TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Ex-curadora da Bienal de Arte de SP escreve carta aberta ao novo presidente da Fundação Bienal

Sheila Leirner faz considerações sobre as declarações de João Carlos de Figueiredo Ferraz na entrevista concedida ao 'Estado' em 17 de dezembro

Sheila Leirner, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Dezembro 2016 | 15h10

Face aos equívocos e à gravidade de algumas declarações do novo presidente da Bienal, João Carlos de Figueiredo Ferraz, na entrevista que concedeu ao Caderno 2 (dia 17), sinto-me na obrigação de me exprimir. Considero-me à vontade para fazê-lo, por três razões. A primeira, por ter acompanhado, enquanto espectadora e depois crítica, o processo e a contribuição desta instituição durante mais de cinco décadas. A segunda, por ter atuado em seu seio durante oito anos, primeiro como membro da Comissão de Arte e Cultura, depois como curadora-geral. E a terceira, por não possuir nenhum desejo de voltar a trabalhar ali, e nenhuma outra ambição em relação à este estimado organismo se não a de vê-lo brilhar no âmbito nacional e internacional.

Penso, evidentemente, que se deve louvar o compromisso do novo presidente, de abrir o arquivo ao grande público, destinando um espaço permanente aos interessados, digitalizando os seus 65 anos de história. Com todos os percalços sofridos por esta importante "memória" da mostra internacional, há tempos que se espera por esta decisão. Por outro lado, os argumentos que se seguem inquietam e semeiam confusão acerca de aspectos essenciais, sobre os quais se deve refletir.

Por mais que as atribuições e programas institucionais ultrapassem a exposição (programas educacionais, itinerâncias, etc) - por melhor que se queira preservar a Bienal do olhar e bolso implacáveis de seus parceiros e patrocinadores -, é no mínimo incongruente dizer que "não se pode confundir mostra e instituição", quando um evento que consumiu R$ 25 milhões não esteve à altura do seu alcance e prestígio. Claro que é da consistência e vigor de suas manifestações, e a história já o provou, que dependem a credibilidade, o reconhecimento (e o patrocínio) da nossa Bienal!

Outro engano: mesmo admitindo as críticas negativas à 32a Bienal (não só de especialistas como também de boa parte do público, é bom lembrar) o novo presidente diz "não ser favorável a conceder carta branca à curadoria”. Isto quereria dizer que, segundo ele, certos curadores tiveram "carta branca"? Que o projeto deles não foi discutido com outras instâncias artísticas e administrativas da instituição? Porque afirmar que “talvez se tenham que discutir projetos com o próximo curador, ou curadores"? Não é isto que ocorre usualmente? Ou esta declaração faz supor, ao contrário, que estaríamos diante de um "regime" no qual um presidente pudesse assumir autoritariamente as funções do seu "primeiro ministro"?

Que se saiba, não existe "carta branca a uma curadoria". Assim como não existe "carta branca" a um "primeiro ministro". Assim como não existem governos uniarticulados. Por mais que se lhes delegue em confiança, curadores jamais trabalham sozinhos, e nem podem, mesmo porque a bienal - se somarmos todos os seus foros e setores (da presidência, conselho e diretoria, até os montadores, passando pelo setor artístico) - é um trabalho, fundamentalmente, de equipe. A cada um, a sua competência.

Não é porque Figueiredo Ferraz tem "livre trânsito entre curadores, marchands e galeristas por sua condição de colecionador" que poderá ingerir-se "na hora de escolher esses projetos curatoriais". Se assim fosse, o curador que aceitasse esta tarefa já estaria de antemão desacreditado, e a exposição definitivamente comprometida. Figueiredo Ferraz, enquanto presidente, terá funções totalmente diversas, por vezes muito mais importantes do que as de seu futuro "primeiro ministro". É neste ponto que insisto sobre a necessidade democrática de uma nova Comissão (ou Conselho) de Arte e Cultura, grupo que - ele sim -, poderia (e deveria) intervir com discussões e sugestões, como aconteceu nos anos 1980, nos projetos curatoriais.

Mais um equívoco: declara o novo presidente que "não pode concordar quando acusam a Bienal de não retratar a arte do nosso tempo, pois é preciso distanciamento para analisar essa produção". Ora, se exposições e instituições estão entrelaçadas, arte e instituições não estão. Fazer um projeto curatorial para uma Bienal não é uma "análise", é o apanhado de uma produção significativa. Não deve haver distanciamento. Já dizia Harold Rosenberg, "o crítico (ou o curador) só pode atuar em meio à turbulência dos valores nos quais a arte se origina". "Distância" é o espaço para uma medida de "permanência" ou "valor", coisas que podem interessar a um colecionador (ou a um marchand) porém não a um curador. Este deve pretender criar o análogo mais perfeito possível, uma “fotografia” do estado artístico atual, sempre democraticamente, a partir da arte, de baixo para cima.

Quanto à história, ela é fundamental. Muito ao contrário de uma "zona de conforto", como afirma Figueiredo Ferraz, certos trabalhos históricos em relação à arte contemporânea são absolutamente referenciais, pontos de relativização, ligação e compreensão. Constituem ricos mananciais de analogias, que só funcionam quando presente e passado são exibidos lado a lado. Não é "para se ver mestres do passado" que se convida a história às mostras contemporâneas. 

Ser "contra a realização da Bienal em vários lugares", dizer que o "formato é bom" e querer "desocupar o andar do MAC para ganhar 25 mil metros quadrados", antes de receber um projeto curatorial, conhecer o seu tamanho e saber se é daquele espaço que as obras irão precisar (e não de lugares externos), é outro disparate. E, para a classe artística, também uma preocupação. Só resta desejar que a carroça volte a ficar atrás dos bois, que esta gestão seja democrática, profícua e voltada ao que mais a Bienal diz respeito: o público e a arte.

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