Exposição dedicada a Oscar Niemeyer destaca projetos inéditos

Para curador, mostra no Itaú Cultural revela facetas diferentes daquelas associadas normalmente ao arquiteto

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 15h00

Na década de 1960, Oscar Niemeyer (1907-2012) brincou de imaginar o futuro - habitações subaquáticas e um método de aprendizagem através de eletrodos colocados diretamente no cérebro das pessoas enquanto dormiam estão representados em um grande desenho meio “science fiction” que ele criou a pedido de uma revista soviética. “O Oscar não era dado a isso, é uma exceção, uma curiosidade”, diz Lauro Cavalcanti, curador da exposição dedicada ao arquiteto carioca a ser inaugurada na quinta-feira no Itaú Cultural.

 

No primeiro andar da instituição, essa obra inusitada, apresentada em seu original, convive com maquetes de edificações referenciais, como a Catedral de Brasília e a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, além de croquis. Mas a exposição, que ainda ocupa mais dois andares do instituto, já diz no seu título a que veio - Oscar Niemeyer: Clássicos e Inéditos tem como atrativo possibilitar novos olhares sobre a obra de um dos criadores brasileiros mais celebrados de todos os tempos.

Dos 70 projetos apresentados na exibição, 51 nunca foram vistos ou construídos. Como o plano da cidade de Negev, no deserto de Israel, criado por Niemeyer em 1964. “É a antiBrasília”, afirma Lauro Cavalcanti sobre a obra engavetada e projetada três anos depois da inauguração da capital federal do Brasil. “Negev era para ser percorrida a pé, as distâncias maiores entre dois pontos dela seriam de 500 metros”, descreve o curador. “Ela ainda teria um grande estacionamento subterrâneo e os veículos só poderiam andar na periferia. Suas ruas seriam estreitinhas, para se passear por jardins, como nas cidades medievais.”

Os inéditos do arquiteto estavam em cadernos descobertos nos acervos da Fundação Oscar Niemeyer, no Rio. “O interessante é que nesses trabalhos você vê tanto obsessões e purificações de forma quanto projetos totalmente diferentes do que ele normalmente realizou”, comenta o curador. Graças à parceria com o Itaú Cultural, foi realizada a digitalização do material, patrimônio agora revelado e tornado acessível.

 

Mas a exposição não se encerra nessa vertente. O objetivo de seus realizadores foi conceber uma “mostra amistosa”, que coloca o arquiteto, seu processo e pensamento de maneira muito próxima do público, leigo ou especializado. Em mais de 300 plantas, croquis e desenhos originais - incluindo um rolo de papel de 12,5 metros, maquetes físicas e eletrônicas e dois filmes, Oscar Niemeyer é celebrado pelas próprias fala e mão.

Na mostra, um rolo de papel de 12,5 metros de comprimento apresenta, numa grande parede, a trajetória do arquiteto, morto aos 104 anos, em 2012, por intermédio de uma progressão de desenhos feitos por ele mesmo. A bobina, nunca antes exposta, foi traçada pelo carioca de maneira livre e solta durante as filmagens de Oscar Niemeyer - O Filho das Estrelas (2001), do diretor francês Henry Raillard.

O filme será projetado no espaço expositivo, no primeiro andar da instituição, numa forma de colocar o arquiteto bem próximo do público. “Nesse desenho, ele vai explicando Brasília, o exílio em Argel, obras como o MAC-Niterói, a presença constante das mulheres, a questão política, terminando com um sujeito se defendendo contra um dragão, com a bandeira do Brasil”, diz o curador da mostra, Lauro Cavalcanti. “A ideia é dar voz ao Oscar”, completa.

Sob o desafio de conceber uma exposição diferente das já realizadas sobre o arquiteto, a exibição traz um conjunto expressivo de trabalhos inéditos - mostrados em versões originais e digitalizadas - e busca fugir de visões consagradas sobre sua produção, mesmo quando destaca o que já é referencial. Por exemplo, entre as maquetes brancas construídas especialmente para se apresentar as obras clássicas de Niemeyer, há uma sobre o projeto que, embora não construído, é considerado por muitos profissionais a obra-prima do carioca, o Museu de Arte Moderna de Caracas, na Venezuela.

 

Em 1954, o arquiteto projetou um edifício que seria uma pirâmide invertida em terreno de encosta. “É um projeto revolucionário pela forma”, considera o curador, especialista em arquitetura moderna. “O espaço é estruturado pela própria pirâmide e há plano de se ocupar um lugar com uma paisagem linda sem barrar a vista.” 

“Esse trabalho não foi realizado, mas alimentou a ideia para o MAC (Museu de Arte Contemporânea) de Niterói, que ocupa o terreno e não barra a vista”, define ainda Cavalcanti.

Outro destaque da exposição é o projeto da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), concebido em 1979 para uma área entre as ruas Ministro Rocha Azevedo e São Carlos do Pinhal (na região da Avenida Paulista), mas que também não foi erguido. “É inovador, transgressor, com a criação de um espaço aéreo”, comenta o arquiteto Pedro Mendes da Rocha, responsável pela expografia de Oscar Niemeyer: Clássicos e Inéditos.

O trabalho - que se tornou o ícone da mostra -, é considerado um ponto alto da questão de inserção urbana na obra do carioca. “O Oscar é conhecido por fazer obras descontextualizadas do meio urbano, mas tem também o projeto de um hotel em Ipanema no qual ele cria uma série de recursos para se ganhar janelas para o espaço”, afirma o curador da exposição.

Para o público de São Paulo, a mostra tem um segmento inteiro dedicado às construções do arquiteto na metrópole. “As pessoas poderão conhecer trabalhos que não foram realizados, mas que mudariam bastante a cidade, e obras como o Ibirapuera, o Copan, edifício Eiffel”, destaca Cavalcanti. Um grande mapa virtual será projetado por uma abertura feita do primeiro para o segundo subsolo do Itaú Cultural, localizando prédios e construções selecionadas. “Quase todos estão numa distância que dá para ir caminhando e assim estamos propondo que o público faça sua descoberta de Oscar não apenas na exposição”, completa o curador.

A mostra, que percorre a trajetória do arquiteto desde 1936, mas concentrando o olhar em suas criações realizadas entre as décadas de 1950 e 1980, também será apresentada entre 14 de agosto e novembro no Paço Imperial do Rio.

Na ocasião, será lançado o catálogo da exposição, com textos dos especialistas Glauco Campelo, Carlos Lemos, Ciro Pirondi, Fares Dahdah (professor da Rice School of Architecture e responsável por chamar a atenção de Lauro Cavalcanti para os projetos inéditos de Niemeyer) e do curador da mostra. 

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