''Estudo, mas sou intuitiva''

Para Debora Bloch, teatro é missão difícil mas prazerosa

Marilia Neustein, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Foi com uma expressão plácida, entre exercícios para modular a voz, que Debora Bloch recebeu a coluna, durante passagem por São Paulo na turnê da sua peça Brincando Em Cima Daquilo. Com um sorriso - que se abre em escalas - a atriz, integrante da nova novela da Globo, Caminho das Índias, faz, de maneira clara e eloqüente, uma declaração de amor ao teatro: "Acho uma pena que o nosso governo não olhe para o teatro como algo importante na educação brasileira."Com uma carreira sólida, que além de teatro passa por cinema e televisão, a atriz - e também produtora - diz não se abater com críticas: "A crítica é um espaço importante de pensamento e debate do teatro." Entre assuntos de ordem artística e temas prosaicos, Debora, que se considera "não cética, mas cartesiana", se comunica com candura, sem fechar os olhos para a situação preocupante do Rio de Janeiro. "A cidade está sofrendo de um grande abandono pelo poder público. Eu não ando sozinha à noite, como fazia quando tinha idade da minha filha", diz a atriz, que não quis entrar na polêmica que envolveu seu colega Fábio Assumpção com as drogas.Além da novela, a atriz guarda para a metade do ano que vem outro projeto: o lançamento do filme À Deriva, de Heitor Dhalia. Descontraída, ela tira de letra o assédio dos papparazzi: "Chega a ser violento de tão invasivo, mas isso não é um tema na minha vida. Não deixo de fazer nada." Sobre o desejo natural de, algum dia, dirigir espetáculos, ela afirma timidamente: "Tenho vontade, mas é uma coisa a respeito da qual não tenho nenhuma pretensão."A seguir, os principais trechos da sua entrevista.Você sempre quis ser atriz? O teatro é algo muito presente na minha criação. Acho uma pena que a gente tenha um governo que não olhe o teatro como uma coisa importante na educação das pessoas. Eu fui educada no teatro e isso contribuiu muito para a minha formação. É como ler um livro, é ouvir idéias, é pensar sobre o mundo, sobre o ser humano. A arte faz parte da educação. E eu tenho esse olhar muito pelos meus filhos, eu os levo sempre ao teatro... Mas é bem diferente de quando eu tinha 15 anos. A arte não pode ser desvinculada da educação.Cada vez que entra no palco, você ainda se emociona? Não é que eu me emocione ao entrar, mas as cenas, essas sim, me emocionam. É impressionante: eu me emociono toda vez. Porque quando o texto é bom, ele te leva. Se o espetáculo é bem ensaiado, aquilo serve para a temporada inteira, te acompanha. É muito interessante: o processo que você tem de ensaio, quando é profundo, te alimenta infinitamente. Um espetáculo de teatro é algo vivo e que se transforma ao longo do tempo.Como foi fazer um monólogo? Fiquei com medo de fazer uma peça sozinha. É preciso estar muito inteira, presente. Cada dia é diferente. Um espetáculo exige de mim uma rotina de atleta, fico igual a jogador de futebol. Tenho um horário rígido pra dormir, pra acordar, pra comer, preciso comer uma comida leve, faço ioga para voz e chego três horas antes ao teatro pra me aquecer. O teatro é algo que te exige fisicamente.Você também é produtora. Como funciona, hoje, uma produção de teatro? Quando tempo leva desde a concepção até a estréia? Conseguir fazer teatro é uma saga. Porque o patrocínio está cada vez mais difícil. Os custos estão cada vez mais altos e o preço do ingresso não paga mais a produção. Então, temos de ter o patrocínio para manter uma peça em cartaz. Além do que, conta-se com o imprevisto. A gente ia se apresentar no Cultura Artística, por exemplo. Aí ele pegou fogo. Se de um lado é muito difícil realizar, de outro o teatro é muito prazeroso porque é o único lugar onde realmente o ator tem processo. Na televisão e no cinema, você tem de chegar com resultados. O teatro é onde você tem maior domínio do que está fazendo.Estudar é fundamental, ou você é mais intuitiva ao interpretar? Sou as duas coisas. Estudo muito o que vou fazer, mas sou também intuitiva, conto com a intuição. E, além disso, o tempo acaba te ensinando muito mais do que a teoria. A prática, o treino, o ensaio. A origem da palavra "ensaio" vem de tentativa. No francês, ensaio é "répétition". Dizer repetição não é uma boa definição porque o ensaio é realmente uma tentativa. Por isso ele é tão interessante para o ator, que tem a chance de fazer todas as tentativas possíveis.E as críticas, incomodam? O que você acha da crítica atual ?Acho que a crítica é um espaço importante de pensamento e discussão do teatro. Fico muito feliz quando leio uma crítica falando bem de algum trabalho meu. Do mesmo modo, não é nada agradável ler uma crítica ruim. A gente fica frustrada. Acho que nenhum artista gosta. Mas assim como existem o ator bom e o ator ruim, o teatro bom e o teatro ruim, também há o crítico bom e o crítico ruim.Então, você não se deixa levar pelas críticas? Acho o público mais importante que a crítica, pois é ele que mantém o teatro vivo. De modo que, quando recebo uma crítica ruim, mas à noite o teatro está cheio, é compensador. A crítica é algo muito subjetivo. Para dar um exemplo de quão subjetiva ela é, recebi duas críticas aqui em São Paulo do meu espetáculo Brincando Em Cima Daquilo, que foram publicadas no mesmo dia, em dois importantes veículos da imprensa. Uma falava muito bem do espetáculo e a outra falava muito mal. Qual será que está certa? Deixo o público decidir. O público não é subjetivo, ele é concreto.Como você vê a situação do Rio de Janeiro, hoje? O Rio está muito abandonado. Eu não ando sozinha na rua, como quando era adolescente, na idade da minha filha. Hoje em dia minha filha sai à noite e eu fico tensa, controlando. São anos de descaso com uma camada da sociedade, essa desigualdade social, não se olha pra isso. É complicado. Com esse abandono do poder público do Rio, deixou-se criar uma guerra.É verdade que o Leblon é considerado a Hollywood brasileira? Os atores ficam muito incomodados com a presença dos papparazzi. Isso acontece com você? Eu quase não vou ao Leblon. E acho que a minha foto não deve estar valendo muito (risos...), porque eu não sou muito perseguida pelos papparazzi. Logicamente, às vezes você estar passeando com uma amiga, ou com as crianças no restaurante e uma semana depois ver sua foto na revista não é muito agradável. É bem invasivo.Mas sempre foi assim? Não. Mudou completamente. E pode tornar-se muito invasivo. Criou-se uma indústria de fofoca que é sedenta disso. O lance dos papparazzi é te pegar mal. Chega até a ser meio perverso as pessoas quererem te ver em uma situação constrangedora. É meio violento. Mas eu não deixo de fazer nada.Não lhe parece que essa exposição depende um pouco da postura do artista, também? Tem gente que abre a porta pra isso. Eu fiz a minha escolha: a de não abrir a porta da minha casa. Eu me preservo. Mas, sabe, isso não é um tema na minha vida. Lógico que muda um pouco agora, que vou fazer a novela das 8. Porque eu fico muito mais em evidência.Não lhe dá vontade de dirigir? Eu já dirigi uma vez, com a Elza Soares, que me convidou para dirigir o show dela. O que eu lhe disse foi que não me achava com competência pra dirigir. Ela insistiu e acabei aceitando. E não tinha produção nenhuma, fui chamando amigos pra me ajudar. Foi uma experiência que eu adorei. Às vezes eu penso nisso, sem pretensão nenhuma. Tenho vontade de fazer um trabalho em que eu não esteja no palco. Com tempo de estrada, a gente vai aprendendo todos os processos. Porque sou produtora, me sinto muito participante do processo. Pela minha formação de grupo também - fazíamos tudo, da produção ao figurino. Por isso me sinto, e muito, como parte do espetáculo.

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