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Exposição conta a vida de Lilly Ebstein, ilustradora científica

Museu da Santa Casa abre mostra dedicada à desenhista alemã, que trabalhou com médicos ilustres do século passado

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2016 | 04h00

Num livro recém-lançado, Anatomias – Uma História Cultural do Corpo Humano (Editora Record, 364 págs., R$ 44,90), o escritor e curador de arte inglês Hugh Aldersey Williams (leia abaixo) chama a atenção para o fato de que o homem contemporâneo não dá a devida importância ao corpo, a despeito do avanço da ciência e da nanotecnologia, que hoje permite explorá-lo sob todos os ângulos. As artes, defende o autor, “podem nos fazer revelações sobre nosso corpo que a medicina e a biologia não fazem”. Para isso, ele se dispôs a frequentar um curso de desenho anatômico, mas não demonstrou grande talento para a tarefa. Não é o único. Até mesmo um gênio como Rembrandt, na tela A Lição de Anatomia do doutor Tulp (reproduzida abaixo), teve dificuldades para pintar o braço do morto que está sendo dissecado. Em contrapartida, a desenhista alemã Lilly Ebstein Lowenstein (1897-1966) teria feito o braço com a maior facilidade. Prova disso é a exposição Ciência e Arte – A Trajetória de Lilly Ebstein entre Berlim e São Paulo (1910-1960), que o Museu da Santa Casa de São Paulo abre nesta quarta, 25, às 11 horas.

A mostra marca os 50 anos de morte da ilustradora, que colaborou com os médicos brasileiros mais ilustres do século passado, entre eles Alfonso Bovero. Durante 30 anos, desde sua chegada a São Paulo, em 1925, ela ilustrou teses de doutoramento, revistas científicas e documentou aulas de professores de Medicina, como fez Rembrandt para o doutor Tulp, renomado cirurgião holandês. Tornou-se uma referência na área, ao assumir, em 1932, a chefia da seção de Desenho e Fotografia da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (hoje Faculdade de Medicina da USP).

A exposição de Lilly Ebstein inaugura uma nova fase do Museu da Santa Casa, instalado ao lado da Provedoria. Ele completa 15 anos com planos de expansão, graças ao apoio do novo provedor, o pediatra José Luiz Egydio Setúbal, lembra a diretora June Locke Arruda. “A mostra ocupa uma nova área no prédio da Santa Casa e abre espaço para outras exposições temporárias que pretendemos organizar”, diz a diretora do museu, que recebeu como doação da neta da ilustradora, Ester Lowenstein, um álbum com desenhos originais de anatomia humana. Eles revelam a perícia e a sensibilidade de sua avó, não por acaso casada com um entusiasta das artes, dono da Metalúrgica Aliança, que ocupava o mesmo prédio onde funcionou a primeira sede do Masp, em 1947. Segundo Ester, o museu cobiçava a coleção das obras do pintor e escultor italiano Ernesto de Fiori do acervo da família Lowenstein.

Como De Fiori, Lilly passou alguns anos exercitando seus dons artísticos em Berlim. O período alemão da ilustradora foi marcante. Monica Musatti Cytrynowicz, curadora da mostra e autora do texto do livro dedicado a Lilly Ebstein, cita como seu mestre maior o anatomista Hans Virchow (1850-1940), um professor da Faculdade de Medicina de Berlim e também da Universität der Künste Berlin (Universidade das Artes de Berlim). “Ela foi uma mulher emancipada, que passou pela escola Lette-Verein de Berlim entre 1911 e 1914, quando só havia entre 4.500 e 5.000 mulheres universitárias na Alemanha, França e Itália.” A escola alemã, fundada em 1866, está completando 150 anos e vai receber a mesma exposição itinerante do Museu da Santa Casa.

Lilly Ebstein, lembra a neta, era uma mulher corajosa, capaz de entrar numa sala de dissecação, segurar um coração numa das mãos e desenhá-lo com a outra. E não ficou conhecida apenas pelos desenhos anatômicos do corpo humano. Suas fotomicrografias (fotografias de imagens microscópicas) para o Instituto Biológico, de 1926 em diante, foram de grande valia para o registro de doenças em animais (especialmente aves). Para melhor visualização, nos trabalhos ilustrados por Lilly é possível observar, segundo a curadora da exposição, colorizações desses registros. Lilly, segundo Monica, “também desenhava diretamente com base na observação ao microscópio”.

E prosseguiu nessa sua investigação liliputiana mesmo após se aposentar, em 1955, segundo a neta. “Ela passou seus últimos dias no Guarujá e gostava de pintar xícaras de porcelana com motivos como células”, lembra Ester Lowenstein. Mas Lilly nunca encarou sua atividade como artística. Por isso, ela não deixou desenhos ou pinturas fora da área científica, revela. Mas Rembrandt, que tenou entrar em seu território, não teve o mesmo sucesso como ilustrador anatômico. 

Frankenstein. Nem tudo é o que parece ser na tela A Lição de Anatomia do Doutor Tulp (abaixo), observa o cientista e curador inglês Hugh Aldesery-Williams. O corpo do ladrão Adriaen Adriaenszoon, de 28 anos, estirado em cima da mesa, foi desmembrado pelo médico e remontado por Rembrandt “como o monstro de Frankenstein”, segundo Aldersey-Williams, autor do livro Anatomias. Há, diz ele, controvérsias quando ao fato de a mão dissecada do ladrão, que foi enforcado, ser uma reprodução exata. Rembrandt não era um especialista em anatomia.

O livro do cientista inglês é uma obra que prende a atenção do leitor desde o prólogo, que analisa Rembrandt, até o epílogo, em que ele fala do “transumano”, gênero não mais confinado à ficção científica, segundo Aldersey-Williams, que mistura, em Anatomias, ciência, arte e literatura para investigar como o corpo humano foi tratado na pintura, na música, no teatro e nos romances.

O autor divide seu livro como se desmontasse um corpo. Cada capítulo é um pedaço dele. Quando fala da orelha, cita a de Van Gogh, que decepou a esquerda. Mas, se Van Gogh livrou-se da orelha esquerda, por que diabos aparece com a direita coberta por um curativo em seu Autorretrato com Orelha Enfaixada?  Resposta: há mais de uma versão do autorretrato. Esse, pintado logo após o incidente, deve ter sido feito pelo artista diante do espelho, perturbado a ponto de inverter a posição das orelhas.

Mas, em arte, dividir o corpo em partes tem lá suas vantagens, segundo o cientista inglês. Criminosos notórios eram identificados por xilogravuras do século 16 com traços rudimentares, o que não se aplica ao sistema computadorizado Evo-fit, que permite à testemunha de um crime reconhecer os rostos de suspeitos de modo holístico, com a união de fragmentos de rostos verdadeiros. O livro se vale, enfim, tanto da ciência médica como da filosofia e da literatura para analisar nossa percepção do corpo.

Seu autor recorre a exemplos extremos, como o do agiota Shylock, personagem de O Mercador de Veneza, de Shakespeare. No lugar de exigir juros de um homem que lhe pede dinheiro, ele requisita uma libra de sua carne, caso não pague o empréstimo. A palavra carne aparece 142 vezes na peça. De todos os órgãos do corpo, o mais falado é o coração. É também o mais pintado. O rim, de forma tão agradável quanto o coração, nem conta. Talvez porque venha com sobressalente. 

CIÊNCIA E ARTE

Museu da Santa Casa. R. Dr. Cesário 

Motta Junior, 112, ao lado da Provedoria. 2ª a 6ª., 9h/ 16h30. Agendamento: tel. 2176-7025.

Grátis. Abre nesta terça-feira (24), 11h30. Até 29/7

Cientista acompanha a trajetória artística do corpo

Nem tudo é o que parece ser na tela A Lição de Anatomia do Doutor Tulp (acima), observa o cientista e curador inglês Hugh Aldesery-Williams. O corpo do ladrão Adriaen Adriaenszoon, de 28 anos, estirado em cima da mesa, foi desmembrado pelo médico e remontado por Rembrandt “como o monstro de Frankenstein”, segundo Aldersey-Williams, autor do livro Anatomias. Há, diz ele, controvérsias quando ao fato de a mão dissecada do ladrão, que foi enforcado, ser uma reprodução exata. Rembrandt não era um especialista em anatomia.

O livro do cientista inglês é uma obra que prende a atenção do leitor desde o prólogo, que analisa Rembrandt, até o epílogo, em que ele fala do “transumano”, gênero não mais confinado à ficção científica, segundo Aldersey-Williams, que mistura, em Anatomias, ciência, arte e literatura para investigar como o corpo humano foi tratado na pintura, na música, no teatro e nos romances.

O autor divide seu livro como se desmontasse um corpo. Cada capítulo é um pedaço dele. Quando fala da orelha, cita a de Van Gogh, que decepou a esquerda. Mas, se Van Gogh livrou-se da orelha esquerda, por que diabos aparece com a direita coberta por um curativo em seu Autorretrato com Orelha Enfaixada? (à esquerda) Resposta: há mais de uma versão do autorretrato. Esse, pintado logo após o incidente, deve ter sido feito pelo artista diante do espelho, perturbado a ponto de inverter a posição das orelhas.

Mas, em arte, dividir o corpo em partes tem lá suas vantagens, segundo o cientista inglês. Criminosos notórios eram identificados por xilogravuras do século 16 com traços rudimentares, o que não se aplica ao sistema computadorizado Evo-fit, que permite à testemunha de um crime reconhecer os rostos de suspeitos de modo holístico, com a união de fragmentos de rostos verdadeiros. O livro se vale, enfim, tanto da ciência médica como da filosofia e da literatura para analisar nossa percepção do corpo.

Seu autor recorre a exemplos extremos, como o do agiota Shylock, personagem de O Mercador de Veneza, de Shakespeare. No lugar de exigir juros de um homem que lhe pede dinheiro, ele requisita uma libra de sua carne, caso não pague o empréstimo. A palavra carne aparece 142 vezes na peça. De todos os órgãos do corpo, o mais falado é o coração. É também o mais pintado. O rim, de forma tão agradável quanto o coração, nem conta. Talvez porque venha com sobressalente.

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