Estréia de Matheus, emoção à flor da pele

A Festa... leva seis prêmios e Domingos Oliveira é o melhor diretor por Juventude

Luiz Carlos Merten, enviado especial, Gramado, O Estadao de S.Paulo

18 de agosto de 2008 | 00h00

Foi, talvez, o momento mais emocionante da cerimônia de encerramento do 36º Festival de Cinema Brasileiro e Latino, no sábado à noite. Chamado ao palco do Palácio dos Festivais para receber o prêmio especial do júri atribuído a A Festa da Menina Morta, como melhor filme, o ator (e, neste caso, diretor) Matheus Nachtergaele prestou sua homenagem a Dorival Caymmi cantando, a capela, Maracangalha. Aquilo era Matheus - emoção à flor da pele, visceralidade, entrega.Tudo isso também pode ser dito sobre A Menina Morta, que recebeu também o prêmio da crítica como melhor filme brasileiro do evento na serra gaúcha. Público e crítica cerraram fileiras em torno da estréia de Matheus como diretor. Faltava o júri oficial, mas este lhe atribuiu somente seu prêmio especial, quase uma consolação. O júri presidido por Ana Carolina e integrado por outros dois autores, Lina Chamie e Roberto Gervitz, preferiu dar seus prêmios mais importantes a outros dois filmes e diretores. Domingos Oliveira ficou com o Kikito de direção, por seu longa Juventude, e Murilo Salles recebeu o de melhor filme, para Nome Próprio.Lotear prêmios equivale a uma atitude cautelosa de júris que não querem se arriscar, tomando posição em torno de uma só obra, ou então os jurados estão querendo passar um recado - de que não havia nenhum filme que se destacasse dos demais, a ponto de tornar sua escolha imperdível. Os filmes premiados realmente obtiveram uma espécie de consenso, dentro do 36º Festival de Gramado. Mas, se escolheu os filmes certos, o júri, mesmo assim, lhes atribuiu os prêmios errados. Raros obtiveram unanimidade de elogios - e foram os de interpretação. Leandra Leal, cuja vitória já vinha sendo anunciada desde a primeira noite, foi melhor atriz, por Nome Próprio. Ao atribuir um prêmio de qualidade artística ao trio central de Juventude - os atores Paulo José, Aderbal Freire-Filho e o próprio Domingos Oliveira -, o júri ficou livre para atribuir o prêmio de melhor ator para Daniel de Oliveira, o Santinho de A Festa da Menina Morta, e ele é realmente excepcional no papel.Juventude provocou verdadeira comoção na sessão oficial, e foi aplaudido de pé, o que raramente ocorre. O júri, até por razões afetivas, quem sabe, poderia ter dado o prêmio de melhor filme para o longa de Domingos, mas preferiu lhe dar o de melhor direção - e não era bem o caso, como três diretores consagrados como Ana Carolina, Lina e Gervitz deveriam saber. Há muito mais mise-em-scène nos trabalhos de Murilo Salles, mas ele já havia recebido duas vezes o troféu da categoria, por Faca de Dois Gumes e Como Nascem os Anjos, e isso pode ter pesado, ou Matheus Nachtergaele, mas ele foi penalizado, talvez por ser estreante, e o júri perdeu a chance de reconhecer uma das mais impressionantes direções do cinema brasileiro recente. Você pode sentir estranhamento, perturbação, até ficar chocado com o longa de Matheus, mas sua mise-em-scène é excepcional como a interpretação de Daniel de Oliveira e a fotografia de Lula Carvalho, premiada com o Kikito.A Festa da Menina Morta foi o único longa brasileiro em película num festival marcado, predominantemente, pelo digital. Foi este, aliás, o conceito a orientar a seleção, seja de filmes brasileiros ou latinos. Os curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz buscaram filmes que exibissem a tensão criativa, entre as novas tecnologias, leia-se o digital, e as tradicionais, a película. Pode-se discutir, e é o que estamos fazendo, certas opções do júri, mas não foi uma premiação calamitosa - exceto por ignorar o longa gaúcho Netto e o Domador de Cavalos, também penalizado pela maldição que acompanha o diretor e romancista Tabajara Ruas. Ele seria, ou é tratado como, um autor gauchesco, ligado à tradição do Rio Grande, mas não é. Embora enraizado numa tradição cinematográfica que remonta a autores clássicos como John Ford e Luchino Visconti, os mitos que Tabajara cria visam a uma reescritura, mais moderna, da história rio-grandense e brasileira.A premiação da mostra latina começou preocupante. O júri oficial descarregou seus primeiros prêmios - roteiro e atriz - no filme argentino Por Sus Proprios Ojos, de Liliana Paolinelli, que também foi o melhor da competição de estrangeiros para o júri popular. Ficção sobre estudante de cinema que realiza um documentário sobre mulheres de presos, o filme levanta algumas questões éticas e estéticas - a diretora do filme dentro do filme termina por se envolver com um dos presidiários -, mas, no limite, é insatisfatório e, para quem viu Leonera, de outro argentino, Pablo Trapero, que concorreu em Cannes e também trata da mulher no universo carcerário, pode ser quase insuportável. Apesar dos tropeços iniciais, o júri da mostra latina terminou por se redimir ao premiar os melhores. Cochochi, de Israel Cárdenas e Laura Guzmán, um sensível e rigoroso filme mexicano rodado à iraniana, com um recorte acentuadamente humanista, ficou com o Kikito principal (mais o troféu de excelência técnica e artística atribuído pelo júri de estudantes). O colombiano Perro Come Perro, de Carlos Moreno, um explosivo painel sobre criminalidade urbana e superstição, considerado o melhor na avaliação da crítica, recebeu os prêmios de direção, ator (dividido entre os dois protagonistas) e fotografia. Talvez Perro Come Perro devesse ter ganho filme e direção, mas Cochochi é um belo trabalho e o prêmio de direção para Carlos Moreno destaca o que Perro tem de melhor. Na sua divisão, o júri estrangeiro foi mais acurado. PremiadosFILME: Nome Próprio, de Murilo SallesDIRETOR: Domingos Oliveira por JuventudeATOR: Daniel de Oliveira, por A Festa da Menina MortaATRIZ: Leandra Leal, por Nome PróprioROTEIRO: Domingos Oliveira, por JuventudeFOTOGRAFIA: Lula Carvalho, por A Festa da Menina MortaPRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: A Festa Da Menina Morta, de Matheus NachtergaelePRÊMIO DE QUALIDADE ARTÍSTICA: Aderbal Freire Filho, Domingos Oliveira e Paulo José, por JuventudeDIREÇÃO DE ARTE: Pedro Paulo de Souza, por Nome Próprio MÚSICA: Matheus Nachtergale, por A Festa da Menina Morta MONTAGEM: Natara Ney, por Juventude PRÊMIO DA CRÍTICA: A Festa Da Menina Morta, de Matheus NachtergaleJÚRI POPULAR: A Festa da Menina Morta, de Matheus NachtergaleFILME ESTRANGEIRO: Cochochi, de Israel Cárdenas e Laura GuzmanDIRETOR ESTRANGEIRO: Carlos Moreno, por Perro Come PerroCURTA-METRAGEM: Areia, de Caetano GotardoDIRETOR DE CURTA: Jaime Lerner, por Subsolo

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