Estadão
Estadão

Exposição com esculturas de Ron Mueck chega a São Paulo

Nove trabalhos do artista hiper-realista estarão expostos na Pinacoteca a partir de quinta-feira, 20

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2014 | 03h00

Após passar por duas instituições internacionais, a Fondation Cartier pour l’art Contemporain de Paris e a Fundación Proa de Buenos Aires, e uma nacional, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a exposição do escultor australiano Ron Mueck chega a São Paulo nesta quinta-feira, 20, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. São nove esculturas, algumas de grandes dimensões, três delas recentes, de 2013, que representam uma espécie de crônica social da Inglaterra contemporânea, país onde a tradição realista é forte, representada por pintores como Walter Sickert (1860-1942) e Lucian Freud (1922-2011), dois artistas nascidos na Alemanha que fizeram carreira em Londres.

O curador-chefe da Christchurch Art Gallery da Nova Zelândia, Justin Paton, estudioso da obra de Mueck, prefere agrupar o artista na tradição dos escultores hiper-realistas do barroco espanhol, descartando sua filiação ao barroco italiano (Bernini) ou ao realismo francês (Rodin). Paton tem razão: o australiano não cria suas figuras a partir da extração – do mármore, no caso dos dois artistas mencionados. Como um demiurgo alucinado, ele constrói meticulosamente seus homens e mulheres gigantescos em resina, fibra de vidro, silicone e acrílico, como o casal de velhos banhistas que vai ocupar o octógono e tem 3 metros de altura, 20 centímetros a mais que o monumental Balzac de Rodin e um metro a menos que o David de Michelangelo.

Essas dimensões gulliverianas têm também um sentido pantagruélico, se considerarmos que Mueck, a exemplo do escritor francês Rabelais (1494-1553), é um amante do grotesco. Não será o primeiro nem o último escultor a ser seduzido pelo insólito. Bem antes dele, o escultor norte-americano Duane Hanson (1925-1996), associado tanto à pop arte como ao hiper-realismo, produziu bizarras figuras humanas em vinil e fibra de vidro que se assemelham às de Mueck. Isso fica patente quando se compara os tipos retratados por Hanson – a mulher obesa no supermercado, o casal de turistas aposentados, o jovem drogado – com os tipos do australiano – a deprimida mãe fazendo compras (Woman with Shopping, 2013), os velhos banhistas (Couple Under an Umbrella, 2013) e o jovem negro levantando a camiseta para expor o corte de uma navalha (Youth, 2009).

Apesar disso, a curadora associada da mostra, Grazia Quaroni, que ajudou a selecionar as obras, não considera lícita uma associação entre Mueck e Hanson. Defende que Mueck não leva em conta o contexto social em que a figura ou as duplas de figuras se inserem. Hanson, de fato, deixava explícito esse contexto, como lembra o crítico Justin Paton, ao citar uma das obras icônicas do norte-americano, Race Riot (1969/71), que mostra um policial branco batendo num negro. Paton nota que, ao contrário, os personagens da escultura Jovem Casal (Young Couple, 2013), de Mueck, estão fora do contexto, desorientando o espectador sobre as reais intenções de seu autor. O que perturba nesses jovens retratados pelo australiano, argumenta Paton, é “a mistura de carinho e o desapego” entre eles.

Essa é a menor das obras com duas pessoas que Mueck exibe em São Paulo. Outras esculturas de pequenas dimensões mostram uma grávida com possível depressão pós-parto e seu bebê no colo, além do citado garoto negro esfaqueado. São tipos urbanos, desses com os quais se cruza diariamente nas metrópoles, mas há na exposição figuras campesinas que rementem às fábulas ambientadas no meio rural, como Mulher com Galhos (Woman with Sticks, 2009), roliça matrona que carrega um feixe e parece uma bruxa saída de um perverso conto de fadas dos irmãos Grimm.

Esses tipos bizarros não são recentes na obra de Mueck. Eles já aparecem no início de sua carreira. Australiano de Melbourne, nascido há 56 anos, o artista começou fazendo marionetes e depois, ao se fixar em Londres, passou a trabalhar para a televisão e o cinema (os monstros do filme Labirinto, de Jim Henson, são dele). Seu début está associado à pintora portuguesa Paula Rego, sua sogra, para a qual montou uma exposição na galeria Hayward, onde foi apresentado por ela ao megaempresário Charles Saatchi. O colecionador escolheu uma escultura de Mueck que retrata seu pai morto para exibir na polêmica mostra Sensation, montada na Royal Academy, em 1997, que revelou outros artistas da cena britânica, entre eles Damien Hirst.

O que une Mueck e Hirst, além do laço geracional, é a imobilidade como característica dominante. Hirst conserva tubarões em formol. Mueck congela pessoas em situações desconfortáveis, tentando fixar a realidade em bonecos colossais. Ele desfaz, por exemplo, o glamour da maternidade quando mostra a jovem mãe desprotegida com o filho colado ao corpo, levando nas mãos alimentos comprados no supermercado. Mesmo seu autorretrato (Máscara II, de 2002) revela uma despudorada leitura da tradição moderna, ao reciclar o busto dourado de Brancusi (La Muse, 1912) num registro realista – a posição da cabeça de Mueck é idêntica à do escultor romeno, mas a de Brancusi constitui uma celebração vital, enquanto a de Mueck parece a de um morto. Diferença básica com vantagem para o romeno.

RON MUECK

Pinacoteca. Praça da Luz, 2, 3324-1000. De 3ª a dom., 10 h/ 17h30; 5ª, 10 h/ 22 h. R$ 6 (5ª, 17 h/ 22 h e sáb. grátis). Até 22/2.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.