Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Exposição 'À Nordeste' reflete sobre "estar fora do centro"

Racismo, migrações e colonialismo são outros temas abordados na mostra, que estreia nesta quarta, 15, no Sesc 24 de maio

Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2019 | 03h00

Nordeste. Mas a nordeste de quê? Foi essa provocação do artista Yuri Firmeza que embasou a tese dos curadores Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos: nordeste é sempre uma posição relativa a um centro. Assim surge À Nordeste, título da exposição do trio que abre suas portas nesta quarta, 15, no Sesc 24 de Maio. Com 343 trabalhos de 160 artistas, a mostra reflete sobre os imaginários que se tem acerca da região brasileira – sem deixar de denunciar as suas mazelas – e questionar tal sentido de ser referência a outro ponto principal. 

E é À Nordeste, com crase, mesmo. O elemento gráfico desafia a ideia da região normalmente dada ao substantivo, ao menos no Brasil, e evita o artigo definido masculino, que traria o entendimento automático do conjunto de Estados. 

O público pode esperar obras que retratam colonialismo, racismo, resistência e arte, elaboradas por diversos artistas como Glauber Rocha, Gilberto Freyre, entre outros, nas mais diversas linguagens. 

Entre os destaques, o famoso quadro Retirantes, de Cândido Portinari. A pintura traz os flagelados pela seca, dentro da discussão sobre migração proposta pela mostra. “Esses trabalhadores deixam o Nordeste em busca de melhores trabalhos, mas vão ser mão de obra precária onde aportam”, diz Clarissa Diniz. 

Ainda no contexto das migrações, natural de Caruaru, agreste nordestino, a artista Ana Lira também participa da exposição e ousa, ao romper os limites do Sesc 24 de Maio: sua proposta é uma intervenção urbana; mais precisamente, uma pintura nos muros da escola de Samba Vai-Vai, que fica na Rua São Vicente, no Bexiga. A sede principal de À Nordeste trará menções à obra, que integra o projeto Sobre Um Sentir Insurgente. “Subverto a função do espaço público: no lugar de anúncios, deixo perguntas”, afirma Ana Lira. 

Nos muros da Vai-Vai, a artista proporá reflexões sobre processos de migração e suas consequências para os que se mudam, citando os nordestinos que vão às grandes cidades em busca de melhores condições de vida. “O Nordeste sempre foi vendido como um território de impotência, quando, na verdade, é um lugar inventivo, com um povo que consegue se transmutar mesmo nos maiores sufocos”, afirma a muralista.

O soteropolitano Ayrson Hieraclito é outro artista que integra a programação. Sua obra Divisor, já exposta, em 2001, na Bienal do Mercosul, é um aquário de água salgada e azeite de dendê, dois líquidos que não se misturam. Eles representam, respectivamente, o Atlântico atravessado pelo navios negreiros e o sangue escravizado derramado no Pelourinho. “É uma imagem que eu faço sobre as questões raciais”, afirma o autor, que entende o racismo no País como resultado da colonização portuguesa escravocrata. “O racismo é estrutural, então temos de lutar contra essa ideologia que segrega, discrimina.” 

A concepção. Clarissa, pernambucana, conta que ela, Bitu Cassundé, cearense, e Marcelo Campos, carioca muito ligado à Bahia, já vinham há tempos discutindo questões relacionadas ao Nordeste brasileiro. O estopim para a formalização do projeto em parceria veio após as eleições de 2018, na qual, segundo a curadora, a população deparou com um debate sobre a região. “Queremos romper com o preconceito histórico que voltou à tona, falando sobre estar a nordeste”, afirma Clarissa. 

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