Excessos do cineasta têm recepção fria

Na busca por humanizar personagens, ele constrói 'italianos para exportação'

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Na imersão em seu mundo natal, Giuseppe Tornatore não deixa também de celebrar sua obra pregressa, em especial a que o transformou em celebridade mundial - Cinema Paradiso, Oscar de filme estrangeiro de 1988. As aproximações são claras e referem-se à presença do cinema na vida das pessoas, dos filmes mudos dos anos 30, passando pelas comédias italianas e a invasão do cinema americano no pós-guerra. O menino que coleciona pedaços de películas roubadas não é apenas uma alusão a Totò, o garoto de Cinema Paradiso. É, também, afirmação de que o cinema não apenas pode ser um entretenimento entre outros, mas, de certa forma, é a arte que, no século 20, forneceu às pessoas uma maneira de ver e interpretar o mundo.

Daí que as alusões, menos claras mas perceptíveis, se fazem também ao maior memorialista do cinema italiano, Federico Fellini. Como Fellini foi a Rimini em busca de suas lembranças e fantasias e delas tirou Amarcord, Tornatore também foi a Bagheria fazer sua prospecção afetiva. Fellini tinha o dom de fazer da extravagância algo sublime. Esse talento não é dado a todos. Daí que os exageros de Tornatore não têm por efeito humanizar seus personagens. Pelo contrário, muitas vezes os transformam em caricaturas, daquele tipo "italiano para exportação" no gestual, no modo de ser, na maneira como falam e se comportam. Essa concepção contamina a linguagem, típica do "cinema de arte feito para o grande público": fotografia adocicada, uso excessivo de gruas, etc. A tonelagem da música de Ennio Morricone também não contribui para aliviar o peso do filme. Pelo contrário, faz com que ele pague excesso de bagagem.

O resultado é que, feito para emocionar, Baarìa foi recebido com frieza e palmas protocolares na sessão de imprensa, público cuja maioria, obviamente, é composta por italianos.

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