''Eu só trato das relações familiares''

James Gray fala da sua arte, influências e do mais recente trabalho, Amantes

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2009 | 00h00

Ainda existem resistências a James Gray entre os críticos brasileiros, mas na Europa ele já é considerado um grande autor há tempos. No ano passado, Gray concorreu em Cannes com Two Lovers. Batizado como Amantes, o filme estreia hoje nos cinemas brasileiros. Muitos críticos jogavam todas as fichas em Amantes para a Palma de Ouro de 2008. O júri presidido por Sean Penn preferiu premiar Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, mas, depois, publicações rivais, como Cahiers du Cinéma e Positif, uniram-se no culto ao cineasta e colocaram Two Lovers na ponta das preferências de ambas as redações, na lista de melhores filmes do ano passado. Este ano, James Gray voltou a Cannes - como jurado. Ele visivelmente não rezou pela cartilha da presidente do júri, Isabelle Huppert. Na premiação, estava emburrado. Na internet, soltou o verbo. Chamou-a de ?bitch?, acusou-a de autoritarismo - e de manipular o júri para dar a Palma a A Fita Branca, de Michael Haneke. Assista ao trailer de Amantes No ano passado, o repórter do Estado teve um encontro - tête-à-tête - com James Gray. Foi no Hotel Majestic, em plena Croisette. Já era meio-dia, ele estava cansado, queria almoçar. A entrevista parecia que ia emperrar. Uma observação bastou para reavivar o interesse de Gray. Nascido no Queens, em Nova York, de ascendência judaica, Gray adora a ópera e o melodrama italianos. Essa mistura, presente em seus policiais, remete a um gênio do cinema, Luchino Visconti - que ele ama.Desde Little Odessa que seu cinema trata sempre de relações familiares. Você curte os gêneros fortes, o policial, por exemplo, mas o tom é romântico. Diria que, como François Truffaut, você é um romântico que desconfia do romantismo.É uma definição lisonjeira, Truffaut... As relações familiares são importantes para mim, é óbvio. Meu cinema praticamente não trata de outra coisa. Isso tem a ver com minha ascendência e também com certas preferências literárias e cinematográficas. A família pode ser fonte de tormento e alegria. Laços de sangue muitas vezes são grilhões pesados de carregar. Envolvem muita cobrança, podem desencadear pulsões destrutivas. Mas, sim, você tem razão. Sou um romântico. Adoro ópera e melodrama. Mas tento ser um homem do meu tempo e desconfio do romantismo exacerbado, que pode nos fragilizar.Lembro-me de que, aqui mesmo, em Cannes, ao entrevistar Charlize Theron por Caminho sem Volta, ela me disse que você havia mostrado Rocco e Seus Irmãos a seu elenco. E se eu lhe dissesse que percebi uma referência a Rocco em Amantes? Quando Gwyneth Paltrow entra correndo na casa, e na vida de Joaquin Phoenix, fugindo do pai, com quem discute, é a repetição exata da entrada em cena de Nadia, Annie Girardot. Estou errado?Certo! Pouquíssima gente percebe isso. Aliás, acho que a maioria nem acredita que essa ponte seja possível. Imagine, um diretor norte-americano interessando-se por um grande italiano... Só (Martin) Scorsese, porque, afinal, sua ascendência é italiana e fica mais fácil aceitar que o neorrealismo tenha sido importante em sua formação. Mas Visconti é sempre uma referência muito forte quando se quer falar de família e é cinéfilo. Eu sou. (Francis Ford) Coppola é. Rocco também está presente na saga do Chefão, principalmente no primeiro filme. O fato de eu ser de origem judaica não muda nada. No set de Caminho sem Volta, mostrava Rocco porque queria que Charlize, e Joaquin Phoenix e Mark Wahlberg, entendessem a complexidade das relações familiares, o que elas podem carregar de amor e ódio. Simone destrói a vida de Rocco, mas a relação de sangue é forte e Rocco o acolhe mesmo depois que ele matou Nadia, o amor de sua vida.Amantes é um filme muito intenso sobre amor e desejo. Joaquin Phoenix quer se matar, mas reencontra um motivo para viver no amor de Gwyneth Paltrow. Só que ela já tem outra relação e a aproximação é complicada.Não apenas a aproximação. A história toda é uma ?mess? (confusão). Seus pais, ou melhor, sua mãe quer que ele se envolva com outra mulher. Gwyneth é uma estranha que ela tem dificuldade para aceitar. Queria dar ao filme essa textura muito intensa que só se encontra na grande literatura romântica, nos maiores melodramas e na ópera. O amor como sentimento visceral. Truffaut também tinha isso.Para expressar esses sentimentos tão fortes, você precisa de grandes atores. Joaquin Phoenix é maravilhoso. E ele diz que está parando com o cinema...Se dependesse de mim, ele não pararia nunca. Eu poderia escrever roteiros só para Joaquin, pois ele pode ser tão bom na ação quanto é nos sentimentos. É um ator que trabalha a emoção de dentro. Você precisa vê-lo no set. Às vezes, você grita ?Corta!? e Joaquin continua imerso no personagem. Sua concentração é excepcional. Ele impôs um padrão alto para Gwyneth e Vinessa (Shaw, que faz a namorada preferida da mãe). O que meu filme é, devo a eles. ServiçoAmantes (Two Lovers, EUA /2009, 110 min.) - Drama. Direção de James Gray. 14 anos. Cotação: Ótimo

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