''Estou virando um cara sério''

DiCaprio, que acaba de fazer 34 anos, vive agente da CIA em Rede de Mentiras, de Riddley Scott

Entrevista com

Flavia Guerra, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

12 de novembro de 2008 | 00h00

Leonardo DiCaprio fez aniversário no dia 11. Que presente poderia querer um dos atores mais bem pagos, bem amados, bem falados e hoje bem comportados de Hollywood? "Meu presente eu já ganhei na terça-feira. Foi a melhor coisa que poderia acontecer. Agora só espero que ele faça o melhor possível e que mude muita coisa", responde o ator nascido em Los Angeles quando indagado pelo Estado sobre o que ainda faltava na sua estante de souvenirs. O presente era a eleição de Barack Obama. "Precisávamos desta mudança. Esta foi uma década muito difícil para todos. Espero que agora mudemos todos para melhor." Veja trailer de Rede de Mentiras Quem mudou sempre, e sempre para melhor, foi Leonardo (como prefere ser chamado). Aos 34 anos, nem de longe o ator lembra "aquele garoto que, há dez anos, comemorava seus aniversários de uma forma muito mais barulhenta e com muito mais confusão". Desta vez, escolheu "algo como jantar com os amigos em um bom restaurante e tomar um bom vinho". Ele comenta: "Para quem espera que um ator de Hollywood seja o personagem perfeito dos tablóides que pipocam todos os dias, isso é tedioso, não é?"DiCaprio é hoje uma celebridade muito mais preocupada em quantos litros de água desperdiçamos por dia neste planeta do que em beber litros de uísque e quebrar tudo em um quarto de hotel qualquer. "É, tem razão. Estou mesmo me tornando um cara sério e tedioso", brinca.Por tedioso, entenda-se um jovem, política e ecologicamente engajado, que persegue furacões, estuda a causa de desastres naturais e sociais, como a ?favelização? de grandes cidades, o perigo de uma guerra pela água, a destruição da Amazônia, a guerra pelo diamante... Bom, se tudo isso for monótono, que outra lição de casa poderia ser de fato radical e divertida? "Ser um agente no Oriente Médio, que nunca sabe a quem, e quando, dizer a verdade. E muito menos quando de fato a está ouvindo. Em meio a uma guerra suja, como saber se quem nos engana é nosso próprio pais?"A resposta está nas entrelinhas de Rede de Mentiras, que estréia em Londres no dia 21 e, no Brasil, na semana seguinte, dia 28. Mais novo projeto (melhor seria dizer ?maratona cinematográfica?) de Ridley Scott, o filme conta a história de Roger Ferris, um agente secreto norte-americano, infiltrado em uma rede de informações no Oriente Médio. O personagem nem de longe lembra Jack Dawson, romântico e intrépido aventureiro que salvou a vida da jovem Rose DeWitt Bukater, em Titanic.Dez anos depois, em vez de protagonizar cenas como a antológica em que ele e Kate ?sobrevoam? o oceano, DiCaprio vive cenas que quase levam a platéia a ter um ataque de nervos. "Eu também quase tive um ataque de verdade, depois de filmar aquela cena. Foi tamanha a preparação e o terror real que senti que, depois de filmá-la, passei dias doente." A tal cena, encerra a jornada de três horas de tensão em que se constrói o tecido de mentiras do novo filme. Para revelar o mínimo, pode-se dizer que DiCaprio protagoniza umas das já memoráveis cenas de tortura do cinema. Ridley Scott pode até ter pesado demais a mão em alguns de seus filmes, mas sempre foi mestre em construir cenas que não saem da cabeça do espectador mesmo depois de anos. Quem não se lembra do duelo final entre Rick Deckard e o andróide Roy Battyem, em Blade Runner. Quem se esquece de Thelma e Louise diante do precipício? Quem vai esquecer a gosma de Alien a centímetros do rosto de Sigourney Weaver? Pode apostar. Pouca gente vai esquecer de Roger Ferris em Rede de Mentiras. "E não é só pelo terror físico. O pior foi o terror psicológico. Sem contar que Scott é diretor que nos leva ao último degrau da sanidade. É extremamente meticuloso e, ao mesmo tempo, tem visão geral incrível do set. É capaz de filmar a mesma cena com seis câmeras simultâneas e, ainda assim, não perder o controle do que faz", completa DiCaprio.Mais extenuante que entrar e sair da pele de Ferris, só mesmo a ?síndrome de estresse pós-traumático? que sofreu ao tentar, e não conseguir, se livrar de Jack Dawson. "Bem lembrado. Aquela foi a fase mais difícil de minha carreira. Passei mais de ano sem trabalhar e tentando não aparecer. Jack era mais forte do que eu", relembra o ator, ao falar do personagem que o alçou definitivamente à categoria de estrela, mas que quase o derrubou. "Já fui chamado de Jack nos lugares mais improváveis do mundo", conta. Tais como? ''Ah, no deserto do Saara, na Amazônia..." Amazônia? "Sim, em uma das viagens, uma indiazinha de uma reserva me viu e correu até mim me chamando de Jack. Aquilo foi surreal demais", relembra.E quando foi isso? Em alguma viagem com a ex-namorada Gisele Bündchen? "Foi há muito tempo... É tudo o que posso falar", responde ele, que, ao notar a menor curiosidade da repórter sobre o tema ?Gisele?, deixa de lado o olhar amigável de ?moço-para-casar? e adota o olhar oblíquo e dissimulado. Mudemos, pois, de assunto. Já que enveredamos pela Amazônia, há quantas anda o engajamento ecológico do ator, que produziu, apresentou e narrou o documentário A Última Hora? Com direção de Leila Conners Petersen, o filme, que teve pré-estréia mundial em Cannes 2007, é um verdadeiro compêndio sobre o quanto o homem conseguiu produzir as maiores ameaças ao equilíbrio do planeta nos últimos séculos. "Anda bem. Ando me preocupando com o atum que como, já que tantos golfinhos são mortos por causa da pesca de atum, preocupado com a água, com a floresta, com o cinema."E o equilíbrio sentimental do ?moço-para-casar?? Ou vai fazer como George Clooney e assinar o atestado de compromisso de não se comprometer antes dos 40? "Meus únicos planos são os de não ter plano algum. É claro que dentro de alguns anos eu quero ter filhos. E hoje você pode ver que estou mais sossegado. Mas vou vivendo o que a vida me dá."Por ora, a vida já lhe deu Obama de presente e uma namorada que poucos vêem, mas todos conhecem: a israelense Bar Rafaeli. Para completar, Leo e sua eterna namorada nas telas, a grande amiga Kate Blanchett, com quem fala todas as semanas, voltam a ficar juntos (ou quase) nas telas. Com estréia prevista para o início de 2009, Revolutionary Road, produzido e dirigido por Sam Mendes (marido de Kate), reúne o par. Mas, assim como em Titanic, a união não é das mais fáceis. "Foi um grande presente voltar a trabalhar com Kate. Ela é uma grande amiga. E estamos todos bem. Não posso mesmo reclamar. A vida tem de fato me dado muito." Quem sabe a vida não lhe dá um Oscar por Ferris. Depois de três indicações (Diamante de Sangue, O Aviador e Os Infiltrados), o moço merece o souvenir.

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