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Exposição acompanha a evolução do pintor Alfredo Volpi

Paulo Kuczynski abre neste sábado, 28, mostra com 23 obras do pintor, 5 inéditas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 03h00

Ao conhecer o pintor modernista Alfredo Volpi (1896-1988) em 1968, o marchand paulista Paulo Kuczynski, então estudante de Biologia da USP, ficou intrigado com o que viu na modesta casa-ateliê do artista, no bairro do Cambuci, em São Paulo. Apresentado a Volpi pelo físico e crítico de arte Mário Schenberg (1914-1990), Kuczynski admite que não “entendeu” aquelas pinturas. Foi só a posteriori, sob orientação do marchand Benjamin Steiner, que ele “aprendeu” a ver Volpi. Timidamente, ao voltar ao Cambuci, um ou dois anos depois, perguntou ao pintor se ele aceitava um cheque como depósito para uma tela que pretendia revender.

Volpi, generoso, aceitou a oferta e só descontou o cheque quando o aprendiz de marchand conseguiu vender a tela, indicando ainda vizinhos do Cambuci e amigos que tinham obras suas e, eventualmente, estariam interessados em vendê-las. Foi assim que Kuczynski, por intermédio do próprio pintor, conheceu o crítico e psicanalista Theon Spanudis, integrante do movimento neoconcreto e grande colecionador, que depois doaria parte de seu acervo ao Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP), certamente uma das melhores coleções de Volpi ao lado de outras, particulares, de igual qualidade: as de Ladi Biezus, Sérgio Fadel, Domingos Giobbi, Marco Antonio Mastrobuono e Orandi Momessso.

Kuczynski também se tornou colecionador e conhecedor das obras de Volpi, trocando a Biologia pelo mercado de arte em 1970. Nos últimos quatro anos, após um bom garimpo, selecionou 23 têmperas produzidas entre os anos 1930 e a década de 1960, cinco delas nunca expostas, para organizar a retrospectiva Volpi, Uma Homenagem, com curadoria do crítico Paulo Venâncio Filho e projeto expográfico de Pedro Mendes da Rocha. A mostra será aberta neste sábado, 28, no escritório de arte de Kuczynski, abrangendo desde os primórdios da produção de Volpi, quando ele pintava paisagens e marinhas, até o ponto culminante dessa trajetória, marcada pelo ocaso da perspectiva em suas têmperas.

As cinco telas inéditas que podem ser vistas na retrospectiva representam três fases do pintor: uma marinha de Itanhaém pintada nos anos 1930, uma fachada da década de 1950, um são Benedito e uma santa Luzia do início dos anos 1960 e uma composição de bandeirinhas do final da mesma década. Há ainda outros highlights na exposição: uma natureza-morta de inspiração morandiana e um casario com barcos (ambas as telas dos anos 1950 e reproduzidas nesta página), em que já estão esboçados os traços sintéticos de obras posteriores que aboliram a perspectiva e conquistaram o plano.

É possível dizer que essa retrospectiva “sintetiza a obra inteira de Volpi”, afirma o curador Paulo Venâncio Filho, observando que todas elas provam ser Volpi uma figura fundamental dentro do construtivismo brasileiro, a despeito de ter permanecido à margem de movimentos, seja o concreto ou neoconcreto. Ele concorda com outro crítico, Mário Pedrosa (1900-1981), que destacou a independência artística e ideológica de Volpi, definindo-o como o autor do grito da independência da pintura brasileira em face da Escola de Paris. O curador Venâncio Filho vai além: mostra como ele, “sem maiores traumas, alcançou a planaridade da tela, o que fez dele nosso primeiro pintor moderno”.

Se medo de exagerar, ele diz que Volpi é o Matisse brasileiro – “o pintor da nossa joie de vivre”, destacando-o no cenário tropicalista como o artista que se distancia da melancolia modernista de Tarsila e Anita, da tristeza de Guignard e da angústia de Goeldi. Uma alegria que fascina e contagia.

VOLPI, UMA HOMENAGEM

Paulo Kuczynski Escritório de Arte. Alameda Lorena, 1.661, 3064-5355. De 2ª a 6ª, 11 h/18 h; sáb., 11 h/18 h. Abre hoje, às 11 h

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