que desde então não se fecharam mais. Em 1984, foi contratado pela revista Time e, com a estrutura daquela que era então a mais importante publicação semanal do mundo, tornou-se pouco a pouco uma referência em sua área. Foi membro da agência Magnum, fundou a Agência VII e, em meio a isso, cobriu, com um grau singular de humanismo, compaixão e abnegação, as principais guerras e guerrilhas, alguns dos mais sangrentos atentados terroristas e das mais atrozes ondas de fome e epidemias. Grosso modo, onde a humanidade produziu e encontrou desterro, suas lentes estiveram presentes.

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O resultado é que sua carreira funciona como uma espécie de painel sombrio dos últimos 35 anos. Nas paredes da Maison Européenne, estão os guerrilheiros de El Salvador, os coquetéis Molotov dos territórios palestinos ocupados, a fome na Romênia, na Somália, no Sudão, o genocídio em Ruanda, a carnificina nos Bálcãs e na Chechênia e a irracionalidade da guerra no Iraque e no Afeganistão. Organizados em forma de short stories de cada grande episódio que cobriu, os painéis refletem a complexidade do trabalho de Nachtwey: do interior de peças fechadas (na intimidade do sofrimento e da luta), para o exterior (o reflexo do desterro), para as cenas de isolamento ou de dor coletiva, até a morte – já factual ou inelutável.

Entre imagens que arrepiam, desolam ou indignam, Nachtwey mostra por vezes as veias abertas dos conflitos armados, como os corpos em covas coletivas vítimas de epidemias no Zaire em 1994. Por outras, prefere retratos cheios de poesia, que por vezes lembram pinturas renascentistas, como a da mãe que zela pela recuperação de seu filho em um leito da Médicos Sem Fronteira em Darfour, no Sudão, em 2004.

Para produzir um painel tão completo da tragédia humana, Nachtwey não poupou o seu próprio corpo e sua vida dos riscos que presenciou. Fiel à mais agressiva linhagem dos fotojornalistas de guerra, lançou-se às linhas de frente e foi ferido em duas oportunidades, a primeira por estilhaços de explosivos no Iraque, em 2004, e a segunda por bala em Bangkok, em 2014. Nada disso, porém, o faz posar como mártir ou centro dos acontecimentos quando fala sobre seu trabalho multipremiado. “O que busco é me tornar invisível, para que as pessoas das imagens possam dialogar com as pessoas que observam as imagens”, disse ao Estado na abertura de sua mostra.

Anthony Lloyd, célebre correspondente de guerra britânico, considera Nachtwey “uma lenda”. Para Maurício Lima, fotógrafo brasileiro da mesma estirpe, o americano é “imortal”. “A relação recíproca entre sua crença na humanidade e a força da fotografia é única”, entende Maurício. “Nachtwey certamente é o que melhor expressa esse equilíbrio, por isso é um imortal entre nós.”

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