Excesso de beleza prejudica

E o diálogo do diretor com o western impõe limites

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2009 | 00h00

Há uma comparação inevitável com O Menino da Porteira, e não é o filme antigo, feito pelo próprio diretor Jeremias Moreira Filho, há 32 anos. Afinal, o Menino original fez sucesso de público, mas não a ponto de marcar a história do cinema nacional. Pertence a uma outra era, quando a relação do público com o cinema era outra, mais calorosa. O parâmetro do novo Menino talvez seja 2 Filhos de Francisco e isso pode ser injusto. O filme de Breno Silveira não era apenas, até o começo da semana, o maior êxito de público da Retomada - agora substituído por Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho -, como também um filme de uma brasilidade muito forte, numa vertente popular que trabalha o sertanejo e o caipira com rigor. Veja o trailer de O Menino da Porteira Embora Breno Silveira fosse fotógrafo - de Carlota Joaquina, de Carla Camurati, marco zero da Retomada -, Francisco evitava ao máximo o clichê do filme bonito. Essa é a primeira cilada em que caem Moreira Filho e o diretor de fotografia Pedro Farkas. O personagem do menino tanto poderá encantar como irritar - faz caras e bocas, força a empatia, até porque sua perda vai ser o grande motor para o desfecho. O próprio romance, entre o personagem de Daniel e a ?cabocla? Vanessa Giácomo, é um dos menos tórridos do cinema brasileiro recente.Talvez isso tenha a ver com uma influência do diretor. Moreira Filho dialoga com o western, gênero que, no passado, era visto como o cinema norte-americano por excelência. Mocinhos de westerns, você sabe, sempre viveram na estrada. O arquétipo de todos eles, Shane, de Os Brutos Também Amam, de George Stevens, também chega e parte sem deitar raízes e, menos ainda, prender-se à mulher.O aspecto mais interessante é a oposição entre o herói e o coronel, um diferencial do primeiro filme (e uma atualização da questão agrária no País). José de Abreu cria um coronel jeca que funcionaria melhor sem os excessos do ator. A cena emblemática, a mais ambiciosa, é quando Daniel canta Disparada, de Geraldo Vandré. "Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata/ Mas com gente é diferente." A montagem paralela da cena resume a crítica (social) do diretor. Moreira Filho é tão generoso que dá vontade ser generoso com ele, mas o filme não ajuda. A narrativa é truncada, o melodrama é frágil, as interpretações, de maneira geral, pouco convincentes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.