Eu, mamulengo, à frente de um bloco

A caminho de Goiás, para abrir a primeira Flipiri, Feira Literária de Pirenópolis, cidade a cento e tantos quilômetros de Brasília, pensei que daqui a uma semana será carnaval. Imagens se sucederam. O que era o carnaval para nós, meninos do interior? Sair pela rua jogando confete na boca das pessoas. Ríamos ao ver a raiva, o sufoco, ouvir os insultos. Era também tempo de bolinhas de cera cheias de "sangue do Diabo", líquido vermelho que assustava (nunca descobri a química). Era jogar na pessoa, a cera explodia, as camisas e vestidos (os brancos eram melhor alvo) avermelhavam. Em seguida, correr muito. Em geral, íamos assistir aos corsos ou à passagem dos blocos, ficava mais fácil atirar do meio da multidão e se esconder. Havia também umas bolinhas de cheiro, bem fedidas.Cada bairro tinha um bloco. Um dos mais conhecidos era formado por alunos da faculdade de odontologia, todos de boa condição financeira, alvos das moças casadoiras. Havia fantasias e muito homem vestido de mulher. As meninas pediam que os moleques levantassem as saias dos homens, loucas para ver o que havia embaixo. Muito estudante malandro ia sem nada, nem cueca nem calcinha. A polícia, quando descobria, tirava o folião do cortejo.Ingenuidades que foram se modificando. Depois, descobrimos o lança-perfume e a diversão era dirigir o jato gelado para os seios, a bunda e as costas das mulheres, elas se arrepiavam e gritavam. Mais tarde, passamos a usar nos lenços, dava o maior barato. Então, veio Jânio Quadros e acabou com a farra, os lanças passaram a ser contrabandeados ou feitos em casa, perigosos. Carnaval significava pós-carnaval, ou seja, esperar as revistas semanais Manchete e O Cruzeiro que traziam os grandes bailes e centenas de mulheres quase nuas, em biquínis reduzidos e coxas monumentais. Quando não, algumas com os seios de fora. Era uma apoteose. Tais revistas, também chamadas de banheiro, eram negociadas no mercado negro por algum tempo.Os blocos foram se acabando, as famílias que punham cadeiras na calçada e cantavam e jogavam serpentinas se recolheram para ver televisão, novela, transmissão das grandes escolas do Rio de Janeiro, os grandes clubes perderam o glamour. As rainhas de bateria tornaram-se superstars (ou popstars) por uma noite, como Luisa Brunet, Luma de Oliveira, Juliana Paes, Viviane Araújo, e outras, os nomes todos não me ocorrem. Uma das primeiras estrelas, na minha cabeça, a receber consagração foi Gigi de Mangueira. O que aconteceu com ela? O carnaval estava mudando, mas continuava carnaval. Parecia que era só sambódromo. Não era, as coisas estavam em estado latente e começaram a ressurgir, tomaram força.Esta semana fiquei pensando: qual seria a reação de minha mãe, dona Maria do Rosario, mulher simples, católica, devota de São José, se visse o filho hoje puxando bloco? Carnaval para nós era seguir para a igreja (que ficava aberta, vigília permanente, durante o "tríduo momesco", como acentuavam os padres e os jornais) para rezar a Hora Santa, pedindo perdão pelos pecados cometidos pela humanidade. Depois da igreja, fugíamos para tentar se infiltrar em alguma matinê, ou ver as fantasias, o desfile dos blocos, o corso.O que diria dona Maria se me visse saindo à frente do Bloco da Folia, organizado em Araraquara pela turma do Bar Olívia? Estarei lá na próxima sexta-feira, sem estar. Estarei aqui, mas um boneco de mamulengo, com o meu rosto, puxará o bloco que andará pelas ruas principais, cortando principalmente o túnel de árvores da Rua Cinco, uma rua ícone, orgulho da cidade.Vou me lembrar do carnaval de Olinda, vou me lembrar da cidade de Ocara, no sertão cearense, quando fui fazer uma palestra dentro do circuito Bienal Fora da Bienal. Primeira vez na história que a cidadezinha recebeu um escritor. Em Ocara morava Mestre Wagner, o mais tradicional fabricante de bonecos de mamulengo, que tinha decidido se aposentar pela idade e pela ausência de imburana (espécie quase extinta), a madeira ideal para moldar suas criações. A região estava triste, Wagner era um patrimônio.O Loyola mamulengo, de Araraquara, produzido no ateliê Obra Criada, tem uma cara assim de tigrão, brava como a minha. Espero não assustar foliões. Cada ano será homenageado um filho da terra, como dizem. Como imaginar que eu puxaria bloco ? E então, ao ver o boneco, lembrei-me que os blocos estão voltando por todo o Brasil, no Rio, em São Paulo, no interior. Lembrei-me dos carnavais pecaminosos. Mas a mais doce lembrança foi a de 12 de fevereiro de 1986, quando no carnaval do Araraquarense conheci Márcia. Estamos casados até hoje, passados 23 anos. Como não gostar de carnaval?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

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