Ex-Brasil

Aos 6 anos me mudei para o Rio de Janeiro. Meu pai fugia do estigma de paulista comunista inimigo da ditadura. Cassado e exilado dois anos antes, no Golpe de 64, voltou para o Brasil clandestinamente e imaginava ter menos visibilidade e mais oportunidades na Guanabara.Moramos no Leblon, a três quadras da Favela do Pinto. Na época, o bairro não tinha o status de hoje. Havia a favela dentro e um conjunto popular que assustava a elite, a Cruzada, o primeiro do gênero - criado por dom Hélder Câmara. Bacana era morar em Copacabana e Ipanema.Jogávamos futebol na rua. Eventualmente, o jogo era interrompido: "Olha o carro." A regra era parar imediatamente. Cada rua tinha um time, com moradores da favela. A maior glória era jogar no campinho de terra da Cruzada. Lá, havia torcida e o campeonato definitivo.Minha rotina era de uma paz que nunca mais encontrei. Vivia na ex-capital do País, mas era como se eu estivesse numa pacata vila.Aos 8 anos, eu pegava ônibus para ir à escola, Colégio Andrews, em Botafogo. De camisa de abotoar e bermuda azul de algodão, um sapato desconfortável preto e meias brancas escondendo as canelas, eu cruzava a favela. Invejava os amigos que não tinham aula e jogavam o dia inteiro.Eu circulava pelo bairro de bicicleta. Muitas vezes, tinha de parar para cumprimentar e papear com os amigos. Nunca fui assaltado. Nunca sofri qualquer tipo de violência. Psicopatia social não estava em nossos dicionários.Pulávamos o muro do Clube Paulistano, para jogar bola. Depois, dividíamos o milk-shake com os que não tinham dinheiro. Enfiávamos vários canudinhos num mesmo copo e contávamos até três. Sorte daqueles que, com bons pulmões, conseguiam sugar mais rapidamente o sorvete.No domingo, lotávamos uma Kombi para ir ao Maracanã, assistir ao Flamengo de Fio Maravilha, time do bairro. Os pais se revezavam. O meu nos levou certa vez. Ficou surpreso com a quantidade de palavrões que conhecíamos.Num dia de semana, a praia amanheceu apinhada. Toda a favela correu para lá. Estavam chamuscados. Crianças choravam. Carregavam seus pertences. Na água, bonecas com fuligem. A favela tinha pegado fogo. Foram os militares, diziam. Até hoje pairam dúvidas. Viram helicópteros do Exército sobrevoando a favela na noite da tragédia.O tumulto durou uns dias. Certa manhã, tomávamos café, e um grupo de moleques invadiu a nossa casa. Não falaram nada. Foram pra geladeira e comeram com as mãos o que encontraram. Nem nos levantamos da mesa.Enfim, foram removidos. O filme Cidade de Deus começa com os favelados chamuscados chegando à sua nova morada, coincidentemente recém-inaugurada.O terreno abandonado foi aterrado em tempo recorde. Em meses, subiram prédios de até 17 andares. Os apartamentos foram comprados exclusivamente por militares, que receberam empréstimos descontados diretamente da folha de pagamento (soldos). O condomínio, que se estende por grandes quadras, com uma praça no meio, recebeu o apelido de Selva de Pedra, em homenagem à novela da Globo que fazia sucesso.A especulação imobiliária expulsou o democrático futebol de rua. Enviaram os pobres para os guetos. E o convívio pacífico virou poeira.Toda a molecada do bairro fazia uma conexão no Central-Gávea, ônibus 174 - o mesmo sequestrado por Sandro Nascimento décadas mais tarde. Descíamos, depois da escola, para assistir a filmes de arte.Educação sexual naquele tempo era uma piada, quando havia. O que aprendíamos estavam nos livros de Medicina Legal, no catecismo do Zéfiro, vendido clandestinamente nas bancas, e nos filmes proibidos para menores.Instalado na Rua Jardim Botânico, na rota dos ônibus que vinham de Botafogo, o Cinema Floresta, inaugurado em 1922, que em 1960 mudou o nome para Jussara, educou uma geração.Não sabíamos a diferença entre Nouvelle Vague e Cinema Novo. Nem que aquelas imagens causavam uma revolução da linguagem. Godard, Truffaut, Glauber? Não guardávamos os nomes dos diretores. Lotávamos a sala, pois o porteiro não pedia carteirinha, e queríamos ver mulheres nuas.Talvez a curiosidade tenha formado uma geração de cinéfilos. Muitos sonharam com Norma Bengell, nua em pelo, correndo em direção à câmera, numa praia deserta, como se suplicasse pelo nosso carinho - inesquecível cena de Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Norma, Joana Fomm, Odete Lara, Leila Diniz foram nossas primeiras paixões.Admirávamos os franceses, com suas lindas atrizes, despudoradas, que não se intimidavam diante das câmeras e ainda por cima ganhavam prêmios. Sonhávamos com as personagens volumosas e pálidas de Roma, de Fellini.As incongruências do regime se ampliaram - que endurecia e censurava, empastelava e prendia, proibia peças e livros, mas não a pornochanchada.O pequeno cinema conhecia o seu nicho. Dedicou-se ao gênero que deu sobrevida ao cinema nacional, porém arranhou por décadas o seu prestígio. Todas ficavam peladas. Até as estrelas das novelas.Na tevê, Lucélia Santos botava nossas mães para chorar no dramalhão Escrava Isaura. Na sala do cinema cheio de baratas, nos apertávamos para vê-la nua em Não Se Faz Amor Como Antigamente.Os nomes provocavam a nossa imaginação, como Eu Dou O Que Elas Gostam, E O Que Elas Gostam Não É Mole, ou o clássico de Carlos Imperial, A Ilha das Cangaceiras Virgens.Quando voltei para São Paulo em 1974, conheci a versão paulista do pulgueiro do Jardim Botânico: o Cine Bijou, na Praça Roosevelt.O Jussara fechou em 1976. O Bijou virou um teatro. A internet nasceu. E a ingenuidade foi perdida. O saudosismo é a desculpa de quem não se transforma. O Brasil não era melhor nem pior do que é hoje. Era apenas outro País.Estreia hoje no Sesc Paulista a minha peça mais recente, A Noite Mais Fria do Ano, uma história de amor, ciúmes, equívocos e confrontos.Depois de ser dirigido como ator por Fred Kliman, João Albano e Fernanda D?Umbra, de acompanhar ensaios de Antunes Filho no CPT, de ser parceiro dos diretores Paulo Betti, Rafael Ponzi, Ricardo Karman e Mauro Mendonça Filho, que dirigiram meus textos, coloquei a mão na massa e me atrevi a dirigir a versão do autor.Não foi a primeira vez. Dirigi oito cenas para os Parlapatões há um ano. Inclusive Hugo Possolo e Paula Cohen, que estão no elenco com Alex Gruli e Mário Bortolotto, com quem dividi o palco como ator em Rourke Song, na última Satyrianas. Deu liga. Ficamos até maio. Nem preciso dizer, certo? Leia também o blog de Marcelo Rubens Paiva em http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva

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