''Eu preciso mudar para sobreviver''

Claudio Abbado fala da revolução que o câncer provocou em sua vida e carreira

Tom Service, THE GUARDIAN, SARDENHA, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

O maestro italiano Claudio Abbado vem trabalhando em seu jardim no noroeste da Sardenha há 40 anos. "Quando me mudei para cá, a única coisa que havia eram essas buganvílias", diz ele. "A cada ano, nós construímos algo, plantamos mais alguma coisa." O terreno segue uma encosta íngreme até o Mediterrâneo. No píer, sob um toldo, um estandarte proclama "Venezuela", presente dos músicos da Orquestra Simon Bolívar. Abbado vai trabalhar regularmente em Caracas com os alunos do Sistema, criado por José Antonio Abreu, "um santo", diz. Veja trecho da Sinfonia nº 9 de MahlerA casa na Sardenha é seu refúgio, onde, aos 76 anos, prepara os poucos programas que faz por ano. Sua agenda foi reduzida desde 2000 por conta da luta com um câncer de estômago. Ele perdeu o glamour juvenil, tornou-se uma presença intensa, espectral. Hoje, está estável e melhorando. Na Sardenha, parece relaxado, jovial e enérgico. "A música me dá energia", diz.Quando o câncer o atingiu, Abbado era regente principal da Filarmônica de Berlim (ele manteve o posto oficialmente até 2002). Nascido numa família de músicos e acadêmicos de Milão, em 1933, estudou no Conservatório Giuseppe Verdi em Milão; um ano depois de se formar, venceu um concurso de regência nos Estados Unidos e fez estreias importantes em Viena e no Scala de Milão. Mas decidiu afastar-se dos holofotes, ensinando música de câmara em Parma. Após esse isolamento autoimposto, de três anos, sua carreira decolou. Foi encarregado da ópera no Scala de 1968 a 1986; dirigiu a Sinfônica de Londres de 1979 a 1988; foi, então, diretor da Ópera de Viena.A transformação daqueles "tempos malucos" na relativa calma atual lhe agrada. "Tenho mais tempo para estudar." Mas será que ele teria feito essa mudança sem a doença? "Provavelmente, não. Mas preciso mudar para sobreviver. E isso significa que agora, quando estudo, vou mais fundo." Abbado faz seus estudos aqui, na Sardenha, em um pequeno flat embaixo da casa principal. O quarto está tomado por gravuras de Egon Schiele, imagens frágeis, torturadas, que simbolizam o tempo e o lugar que mais o fascinaram: a Viena da virada do século, a cidade de Bruckner, Schoenberg, Berg e, sobretudo, Mahler.Foi com a Sinfonia nº 2 - Ressurreição, de Mahler, que Abbado fez sua estreia em Viena, em 1965. A Sinfonia nº 6 estava no programa quando ele fundou a Orquestra Jovem da Comunidade Europeia, em 1978; o ponto alto de sua temporada londrina foi o festival Mahler, Viena e o Século 20; e outra performance da Sinfonia nº 2 foi o clímax de seus programas inaugurais com a Orquestra do Festival de Lucerna, em 2003.Abbado fala do final da Sinfonia nº 2, visão de Mahler do renascimento espiritual, como metáfora de sua própria experiência musical. No meio do texto, lemos: "O que foi criado, deve perecer/ o que pereceu, deve ascender!/ Cessa de tremer/ Prepara-te!/ Prepara-te para viver!" Para Abbado, isso quer dizer que a música é tanto destruída como redimida por sua temporalidade: ela existe e é extinta num momento, mas tem a possibilidade infinita de ser recriada no tempo. Mas, no contexto da doença de Abbado, é impossível não ouvir as ressonâncias pessoais: era seu renascimento que ele celebrava nessas performances, na companhia dos músicos que escolhera a dedo para tocar em Lucerna.Seis anos depois, Abbado segue com o ciclo mahleriano. A partitura da Sinfonia nº 4 está aberta em cima de sua mesa, uma cópia bem gasta, ornamentada com suas marcas a lápis. Curiosamente, não há piano em sua sala de trabalho. Abbado ouve toda música que rege em sua cabeça, trabalhando com pequenos detalhes de interpretação em sua imaginação. Rege tudo o que interpreta de memória. "Chega um ponto em que eu sei que memorizei uma peça. Mas é psicológico também. Se não conhecer uma peça de memória, não a conheço suficientemente bem." A orquestra de Lucerna é a materialização de um sonho de toda a vida: criar as condições ideais para realização de música sinfônica. Suas raízes podem ser encontradas nas orquestras que Abbado fundou durante toda sua carreira. Em paralelo a seus compromissos no Scala e em Londres, ele montou uma série de orquestras jovens e conjuntos criados para fins e repertórios específicos. Todos são fundados com valores diferentes dos de uma orquestra convencional. A filosofia central é ouvir - o dom que ele tenta conferir a seus músicos, suas plateias, e sua família."Meu avô costumava me levar para caminhadas nas montanhas. Ele não falava muito. Aprendi com ele a ouvir o silêncio. E, para mim, ouvir é a coisa mais importante: ouvir cada outro, ouvir o que as pessoas dizem, ouvir música." Em Lucerna, esse princípio é estendido à escala de uma orquestra sinfônica completa. Trata-se de um conjunto de 120 membros formado por integrantes das principais orquestra do mundo, além de conjuntos, como os Quartetos Alban Berg e Hagen, e solistas virtuoses como a clarinetista Sabine Meyer e a violoncelista Natalia Gutman. Abbado mal pode acreditar na sua sorte de ter criado esse conjunto a partir do zero. "Eles são os melhores de cada orquestra, nação, capital. Se você pensar, há sete ou oito violoncelos principais na seção de violoncelos, há Wolfram Christ, que liderava as violas em Berlim, e Alois Posch, que era o principal contrabaixo em Viena. Espantoso. E não sei quantos líderes há nos primeiros violinos." No ano passado, eu contei: eram nove.O que se ouve nos concertos da orquestra de Lucerna é repertório sinfônico executado com o refinamento e a sutileza de música de câmara. O virtuosismo da orquestra é milagroso. "Todos sabemos o que ele quer. E ele consegue comunicar a cada pessoa isolada na orquestra o significado da música. Com Abbado, chegamos mais perto do significado da música. Forma-se uma espécie de energia coletiva em que todo o mundo tem a mesma imaginação e a mesma concentração", diz o violista Diemut Poppen.Clive Gillinson, antigo violoncelista e diretor gerente da LSO durante o período de regência de Abbado, e atual diretor executivo do Carnegie Hall em Nova York, diz que ele basicamente não diz nada em ensaios. "Ele é o regente mais natural do mundo. Claudio apenas mostra, apenas faz. Tudo tem a ver com servir à música. Ele se preocupa desesperadamente com ela. Para Claudio, a música é toda sua vida. Ele pensa nela o tempo todo, de modo que há uma urgência e importância em todas suas apresentações."A música sempre foi importante para Abbado: quando criança durante a guerra, em Milão, ele rabiscou o slogan "Viva Bartok!" na parede de uma casa. A Gestapo chegou até sua casa, e perguntou a seus pais: "Onde está o guerrilheiro Bartok?" Mas agora Abbado tem tempo para outras coisas além da música: a família, ler (atualmente está renovando seu relacionamento com Dostoievski, "o mais profundo dos russos") e o jardim. E há um legado diferente que Abbado quer deixar na Itália. Ele conheceu José Antonio Abreu e conheceu o Sistema da Venezuela quando fez turnê pela América do Sul em 1999. Ficou impressionado com a escala do projeto, que trabalhou com quase meio milhão de crianças pobres, e surpreso com a qualidade da Orquestra Jovem Simon Bolívar.Abbado pediu a Abreu que venha à Itália em setembro, e crie aqui um Sistema. "Claro, você verá que funciona diferente do que na Venezuela. Mas quero que ele organize tudo." De onde virá o dinheiro - do governo? "O governo Berlusconi jamais daria dinheiro para algo assim." Abbado descreve a classe política da Itália como "ignorante e ardilosa" em seu trato da cultura. Então, como ele será financiado? "Pedi ajuda a todos os meus amigos em Nápoles, Turim, Palermo, Milão. Contei a eles sobre o Sistema e prometeram ajudar." Deve haver amigos ricos, se Abbado está falando em criar um novo esquema nacional de educação musical. "Dinheiro não é problema. Abreu é muito forte, e eu o ajudarei o máximo que puder. Minha Orquestra Mozart não recebe um centavo do governo, mas está funcionando." TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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