Este Filme É (ou foi) quase uma profecia

Ôrí, um filme realizado há mais de 20 anos e agora restaurado, é verdadeiramente precioso, no sentido de sua surpreendente atualidade, desde quando pretendeu realizar uma espécie de súmula histórica, social e cultural da "consciência negra", com ênfase nas suas relações com o Brasil.Perfazendo 11 anos de filmagens entre Brasil e África, o empenho de Raquel Gerber e sua afinada equipe se configura ainda hoje - quando alguns marcos insofismáveis da presença negra no nosso País já são irreversíveis - como um esplêndido painel onde a lenda, o mito, a diáspora, os rituais, a luta, a dor e a alegria de viver de um povo se projetam poderosamente num amálgama de rara beleza plástica e narrativa. Às vezes suave, pela voz quase murmurada de Beatriz Nascimento, a narradora, inserindo sua pungente história familiar e pessoal no fluxo coletivo da epopéia maior, às vezes contundente e caudaloso em lances que ecoam no âmbito mundial, transcontinental e conflagrado, o documentário cativa e envolve pela dosagem certa com que conjuga , via edição, a sua matéria ''jornalística'', cobrindo atos e acontecimentos cruciais, com a carga intensamente poética que advém da paisagem, da música, das danças, dos rostos e das máscaras, dos discursos inflamados, das celebrações, enfim.Num tempo de cotas para negros, de certificações de quilombos, de conquistas não mais territoriais mas culturais e de caminhos que a cada dia se abrem à frente da comunidade negra no Brasil, Ôrí é (ou foi) quase uma profecia. E no quadro de ascensão e afirmação do documentário brasileiro hoje, deve ser incluído natural e legitimamente como se pertencesse à nossa última safra de filmes.

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