Expoente dos anos 1980, Leonilson é tema de duas mostras

Duas exposições em São Paulo e livro prestam homenagem ao artista brasileiro

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2014 | 02h00

Celebrado como “herói” ou “anti-herói” de sua geração e de futuras, o artista Leonilson (1957-1993), que trouxe o caráter íntimo e a palavra para suas pinturas, desenhos e bordados, é tema de duas exposições em São Paulo. A maior delas, Leonilson: Truth, Fiction, vai ser inaugurada no dia 9 de agosto na Estação Pinacoteca. Com curadoria de Adriano Pedrosa, a mostra contará com mais de 150 peças criadas, principalmente, entre 1989 e o ano de sua morte. Já a Galeria Superfície, nos Jardins, abre nesta terça-feira, 22, às 19 horas, Leonilson: Verdades e Mentiras, organizada, especialmente, pela pintora Leda Catunda.

É incontornável exibir a obra deste criador brasileiro, expoente dos anos 1980 e 1990, sem trazer à tona sua conhecida história e suas declarações pessoais sobre sua vida e seus amores. Curiosamente, até mesmo essas duas novas exposições do artista têm como característica serem apresentações de olhares de dois de seus amigos para sua produção – Adriano Pedrosa o conheceu em 1989; Leda Catunda, em 1983 (leia abaixo). Morto precocemente, em decorrência da aids, José Leonilson Bezerra Dias adquiriu a “singularidade” de sua arte (ou descolou-se da “Geração 80”), considera o curador da mostra na Estação Pinacoteca, justamente por colocar o texto – frases de cunho poético e autobiográfico, como anotações de sentimentos e pensamentos – em suas criações.

No caso da mostra na Estação Pinacoteca, um dos desenhos de Leonilson, Favorite Game, de 1990 – que traz a figura de um homem entre as palavras “truth/fiction” (verdade/ficção) – tornou-se um “emblema”, diz Adriano Pedrosa, não apenas para que refletisse criticamente sobre a produção do criador, mas também de sua “relação com a história” – noção de história de uma forma geral, que “define tanto os relatos históricos, quanto os pessoais, os factuais e os ficcionais”. “Acho que existe um jogo do Leonilson quando ele fala sobre si próprio, como se fosse um personagem”, considera o curador, que tomou os dizeres de Favorite Game como título da exposição.

“No caso do Leonilson, hoje, ou nos últimos cinco ou dez anos, sobretudo com as pessoas que não o conheceram, existe um problema, que é também da história da arte ortodoxa, de reconstruir e construir a leitura de sua obra por sua biografia e declarações do artista, sobre o que sentia, pensava”, afirma Pedrosa, lembrando das famosas fitas nas quais o artista gravou pensamentos soltos (o material serviu de base para filme que o documentarista Carlos Nader está finalizando sobre o artista). Salta, assim, uma questão: “Como produzir verdades a partir daquele discurso?” – e, nesse sentido, é importante lembrar da retrospectiva que a curadora Lisette Lagnado realizou, em 1995, Leonilson – São Tantas as Verdades (este, nome tirado de um de seus trabalhos, de 1988).

Na exposição que ocupará todo o quarto andar do museu, as obras do artista serão apresentadas em núcleos temáticos. O primeiro, Diário, é como uma passagem mais geral por questões muito próprias e recorrentes na produção de Leonilson, como o autorretrato, o desejo e o duplo (sobre a sexualidade), explica o curador. Seguem, depois, os segmentos Mapas (sobre representações que relacionam corpo/paisagem); Matemática e Geometria (entre o formal e o poético); Brancos (no qual se destaca a presença do tecido); e Capela do Morumbi (recriação da já histórica instalação exibida na Capela do Morumbi em 1993). Mais ainda, um núcleo será dedicado às ilustrações que Leonilson publicou no jornal Folha de S.Paulo nos anos finais de sua vida, e outro, intitulado 1991, vai ser uma sala com pinturas que remetem a um encontro do curador com o artista.

Naquele ano, Pedrosa realizou uma “conversa ao longo de uns dias, em São Paulo e em Nova York” com Leonilson. O material, uma entrevista inédita (com trecho reproduzido abaixo), estará em livro que acompanha a exposição e a ser lançado pela Editora Cobogó.

Olhar afetivo mira obras do início da carreira

Em 1983, Leonilson foi visitar a mostra Pintura Como Meio, na qual o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP apresentava obras dos – então – novos artistas Ana Maria Tavares, Ciro Cozzolino, Leda Catunda, Sérgio Romagnolo e Sérgio Niculicheff (coincidentemente, a exposição é atualmente homenageada na nova sede da instituição). “Ele foi lá e me ligou”, conta Leda Catunda, sobre uma passagem histórica.

Naquela época mesmo, os dois tornaram-se amigos – e no ano seguinte, já estavam expondo juntos na Galeria Luisa Strina, em São Paulo. “Nos anos 80, não existia a figura do artista jovem, mas o Leonilson já veio antes de tudo: antes da Casa 7, de A Pintura Como Meio, e era também dos únicos a ter galeria”, conta a pintora. “Ele exerceu uma liderança e uma influência estética enormes nos seus pares”, completa Leda, que agora se lançou ao desafio de organizar a mostra Leonilson: Verdades e Mentiras, que será inaugurada nesta terça-feira, 22, na Galeria Superfície.

A exposição, diferentemente da que será aberta em agosto na Estação Pinacoteca, joga luz também para a produção mais antiga do artista, do início de sua carreira. Desse período, vale citar a exibição de três pinturas da década de 1980 – entre elas, Carro Invisível, de 1982, e Ícaro e a Queda (1984) – e o desenho Sem título (Saluta, Diane), de 1983. É, entretanto, uma mostra mais reduzida, com cerca de 24 obras (emprestadas de colecionadores e outras, à venda) e compreendendo, nesse conjunto, edições de pequenas peças produzidas em bronze (a da escadinha e do coraçãozinho) – e excetuando os famosos bordados que Leonilson criou no fim de sua vida.

“Desde que ele morreu, os curadores têm predileção pelos últimos anos de sua produção, na qual eu enxergo uma síntese mais forte”, considera Leda. “Tinha uma preocupação dele de fazer os bordados e tudo ficou muito mais dramático, o trabalho, mais pessoal”, continua a artista, contando, curiosamente, que criticou Leonilson quando ele começou a usar a palavra em suas obras.

“Mas a verdade é que adoro suas pinturas dos anos 80, eram espontâneas, mais abertas, e que tiveram uma conexão forte com o que havia na Itália e na Alemanha, porque o Leonilson viajava muito. Acho todas elas poderosas e que não foram suficientemente vistas”, diz ainda. Segundo a pintora, o amigo representava símbolos do que via em seu dia a dia nas obras pictóricas mais antigas e depois esse repertório foi ficando mais pessoal e mais poético.

Como conta Leda Catunda, que foi, inclusive, uma das participantes da fundação do Projeto Leonilson logo após a morte do artista, sua vontade foi realizar a montagem da atual mostra aos moldes dos critérios do amigo. “Ele tinha uma personalidade muito forte”, conta a pintora. Para a ocasião, ainda, ela, que é também uma das criadoras expoentes da arte brasileira, escreveu um texto sobre sua relação com o amigo. “Estávamos sempre muito juntos.” / C.M.

LEONILSON: TRUTH, FICTION

Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66, 3335-4990. 3ª a dom., 10 h/18 h. R$ 6 (grátis aos sábados). Até 9/11. Abre em 9/8.

LEONILSON: VERDADES E MENTIRAS 

Galeria Superfície. R. Oscar Freire, 240, 3062-3576. 3ª a 6ª, 10 h/19h; sáb., 11h/17h. Até 30/8. Abre na terça-feira, 22 de julho, às 19h.

Leia trecho da entrevista inédita com Leonilson:

"Acho importante revelar esses sentimentos da gente. Isso é uma coisa que a gente pode fazer agora. O pessoal conceitual, eles revelavam os sentimentos deles de outra forma. Quando eu vejo um trabalho do Waltercio Caldas, é óbvio que eu vejo uma carga de sentimentos super forte, só que ele revela de outra forma. Eu acho que aconteceu uma virada nessa forma de revelar os sentimentos. A gente tem um comportamento diferente. Assume várias coisas que para àquelas pessoas era mais difícil de assumir. É muito mais fácil para mim falar de um relacionamento amoroso do que o Zé Resende colocar isso no trabalho dele. Porque talvez não interesse, talvez ele prefira guardar seu relacionamento amoroso e revele para as pessoas outra coisa no seu trabalho. Ele revela uma estética, ele revela... sei lá o quê! Mas o que eu posso fazer é isso. Eu poderia fazer um trabalho conceitual. Podia juntar dois tijolos, botar uma rolha no meio e chamar de ‘dentro e fora’, ‘vazio e cheio’. Mas já ensinaram isso para a gente, sabe? O que me preocupa na vida são as minhas relações amorosas, são as minhas relações com as pessoas."

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