Matheus Jose Maria
Matheus Jose Maria

Exposição 'Contaminações' e a busca pelo que me deixa inquieto

Nós que escrevemos gostamos de saber como nos leem, nos interpretam, como agimos sobre suas vidas, pensamentos, o que modificamos

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

28 Março 2017 | 03h00

Ninguém mais do que eu está ansioso para entrar no Sesc e mergulhar nesta exposição Contaminações. Bem, é mais que provável que Luiz Ruffato e Sérgio Sant’Ana também estão. É a primeira vez que vejo um trabalho como este. Obras contaminando obras, sendo contaminadas, não só pela escrita, mas pela linguagem das artes plásticas, dos símbolos. 

Nós que escrevemos gostamos de saber como nos leem, nos interpretam, como agimos sobre suas vidas, pensamentos, o que modificamos. Resisti muito e consegui não ir às montagens idealizadas por Daniel Thomas e Felipe Tassara que muito admiro. O que fizeram comigo, meu livros, meus personagens, minhas situações? Vou gostar, me espantar, odiar, aceitar, ficar perplexo? Como me entroso com Ruffato, bem mais novo, e com Sant’Anna quase da mesma geração?

Zero foi um livro especial para mim. Tornou-se emblemático do horror daqueles anos de ditadura militar; meu grito de revolta, a bomba que joguei, meu ato de subversão. Publicado, estourou. Lançou-me nacionalmente e internacionalmente.

Teve várias contaminações explicitas. A linguagem e o design dos jornais; a inspiração de dois livros, Marco Zero, de Oswald de Andrade, e de Manhattan Transfer, de John Dos Passos; a linguagem da astronáutica, leia Nasa, comum na mídia da época, quando foguetes subiam ao espaço. E a estrutura de Oito e Meio, de Fellini, principalmente. Eu tinha milhares de cenas, episódios, noticias, conversas, pensamentos, gritos, barulhos, berros, buzinas e não tinha ideia de como organizar o livro.

Foi quando me lembrei de Oito e Meio. Uma linguagem composta por vários planos, sem nenhuma preocupação de sequência. Plano da realidade, da realidade idealizada, do sonho, da memória, da fantasia. Desenhou-se na minha cabeça a forma para narrar. Zero está contaminado pela linguagem das ruas, pelos anúncios, pelo peso da religião católica, pelos rituais afros, pelas conversas dos taxistas, pelo delírio freudiano, pela realidade que nos vinha das prisões através de cartas de torturados que precisavam desabafar, contar, explodir a angústia. O livro está contaminado pela angústia, opressão, medo, caos, loucura, exacerbação dos sentidos. 

Em 1992, tive uma surpresa. O Balé da Cidade de São Paulo contratou o coreógrafo alemão Johan Kresnik para dirigir um espetáculo de balé, a partir da adaptação de Henry Torau. E o livro se transformou em uma dança ousada, violenta, nova, que espantou - e de certo modo horrorizou - a direção do teatro e a secretária municipal de Cultura, Marilena Chauí. Marcou uma ruptura dentro do repertório tradicional da companhia.

Aconteceu há anos um fato curioso, percebido apenas por um médico do Hospital Emílio Ribas, cujo nome me escapou, passado tanto tempo. Ao ver que José, o personagem principal do livro, vivia de matar ratos em um cinema, ele se aproximou de mim em uma livraria: “Você deve ter sido contaminado pelas ideias de Oswaldo Cruz. Sabe que, por volta de 1903, combatendo a febre bubônica, ele incitava a população a caçar ratos e a vendê-los ao governo a 300 réis cada um?” O ofício de José me surgiu de outro modo, de ratos que vi na plateia do cine Paissandu, mas gostei da referência. 

Agora, o livro está sendo adaptado ao cinema por Eugenio Puppo. Vai contaminar a tela.

* IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO É ESCRITOR E COLUNISTA DO 'C2'

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