''Eu aceito o papel apenas quando o roteiro me emociona''

Maria de Medeiros, que vive a pedagoga francesa de O Contador, fala de sua técnica infalível de selecionar os filmes para atuar

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Maria de Medeiros garante que seu instinto nunca falhou - foi assim que ela interpretou a escritora Anaïs Nin no filme Henry & June (1990), de Philip Kaufman; a namorada de Bruce Willis em Pulp Ficcion (1994), de Quentin Tarantino; e agora a pedagoga francesa Margherit de O Contador de Histórias, de Luiz Villaça. "Para aceitar o papel, preciso ficar emocionada quando leio o roteiro pela primeira vez", conta a atriz, diretora e cantora portuguesa. "E foi o que aconteceu quando recebi o texto do Luiz: chorava e ria ao mesmo tempo."Maria conversou com o Estado um dia após a pré-estreia de O Contador de Histórias, na segunda-feira. Trata-se de uma mulher de dimensões diminutas, quase frágeis. Os belos olhos claros, porém, se destacam e só rivalizam com o sorriso largo, prenúncio de uma gargalhada acolhedora e contagiante.Maria era a atriz ideal para o papel pois, além de falar português (e, no filme, "abrasileirou" seu sotaque), ela vive na França, mantendo, portanto, a proximidade com a personagem. "Confesso que não acreditei quando ela aceitou nosso convite", conta Villaça, que construiu o papel de Margherit a partir das poucas lembranças que Roberto Carlos Ramos ainda mantém da francesa. "Assim, criamos uma persona que tomou forma graças principalmente à contribuição de Maria."Pequenos detalhes de personalidade e comportamento. "Quando começamos o trabalho, eu propus ao Luiz para que Margherit fosse uma mulher distraída, que nunca se lembrava onde deixara os óculos ou o gravador", observa a atriz, que se inspirou numa amiga atrapalhada. Maria criou também momentos clounescos, especialmente para as cenas em que interpreta ao lado de Marco Antônio e Paulo Henrique, que vivem Roberto Carlos quando moleque e adolescente.Ao contrário de diversos atores, Maria de Medeiros garante sentir prazer em dividir a cena com crianças. "E também animais", acrescenta. "Primeiro, há um trabalho de conquista de confiança. Feito isso, é só aproveitar os momentos em que a interpretação flui sem preconceitos."Viver uma mulher cuja história foi marcada por uma bondade extremada representou um desafio que a atriz se impôs, especialmente por não conhecer detalhes da trajetória de Margherit. "Parti das lembranças do Roberto Carlos para criar a minha Margherit, que é um trabalho mais fácil que interpretar alguém muito conhecida, como foi Anaïs Nin."O Contador de Histórias não é o primeiro trabalho de Maria de Medeiros com o cinema brasileiro; em 2001, interpretou Sarah Bernhardt em O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria Jr. Ela também se apresentou como cantora na Mostra de Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado. "A música, aliás, foi minha primeira aproximação com o Brasil", conta.Em 1974, quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura de Antonio Salazar (momento histórico que inspirou sua estreia como diretora, com o singelo Capitães de Abril, de 2000), Maria retornou com a família a Portugal. "Fui educada na Áustria, onde recebi noções da cultura clássica", afirma a atriz, filha do maestro, pianista e compositor António Vitorino D?Almeida. "Assim, deixei o mundo de Mozart para, em Lisboa, me deliciar com as canções contestatórias de Chico Buarque."O baque foi forte, a ponto de Maria ter gravado um CD com músicas brasileiras, A Little More Blue. E o próximo, que deve sair em fevereiro, ainda mantém vestígios nacionais, como uma canção de Lenine e a participação do trombonista Bocato. "Há muita graça e inteligência nas canções brasileiras que raramente encontro em outros países."E sua ligação deve estreitar-se no próximo ano, quando Maria pretende dirigir um filme rodado no Rio. Ainda mantém um mistério, dizendo apenas que será a adaptação do livro de uma escritora que, por sua vez, se baseou em um episódio real. "Estou negociando com os produtores brasileiros e europeus. E estamos bem adiantados."

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