Frances D'Emilio/AP
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Exposição celebra 500 anos de Tintoretto em Veneza

Último dos grandes mestres renascentistas, pintor deve ganhar primeira retrospectiva fora da Europa em 2019

Frances D’Emilio , AP

26 de dezembro de 2018 | 03h00

VENEZA - Filho de um tintureiro veneziano, Tintoretto, considerado o último grande pintor da Renascença, nasceu e fez carreira em Veneza. Igrejas e palácios locais funcionam como uma retrospectiva permanente do formidável talento do filho da cidade, especialista em usar dramaticamente as cores, pintar em pinceladas largas e inovar ousadamente na perspectiva de suas telas, geralmente enormes. 

Apesar disso – e por isso –, curadores enfrentaram desafios ao montar a exposição deste ano em homenagem aos 500 anos do nascimento do pintor. 

Algumas telas, de tão grandes, não puderam ser incluídas na mostra principal, no Palazzo Ducale, o Palácio dos Doges, porque não passavam pelos estreitos batentes de pedra da construção do século 16. E também várias igrejas venezianas, nas quais o pintor fez a maior parte suas principais obras, recusaram-se a emprestar as peças – embora estejam igualmente ansiosas para que visitantes que fazem o tour Tintoretto visitem suas peças, e não apenas as da mostra monumental, que desde sua inauguração, em setembro, já atraiu mais de 100 mil visitantes.

Após o encerramento da retrospectiva em Veneza, em 6 de janeiro, a mostra viaja para a National Gallery of Art de Washington para uma permanência de quatro meses, a começar em 10 de março. Será a primeira retrospectiva Tintoretto da história a ser realizada fora da Europa. 

Quando Veneza sediou pela última vez uma retrospectiva de Tintoretto, em 1937, telas de igrejas foram cortadas das molduras, enroladas e levadas para a exibição. Esse método horrorizaria o mundo da arte de hoje, especialmente depois que várias obras de Tintoretto foram recentemente restauradas graças à organização Save Venice. 

“Igrejas não gostam, o que é compreensível, de ver suas obras passeando pela cidade”, disse Robert Echols, historiador da arte de Boston e um dos curadores da mostra. Mesmo assim, algumas igrejas cederam quadros para a exposição. 

Algumas as grandes obras de Tintoretto não podem mesmo ser transportadas. Na Scuola Grande di San Rocco, visitantes deitam-se no chão para admirar o trabalho de Tintoretto no teto, que já foi comparado à obra de Michelangelo na Capela Sistina. Graças a uma nova iluminação e a espelhos estrategicamente colocados, visitantes podem agora ver detalhes no que antes parecia um espaço sombrio e cavernoso. 

Echols e o curador adjunto Frederick Ilchman, responsável por arte europeia no Museum of Fine Arts de Boston, dedicaram muito de suas carreiras a reduzir para 300 o que era uma lista de 468 obras atribuídas a Tintoretto. “De certo modo, Tintoretto foi uma vítima do próprio sucesso”, disse Echols.

Tintoretto, pseudônimo de Jacopo Robusti, tinha tantas encomendas, particularmente em seus últimos anos, que passou alguns trabalhos para assistentes, especialmente para seu filho, Domenico. Obras de imitadores foram incorretamente atribuídas ao mestre ao longo de sucessivos séculos. 

Tintoretto manobrava habilmente para conseguir encomendas de nobres e de igrejas durante os anos de ouro da Sereníssima República de Veneza. Ilchman conta que o artista às vezes dava descontos para impedir que encomendas fossem para rivais, como Ticiano e Veronese. 

O uso imaginativo da perspectiva por Tintoretto e sua inventiva interpretação de temas mitológicos e religiosos aparecem em obras expostas. Em São Luís, São Jorge e a Princesa, a cabeça do dragão emerge dentre as pernas de uma mulher. Em O Rapto de Helena, a raptada, com um mamilo escapando do alto da blusa, parece saltar da moldura sobre o espectador. 

Tintoretto teve uma impressionante produção de retratos. A exposição de Veneza traz muitos dos melhores, num longo e estreito corredor que lembra uma galeria de arte do palácio de um nobre. 

Autorretratos cativantes – um de Tintoretto em seus 20 anos emprestado pelo Museu de Arte da Filadélfia, e outro do pintor já idoso, cedido pelo Louvre – abrem e fecham a retrospectiva. A exposição de Veneza em homenagem aos 500 anos de Tintoretto está sendo em 2018. A de Washington será em 2019. A diferença de ano explica-se porque, embora o ano da morte de Tintoretto seja indiscutível – 1594 –, e seu túmulo esteja numa igreja de Veneza, historiadores têm dúvidas quanto ao ano exato em que ele nasceu. Na dúvida, fica-se geralmente com o biênio 1518/1519. / Tradução de Roberto Muniz 

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