Estudo de Llosa recusa reduções

Para ele, complexidade psicológica e inventividade linguística fizeram uruguaio destacar-se entre os latinos

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Não há dúvida de que a publicação de um livro escrito por Mario Vargas Llosa sobre Juan Carlos Onetti em seu centenário é, em si mesma, demonstração da permanência de sua obra. Llosa é um dos maiores ficcionistas vivos; seu mais recente romance Travessuras da Menina Má foi um sucesso, inclusive no Brasil; e como ensaísta já escreveu bons textos sobre Flaubert e Victor Hugo. Logo, um livro seu sobre Onetti - El Viaje a la Ficción (editora Alfaguara, que deve traduzi-lo para o Brasil em 2010) - pode ajudar bastante a divulgar sua obra para um público maior, especialmente de EUA e Europa, pois uma navegação rápida pelos arquivos das principais publicações de língua inglesa e francesa revela que Onetti ainda é mal conhecido em tais "centros", até mais do que no Brasil, por exemplo. E ele mereceria, no mínimo, ser tão conhecido quanto Llosa ou Gabriel García Márquez.Falar em "divulgação" leva muitos leitores preconceituosos a pensar que se trata de uma análise superficial, com fins meramente didáticos. Mas Llosa diz muito do que há a dizer sobre Onetti, ou o que outros autores precisam de muito mais páginas de áridas teses acadêmicas para dizer. Sem fazer uma obra-prima da crítica literária, Llosa detecta em Onetti as principais influências, aponta as datas de sua melhor fase, elege seus melhores romances e contos, interpreta com argúcia alguns deles. E um de seus alvos principais é bastante acertado: a confusão entre o olhar pessimista de Onetti e os rumos perdidos do capitalismo latino-americano ou da nacionalidade uruguaia. Llosa se recusa a fazer essa redução sociológica - que nós brasileiros conhecemos tão bem - em sua leitura, como o próprio Onetti recusava.O debate sobre as influências é bem posto. Muita gente acha também que assumir uma ou duas influências essenciais é o mesmo que pôr uma obra como devedora da outra, para não dizer parasitária, como se toda a história da literatura não fosse a história das influências filtradas e reprocessadas (como estudou, entre outros, Harold Bloom, embora Bloom faça uma leitura hiperfreudiana do mestre como pai único a ser morto pelo aprendiz). Feito o esclarecimento, Llosa examina a óbvia e reconhecida influência número 1 de Onetti, o escritor americano William Faulkner. Descreve as semelhanças e diz que o livro preferido de Onetti era Absalão, Absalão!, e não o mais "joyciano" O Som e a Fúria. Coerentemente, faz paralelos entre a vila imaginária de Faulkner, Yoknapatawpha, e a Santa María de Onetti. Naquela o passado pesa com suas tradições e discriminações; nesta se vive "de costas" para ele.Llosa também vê no espectro das influências os fantasmas de Balzac, Céline, Camus, Scott Fitzgerald, Borges e sobretudo o argentino Roberto Arlt, que Onetti conheceu, leu e, num gesto raro de sua parte, elogiou quando morou em Buenos Aires (1930-55) pela caótica urbanidade de livros como Os Sete Loucos. Se Fitzgerald realmente é evocado, em especial nos contos, a comparação com Borges é menos feliz, pois, como o mesmo Llosa lembra, Onetti admirava mas não amava Borges, por mais que a literatura do uruguaio tenha certo caráter de "jogo intelectual". Foi bebendo com mais sede no modernismo americano que Onetti criou sua obra de indivíduos fraturados em hiatos sociais. Llosa nota que até alguns defeitos da prosa de Onetti, tortuosa e obscura demais em algumas passagens, vêm da sua leitura de Faulkner.O apogeu de Onetti nos contos é corretamente demarcado por Llosa entre Um Sonho Realizado (1941) e Jacob e o Outro (1961). Outros destaques no gênero são, segundo Llosa, Bem-vindo, Bob, O Inferno tão Temido e Esbjerg, na Costa, entre outros. Todos estão no volume 47 Contos, editado no Brasil pela Companhia das Letras. No meio desse caminho está um de seus dois melhores romances, A Vida Breve (1950), e logo a seguir o outro, Junta-Cadáveres (1964), que foram traduzidos aqui pela editora Planeta. Se você nunca leu Onetti, portanto, esses são os três livros a procurar. Ao comentar O Inferno tão Temido, Llosa o chama de "o mais extraordinário de seus contos" e "a mais inquietante exploração do fenômeno da maldade humana" por mostrar um mundo provinciano, de "gente cinza e medíocre, com um horizonte vital pequenino", vaidosamente ignorante, em que o jornalista Risso se divorcia da mulher, Gracia, e esta decide se vingar dele enviando fotos em que aparece transando com seus amantes. Onetti parte desse conflito melodramático, a um ponto de virar folhetim, e lhe dá outra grandeza ao mostrar que a dor da perda amorosa se confunde com o orgulho ferido machista, a vergonha de saber que seus colegas de redação viram as imagens, e produz o desfecho trágico.Por esse e outros motivos, Llosa diz que Onetti divergiu da literatura predominante na América Latina dos anos 30, em que o regionalismo e a crônica de costumes eram dominantes, "com exceção de Arlt e Borges" (uma injustiça possivelmente involuntária com a literatura brasileira, que já tinha tido Machado de Assis, Raul Pompéia e Lima Barreto). E mostra como Onetti vai além do realismo social por meio dessa complexidade psicológica e inventividade linguística. Daí o título do livro: Llosa insiste na tese de que a ficção é uma viagem para um mundo alternativo, uma resposta à "derrota cotidiana". Aqui comete um erro; ao menos, um lugar-comum indigno de sua percepção. Onetti cria uma realidade imaginária para onde vamos não em fuga, pois de lá sempre voltamos e então enxergamos melhor as cercas que nos cercam.

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