''''Eu entro em crise se me vejo na tela''''

Marco Nanini fala de dificuldades e do atual trabalho no teatro, O Bem-Amado

Entrevista com

Leila Reis, leilareis@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2007 | 00h00

Marco Nanini é um dos maiores comediantes brasileiros. Há sete anos ele entra no ar como o metódico e incorruptível agente da vigilância sanitária Lineu, na série A Grande Família. Atualmente está em cartaz no Teatro das Artes, no Rio, no papel do prefeito Odorico Paraguaçu, em O Bem-Amado, de Dias Gomes, espetáculo que trará para São Paulo em abril. Nesta entrevista exclusiva ao Caderno 2, Nanini conta que acabou pegando um pouco da calma de seu personagem para contrabalançar a sua ansiedade e revela que odeia se ver na tela: ''''Fico chocado.''''Há sete anos você interpreta o funcionário público incorruptível. O que você pegou do Lineu e o que ele pegou de você?Os personagens são sempre uma fonte de criação. Acho que pude pegar o lado mais calmo, porque sou superansioso, o inverso do Lineu. Quando ele enlouquece, fica mais engraçado e mais parecido comigo.Qual a loucura que você gostaria que Lineu fizesse?Lineu tem pecadilhos que, para ele, são grandes loucuras. Ele já foi para uma pescaria e voltou completamente bêbado, já comeu (sem saber) bolinho de maconha.Qual a porcentagem de Lineus existente no funcionalismo público brasileiro?Não tenho a menor noção, porque a gente nunca sabe quem é incorruptível neste país. A honestidade, uma coisa que se passa de pai para filho, fica abalada pela pobreza e pela corrupção deslavada de que a gente tem notícias todos os dias. Só vejo que nem tudo está perdido quando leio no jornal sobre um sujeito que ganha salário mínimo e devolve a soma que achou no lixo.Como os funcionários públicos enxergam seu personagem?Eles não se revelam para mim. De vez em quando a Vigilância Sanitária manda uma carta para a Globo elogiando algumas atitudes do Lineu. As manifestações que recebo são em relação ao pai de família, as pessoas me param para dizer que o pai delas é metódico e comportado como o Lineu.Qual é a vantagem de pertencer ao elenco fixo de uma série? E a desvantagem?Passei por uma situação parecida com Irma Vap, peça que ficou 11 anos em cartaz. Chega um momento que surge a necessidade de fazer outra coisa para não ficar preso àquela imagem do personagem. Procuro fazer outras coisas no teatro e no cinema para compensar. A contrapartida é que A Grande Família é um programa bem cuidado, os personagens são aprofundados, bem-criados e por isso me dá a possibilidade de fazer o jogo da interpretação.Você é um dos atores da turma do Guel Arraes. Foi com ele que você fez os melhores trabalhos na TV?Guel me deu uma curva na carreira. Tinha feito bons trabalhos: as novelas Gabriela, O Cafona, mas ele meu deu um cotidiano de trabalho diferente quando me chamou para fazer a série Brasil Especial baseado na literatura brasileira. Veio depois A Comédia da Vida Privada. TV Pirata foi, a meu ver, a semente para o humor que se estabeleceu. Fui chamado para fazer 12 episódios de A Grande Família e já estou gravando o de número 264.O que te deu mais dinheiro: teatro, cinema ou televisão?Foi o conjunto. Quando resolvi ser ator, larguei o trabalho em um banco (emprego que me deram por caridade, porque não sei fazer contas até hoje) e tive um baque financeiro muito grande. Mas consegui me manter na carreira. Então, funciona assim: uma hora o teatro me acode mais do que as outras atividades. Quando é a TV que me acode, posso fazer uma experiência no teatro sem visar ao lucro.É difícil fazer um Odorico Paraguaçu diferente do de Paulo Gracindo?Recebi um convite informal para fazer o Bem-Amado no cinema e fui consultado para uma série na TV, mas como esses trabalhos não rolaram, resolvi produzir a peça do Dias Gomes, que nasceu como teatro. O diretor é Enrique Diaz e o elenco é formado pela Companhia dos Atores. Guel Arraes é o produtor artístico. A presença do Paulo Gracindo é muito forte, mas se eu ficar muito preocupado com isso, não faço nada. Foi o mesmo com A Grande Família, se me preocupasse muito com a interpretação do Jorge Dória (o primeiro Lineu), como faria o personagem? Foi difícil, mas consegui achar um canto para fazer um Odorico diferente. Em abril, a peça vai para São Paulo, para o Teatro Cultura Artística.Qual o tipo de personagem que mais o agrada?Não tenho personagens preferidos. Eu gosto muito de pesquisar e, se pudesse, faria somente isso. É uma diversão construir personagens.Qual o personagem que mais o frustrou?Edmond Kean, protagonista da peça Kean, sobre um ator shakespeariano. Foi muito difícil entrar no personagem, eu entrava intranqüilo no palco. Mas fez um grande sucesso.E na televisão?Houve um momento em que comecei a perceber que, se não tomasse cuidado, iria me tornar uma maçaneta de porta nas novelas, de tanto que fui ficando na periferia das tramas. Foi quando Guel me chamou para fazer outras coisas.Há quanto tempo você trabalha em televisão?Comecei na primeira novela escrita por Dias Gomes, sob pseudônimo (Stela Caldéron), como figurante: Ponte dos Suspiros (1969). Eu era estudante de teatro no Rio e fazia aulas de esgrima, quando nos procuraram para lutar e morrer na novela de capa e espada. O curioso é que fiz o seu último trabalho antes de ele morrer (1998), a minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos.Qual é o seu grande projeto?É continuar vivendo do ofício de ator. E tocar bem a produtora Pequena Central, para poder escolher o melhor. Sou co-produtor do filme Irma Vap, da Carla Camurati, e vou produzir uma peça de Aloísio Abranches. Temos um galpão na zona portuária do Rio onde há sala de ensaios, oficina de figurinos. Temos uma casa dividida em três apartamentos para abrigar atores que vêm de fora. Minha diversão é produzir cinema e teatro.Como vê o conteúdo da TV?Não vejo TV, não consigo sequer assistir a um DVD. Perdi o hábito de ouvir música em CD e não vou ao cinema.Você gosta de se ver na tela?Jamais. Uma vez, no teatro, eu interpretava uma menina adolescente e me sentia assim no palco. Quando vi o vídeo, enxerguei um senhor imitando uma adolescente e fiquei chocado, foi muito chato. Então, não assisto, porque entro em crise. Quando fiz o filme Feliz Ano Velho, tive de dublar meu personagem. Quando me sentei no estúdio e vi aquela cara enorme, tive um choque, perdi a voz. Dei um prejuízo horrível, passei três dias com um japonês massageando minhas cordas vocais. Quando fiz Carlota Joaquina, Carla Camurati, que já sabia do meu trauma, me chamou para dublar aos poucos, em doses homeopáticas. Hoje consigo me ver e ficar só chateadíssimo.

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