''Eu sentia medo de ter o fim trágico da Anne Frank''

A bósnia Zlata Filipovic fala sobre seu diário escrito na guerra

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2008 | 00h00

Ela é conhecida, ainda que a contragosto, como a "Anne Frank de Sarajevo" - como a famosa menina judia, que viveu escondida o fim da 2ª Guerra e registrou seu infortúnio em um diário, a bósnia Zlata Filipovic também ganhou notoriedade por fazer anotações pessoais sobre a guerra na ex-Iugoslávia. Dores e apreensões que se transformaram no livro O Diário de Zlata (Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn e Antonio de Macedo Soares, 200 páginas, R$ 32,50), vigoroso registro de como o horror da guerra destrói a inocência da infância.Uma das principais convidadas da Bienal do Livro de São Paulo, Zlata (que hoje vive na Irlanda, depois de uma temporada em Paris) vai contar como seu diário foi escrito ao longo de dois anos, entre 1991 e 1993. Inicialmente um relato pueril do cotidiano, com a guerra, tornou-se o relato de medo, raiva e perplexidade. Editado em servo-croata pelo Unicef, o livro logo foi traduzido para diversos idiomas e transformou sua autora em arauto dos horrores da guerra da Bósnia, em especial os que atingem os mais jovens.Afinal, na última década, 2 milhões de crianças foram mortas em situações de conflitos armados, enquanto outros 6 milhões foram mutiladas ou feridas. Os números constam na introdução de Vozes Roubadas (Companhia das Letras, tradução Augusto Pacheco Calil, 368 páginas, R$ 37), livro organizado por Zlata e Melanie Challenger, que resgataram 14 diários de conflitos escritos por crianças ou jovens, da 1ª Guerra Mundial à recente invasão do Iraque, passando pelo Vietnã, pela Intifada e por diversos momentos da 2ª Guerra Mundial. Sobre o assunto, Zlata, que estará no sábado, às 15 horas, no Salão de Idéias, conversou, por e-mail, com o Estado.Você esperava que seu livro teria tamanho impacto?Acho que o conteúdo do meu diário é, ao mesmo tempo, muito estranho e comovente. Era apenas um pequeno diário de uma garota que escrevia em tempos de paz, sem jamais imaginar que alguém fosse lê-lo, a não ser ela mesma. Graças à guerra, o escrito se tornou mais interessante e, depois de uma série de circunstâncias e coincidências, foi publicado e lido em boa parte do mundo. É estarrecedor que, ainda hoje, jovens continuem lendo o diário, aprendendo algo e se emocionando - inclusive jovens nascidos na Bósnia depois da guerra. Recebo e-mails deles e fico muito sensibilizada.O que você acha de ser chamada de a "Anne Frank de Sarajevo"?Nunca gostei muito desse rótulo, especialmente quando me chamavam assim durante a guerra na Bósnia - eu tinha muito medo de ter o mesmo trágico destino que ela. Mas entendo que, para jornalistas e outras pessoas, é uma fácil referência. Anne era uma escritora fantástica, uma bela pensadora, e eu jamais poderia ser comparada com ela - mesmo que ela tivesse sobrevivido, certamente continuaria uma boa escritora, estou certa disso. Acredito ainda que comparações não são precisas, mas entendo essa com Anne Frank.Qual a necessidade que você tinha de contar sua história, ainda que apenas para você mesma?Sempre me interessei em colecionar ingressos de cinema, cartões-postais, cartões de aniversário. Assim, ao guardar esses pequenos momentos da minha trajetória, eu já era uma autora de diário por natureza. Essa é a razão por que continuei escrevendo durante a guerra, obviamente sem a intenção de ser publicada. Para mim, a escrita tinha também um enorme efeito terapêutico - ali, naquelas páginas, eu podia exteriorizar todos os meus pensamentos, o que me ajudava a entender claramente o que se passava ao meu redor.Você acredita que existam hoje outras garotas na mesma situação?Estou certa de que existam milhões - sempre pensei em quantos diários foram escritos em Sarajevo e que poderiam ter sido publicados em vez do meu. Foi uma sorte que justamente o meu tenha tido esse destino. Enquanto trabalhava no livro Vozes Roubadas, percebi a existência de inúmeras pessoas que optaram por criar e colocar no papel seu desejo de escrever.No mundo atual, quem você imagina estar à frente: as pessoas que utilizam as palavras para destruir ou os agitadores da palavra?Creio que é uma luta cada vez maior da criatividade diante da destruição. É preciso manter firme a resistência e deixar nossa criatividade sempre forte.Como escritora, que tipo de desafios você abraça? E, no sentido oposto, quais você evita?Adoro enfrentar o desafio de, madrugada adentro, ao som apenas da música do rádio, transformar uma página em branco em literatura. Nem sempre sou boa em respeitar prazos, mas faço o possível para não atrasar.

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