''Eu não queria só chegar, fazer o espetáculo e ir para casa''

Fernanda agora é artista de 'projetos', não só de peças: toda quarta ela quer que o público vá debater obra de Simone

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

O projeto Caminhos da Liberdade inclui, além do monólogo Viver sem Tempos Mortos, a exibição todas as quartas-feiras, a partir das 20 horas, do documentário Uma Mulher Atual, que Dominique Gros dirigiu em 2007. A estreia acontece hoje e a entrada sempre será franca.Em seguida, acontecerá uma palestra com o historiador Jorge Coli seguido de debate do qual Fernanda Montenegro também deverá participar. Como complemento, o Teatro Anchieta será tomado por uma exposição de fotos, livros e cartas de Simone de Beauvoir."Trata-se de um projeto de aproximação cultural, que rendeu ótimos frutos", comemora a atriz, satisfeita com a série de espetáculos que apresentou em diversas comunidades carentes do interior do Rio de Janeiro. Um projeto de diversificação cultural para áreas menos favorecidas. "Eu não queria só chegar, fazer o espetáculo e ir para casa."Ali, ela comprovou que a sensibilidade humana está aberta para qualquer comunicação artística. "Não acredito que um tocador de cavaquinho do subúrbio carioca não vá entender um bandolim de Vivaldi, mesmo que ele nunca tenha lido uma nota. O chamado (horrivelmente) periférico é capaz de se sensibilizar com a Fuga, de Bach."Os debates foram, em sua maioria, marcantes. Fernanda lembra-se de um momento, em São Gonçalo, quando uma mulher teve a entrada barrada porque queria entrar com um bebê. "De repente, ela disse a frase que lhe abriu todas as portas: ?No lugar em que eu posso entrar, meu filho também pode?. Como impedir seu acesso?"E, ao longo da conversa pós espetáculo, a mesma mulher, com o filho mamando agarrado ao peito, comprovou ter entendido a essência do discurso de Simone. "Em um determinado momento, ela contou que cria os filhos sem a ajuda de nenhum homem. ?Então, sou uma mulher livre?, concluiu, o que me deixou emocionada."A atriz percebeu que a filósofa francesa despontava como a responsável por abrir a mente de cada um presente. "Era uma plateia diversificada, pois professores e estudiosos do comportamento humano também estavam presentes."Se as mulheres se interessavam pela liberdade, os homens do público preferiam tratar da sexualidade. Em mais de uma oportunidade, Fernanda ouviu comentários masculinos impressionados com o fato de Simone, mesmo tendo conseguido atingir o orgasmo completo com amantes, decidia voltar para Sartre, que não lhe oferecia nada na cama. "Nesse aspecto, Simone era entendida pelas mulheres como submissa, negando sua coragem de correr atrás da felicidade e da liberdade", observa a atriz.A execução do projeto foi favorecida por leis de incentivo, ferramentas hoje indispensáveis. "A política nos levou às mãos do Estado. Hoje em dia, a bilheteria não tem expressividade. Antes, vivíamos independentes, conseguindo crédito nos bancos", comenta Fernanda, descrente de que as modificações na Lei Rouanet possam melhorar substancialmente a situação. "Desde a Lei Sarney, não era preciso fazer uma nova - bastava fazer ajustes, acertar os nós. Mas, cada governante sempre quis ter a sua própria lei, o que nos deixa na mesma situação."

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