Exercício de inquirir e atormentar o verso

Pavese realiza um autêntico trabalho de lapidação de sua poesia até achar a ideal

Aurora Bernardini, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Há obras que ganham compreensão e até mesmo brilho quando precedidas pela leitura da biografia intelectual do autor. No caso de Cesare Pavese (1908-1950), além de uma preciosa autobiografia escrita em forma de diário (O Ofício de Viver, que vai de 6 de outubro de 1935 até 18 de agosto de 1950, nove dias antes do seu suicídio anunciado), há uma coletânea de surpreendentes Ensaios Literários - ainda não publicada no Brasil - que, além de contar com estudos originais sobre os escritores anglo-americanos por ele traduzidos (Crain, Caldwell, Steinbeck, Faulkner, etc., mas principalmente Lee Masters e Melville), que tanto contribuiriam para o estilo direto e cortante da narrativa de Pavese (dez romances e dois livros de contos), que marcava o início do neorrealismo numa época em que na Itália fascista e imediatamente pós-fascista imperava o "angelismo hermético", a "prosa d?arte" e a retórica do inefável, ainda contém curtos ensaios nevrálgicos sobre sua arte de escrever.Numa resposta à enquete da revista Aretusa que, em 1946, lhe perguntava : "Qual a obra de sua autoria que considera a que melhor saiu e que pode, sozinha, testemunhar o caráter de sua arte?", assim respondia Pavese: "Tenho a certeza de uma unidade duradoura e fundamental em tudo o que escrevi ou escreverei - e não falo de unidade autobiográfica ou de gosto, que são tolices - mas daquela dos temas, dos interesses vitais, a teimosia monótona de quem tem certeza de ter tocado no primeiro dia o mundo verdadeiro, o mundo eterno, e outra coisa não pode fazer a não ser dar voltas em torno do grande monólito, retirar dele pedaços e trabalhá-los, estudá-los sob todas as luzes possíveis. Com isso digo também que a obra ?melhor acabada? e que ?pode sozinha testemunhar o caráter de minha arte? é, até hoje, Trabalhar Cansa, logo seguida por Diálogos com Leucò." "Os outros livros" - explica o autor no ensaio Diálogos com o Companheiro - "começam com as coisas de todos os dias: comer, dormir, fazer o amor; se isso não há, o resto todo é conversa. Depois essas coisas se arrumam de modo que se entenda por que acontecem - e quem sabe por que acontecem as coisas? Há infinitos motivos e deve ficar claro que aconteceram a alguém para que nelas se veja o motivo, a experiência que tem o tolo ou o esperto - senão tanto vale deixar de lado e não escrever."A POESIAE como se explica Trabalhar Cansa, que é poema narrativo, na classificação do autor?"A composição de um poema" - escreve Pavese em seu diário, em 15 de dezembro de 1935 - "acontece de um modo que eu nunca acreditaria - se a experiência não me fizesse vê-lo. Movendo-me em torno de uma situação sugestiva uniforme, vou bramindo de mim para comigo um pensamento, encarnado num ritmo aberto, sempre o mesmo. As palavras diferentes e as diferentes ligações vão colorindo e caracterizando a nova concentração musical. E o mais difícil está feito. Só falta agora voltar a esses dois, três, quatro versos, já, nesse estágio, quase sempre definitivos e iniciais e atormentá-los, interrogá-los, ajeitar-lhes os numerosos desdobramentos até alcançar um que fique bem. Nesse núcleo de que falei, está a poesia toda por ser extraída. E cada verso que se acrescenta vai determinando sempre melhor esse núcleo, e excluindo um número sempre maior de enganos da fantasia. Até o ponto em que todas as possibilidades intrínsecas do ponto de partida se acham caracterizadas e desenvolvidas na medida de minhas forças; aos poucos, ao correr da pena, passaram a formar-se novos núcleos rítmicos, identificáveis nas várias ? imagens? individuais da narrativa; e é de má vontade, pois o interesse já está no fim, que chego ao último dos versos conclusivos, verso quase sempre descontraído, descansado, ligado ao início, a recapitular - por alusão - os vários núcleos." Pois bem, o ritmo aberto que Pavese escolheu para Trabalhar Cansa é a sequência de dois sons breves um longo, o anapesto, uma medida (pé) da métrica greco-latina (não silábica) praticada até hoje na Inglaterra, na Alemanha e na Rússia, que se repete de 3 a 6 vezes em cada linha de verso (metro), de modo que, conforme explica Maurício Santana Dias no excelente ensaio que precede o texto bilíngue, após ter aprendido a lição de Pavese-tradutor (traduzir ensina como não escrever !), o que importa não são as rimas (praticamente inexistentes) mas a cadência que se estabelece e que é conservada na tradução.O MITOQuanto à situação sugestiva inicial (núcleo ou imagem ou máxima ou "sentença", que graficamente pode até surgir no fim do poema), ela se transforma em eixo "ético e rítmico" em volta do qual se adensam outras imagens, em uma alternância por ela iluminada. Em geral esta imagem inicial, mas mesmo as outras, podem ser consideradas mitos, na poética de Pavese. Em Diálogos com Leucò (em prosa, mas com cadência, igualmente traduzidos por Maurício Santana Dias), é evocado um mito clássico em cada um dos diálogos que se estabelece entre dois protagonistas, com seus "belos nomes carregados de destino, mas não tanto de caráter psicológico". (Pavese, versado desde o colégio em estudos clássicos, privilegia Heródoto e Platão por mirarem não tanto às personagens quanto "ao ritmo dos eventos ou à construção simbólico-intelectual da cena" (entrevista radiofônica para a rubrica Escritores ao Microfone, 12 de junho de 1950.) Segundo Sandro Briosi (Letteratura Italiana del Novecento), os mitos de Pavese evocam a infância, única idade autêntica e verdadeira (como em Vittorini, seu amigo e contemporâneo), e o acompanham e condicionam por toda a vida. Viver é então reencontrar na idade adulta aqueles núcleos remotos de sentimento e de fantasia, em contato com as razões mais profundas e mais íntimas de sua própria psicologia, mais do que se esforçar por participar ativamente e conscientemente da História (na vida prática, porém depois da guerra, Pavese militou como intelectual comunista de ponta). A ideia de que a verdade de um fato ou de um personagem seja sua substância mítica e da tendência em representar um e outro de modo que a crueza da linguagem se funda com um ritmo narrativo lírico levou a crítica a considerar Pavese um dos últimos representantes do "decadentismo" novecentista. Entretanto, a conceituação que Pavese tem do mito remonta à Scienza Nuova de Giovanni Battista Vico "narrador de uma aventura intelectual, descritor e evocador rigoroso de um mundo" - o mundo heroico dos primeiros povos - que sempre interessou ao escritor. "Em cada cultura, em cada indivíduo, o mito é por sua natureza monocórdio, recorrente, obsessivo" - diz Pavese em Raccontare è Monotono. "Tal como nos atos de culto, a evidente monotonia não ofende os crentes, mas os mornos, assim também é na poesia. É preciso acreditar, ou seja, não ter ainda resolvido o mito inspirador. Aliás, dizer estilo é dizer cadência, ritmo, retorno obsessivo do gesto e da voz, da própria posição dentro da realidade. (...) Fora de qualquer campo confessional há algo em nossa experiência que lembra aquele instante vertiginoso em que o tempo para, um universal fantástico que, para cada indivíduo - nisso está a diferença com o mito religioso, sempre coletivo -, inspira uma paixão análoga."Diferentemente de Walt Whitman, cuja obra foi objeto de sua tese na Universidade de Turim, Pavese canta o trabalho sem triunfalismo. Diferentemente de Montale, o escritor "que na vida privada experimentou intensamente o sentido de não pertencimento montaliano, sempre relutou em confrontar o real inautêntico ou sua própria alienação", diz Santana Dias. Sua ambição como poeta e literato foi de natureza ambígua: fundir numa única unidade as duas inspirações conflitantes de sua obra: o olhar aberto à realidade imediata, cotidiana e "enrugada" e o trato profissional, artesanal e humanístico dos clássicos como se fossem contemporâneos e vice-versa: a cultura entendida como ofício. Aurora Fornoni Bernardini é professora de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP

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