''Eu não teria feito À Deriva na França''

Padrinho do Panorama, Vincent Cassel também fala do filme com Heitor Dhalia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 00h00

Meio-dia de ontem, 17 horas em Paris. Vincent Cassel conversa pelo telefone com o repórter do Estado. De fundo, ouve-se a voz de Edith Piaf - ''Estava mostrando uma publicidade para um amigo'', ele explica. Daqui a pouco, Cassel vai correr para o aeroporto, de onde embarcará para o Brasil, para o 1º Panorama do Cinema Francês, evento que começa hoje (e do qual é padrinho). Logo na chegada, às 11 horas, ele dará coletiva à imprensa com os demais convidados do Panorama. ''Vou dormir no avião'', diz. Vincent Cassel visita regularmente o Brasil, há pelo menos 20 anos. O Panorama ''é um bom pretexto para voltar a esse País que amo tanto''. Ao mesmo tempo, ele adora sua função de embaixador do cinema francês, que o tem levado em viagens ao redor do mundo. ''É uma das coisas de que gosto neste métier, a sensação de liberdade, a possibilidade de viajar, de conhecer outras culturas.''Cassel acaba de fazer, em Búzios, o novo filme de Heitor Dhalia, À Deriva. ''É um filme que não teria feito na França, mas, aí, foi enriquecedor. Uma equipe jovem, talentosa, todo mundo cheio de garra e vontade.'' O padrinho do Panorama vem mostrar Satã, do qual é ator e produtor e que representa um novo coletivo de cinema. O filme é o único não inédito no Brasil, pois foi lançado em DVD pela Paramount. Os sete restantes não apenas são totalmente inéditos como são, na maioria, filmes de autor e isso é que torna o Panorama tão especial para críticos e cinéfilos de carteirinha. Autores como Christophe Honoré (Canções de Amor), Julian Schnabel (O Escafandro e a Borboleta), Robert Guédiguian (Lady Jane), Barbet Schroeder (O Advogado do Terror)e Catherine Breillat (A Última Amante) já são conhecidos no Brasil. Abdellatif Kechiche vai surpreender com o deslumbrante O Segredo do Grão, premiado em Veneza, no ano passado. Romain Duris, dos filmes de Honoré (Em Paris e, agora, Canções de Amor), abandona as histórias contemporâneas e veste a pele de um personagem de época, o dramaturgo Molière, uma das glórias da França, mostrado como irreverente e irresistível sedutor no filme de Laurent Tirard.Paris é a capital mundial da cinefilia. Em nenhum outro lugar você encontra um circuito de arte-e-ensaio tão forte, que o tempo todo está recuperando obras clássicas e apoiando o novo cinema de autor de todo o mundo. Ao mesmo tempo, a França tem um circuito comercial em que Hollywood dá as cartas, mas à maneira francesa - uma fatia muito substancial desse mercado (em torno de 40%) cabe à própria produção francesa. Sim, os franceses amam seu cinema. O atual recordista de público do cinema francês é Bienvenue chez les T''chis, uma comédia de forte sabor local que ultrapassou a marca de 20 milhões de espectadores, com direito a festa comemorativa no recente Festival de Cannes. Só para você saber - Hollywood já está de olho em Bienvenue e os direitos de refilmagem foram adquiridos pelo maior astro de Hollywood na atualidade, Will Smith.Cabe à Unifrance divulgar e promover o cinema francês no estrangeiro, por meio de iniciativas como o Panorama no Brasil. O ''padrinho'' Vincent Cassel vem falar de cinema, mas se você quiser, ele poderá falar também sobre seu amor pela Bahia, onde adora surfar. Ariane Ascaride, mulher (e atriz fetiche) de Robert Guédiguian, também já esteve algumas vezes no Brasil. Ariane debate hoje com o público o novo filme da dupla, o thriller marselhês Lady Jane. O dia de amanhã promete ser cheio, com debates envolvendo a atriz Clotilde Hesme (de Canções de Amor), a diretora Catherine Breillat e a atriz Roxane Mesquida (de Uma Velha Amante), a atriz Hasia Herzi (de O Segredo do Grão) e Kim Chapiron, Roxane Mesquida e Vincent Cassel (de Satã). Como ninguém é de ferro, a noite termina em festa - e o coletivo de DJs Birdy Nam Nam fornecerá o som.Em janeiro, em Paris, o repórter do Estado já havia entrevistado Clotilde Hesme em outro evento parecido da Unifrance. Ela contou que não foi a primeira vez que cantou num musical de Christophe Honoré. Antes de Canções de Amor, que pode virar bandeira de gays, lésbicas e simpatizantes - embora não seja um filme militante -, ela havia feito teatro com o jovem (e multimídia) Honoré. Ex-crítico de Cahiers du Cinéma, escritor e diretor de cinema e teatro, Honoré é autor de muitos livros, incluindo Tout Contre Léo - que virou filme em 2002 - e que fala sobre aids para o público infantil. ''Christophe é um verdadeiro autor'', diz Clotilde. ''Ele possui claramente um universo, no sentido de que tem uma idéia original sobre o mundo e a inserção das pessoas na sociedade. E ele é o herdeiro da nouvelle vague. Christophe não precisa fazer filmes com essa intenção declarada, mas eles saem nouvelle vague porque ele assimilou o movimento e transformou sua releitura em estilo. É um autor muito original e um amigo, que gosta dos atores e estimula a gente a criar (e ousar) em seu cinema.''Em abril, no Chile, no set de Quantum of Solace, nova aventura de 007, dirigida por Marc Foster, Mathieu Amalric - que faz o vilão da história - também falou sobre O Escafandro e a Borboleta. ''Julian (o diretor Julian Schnabel) pensou que ia fazer um filme sobre um paralítico - Jean-Dominique Bauby, editor de Elle, que sofreu um derrame, ficando com o corpo completamente paralisado, com exceção do olho esquerdo - e terminou fazendo um filme sobre as mulheres na vida de um homem. Não nasci ator, nem sabia que tinha essa vocação. Comecei fazendo cinema por trás das câmeras e foi meu amigo Arnaud Desplechin quem me convenceu a fazer a passagem para a frente delas. Tenho tido o privilégio de interpretar grandes papéis. O de Quantum of Solace é muito físico, mas eu o enriqueço, estimulado pelo diretor, a tornar o personagem mais denso. No caso do Escafandro, passo boa parte do filme imóvel, representando somente com o olho. Não sei o que é mais difícil. Colocar-se na pele de outra pessoa pode mexer com coisas muito profundas da gente. O que sei é que saí da experiência do Escafandro valorizando mais a vida, o amor, a família, as mulheres.''Serviço Panorama do Cinema Francês no Brasil 2008. Hoje, 19h15, Lady Jane (2008), de Robert Guédiguian; 22h15, O Escafandro e a Borboleta (2007), de Julian Schnabel. Reserva Cultural 2 e 3. Avenida Paulista, 900, 3287-3529. R$ 13 e R$ 40 (passaporte para todas as sessões). Até 26/6

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