Estar ou não a fim: o sexo na cidade

O desencontro das relações amorosas reacende nas telas o embate baseado nas diferenças entre homens e mulheres

Sérgio Telles, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

Sex and the City, de Candace Bushnell, e Bridget Jones, de Helen Fielding, são expoentes do "chick lit" (algo como "literatura das garotas"), gênero literário criado pelo mercado editorial dos Estados Unidos. Supostamente, tal gênero aborda a problemática da mulher pós-feminista, não mais lutando por sua liberdade sexual ou pela igualdade de direitos diante dos homens, mas usufruindo dos ganhos da conquista e pagando seus ônus. O problema é que a "chick lit" banaliza e diminui as vitórias do feminismo, reduzindo-as a uma troca inconsequente de parceiros amorosos e a um frenesi pelo consumo de alto luxo. Afinal, no universo ali descrito, todo mundo é chique, civilizado e mora em lugares de muito bom gosto. Paradoxalmente, ao mostrar as mulheres como românticas cujo único objetivo na vida é encontrar um bom partido, a "chick lit" termina por reforçar estereótipos contra os quais o próprio feminismo tanto lutou. Não é difícil ver, debaixo das sandálias Manolo Blahnik e das bolsas Louis Vuitton, as mesmas jovens sonhadoras que povoavam os livros de M. Delly. É esse cenário que vamos encontrar no filme Ele Não Está Tão a Fim de Você (He?s Just Not That Into You, 2009), dirigido Ken Kwapis e com um estrelado elenco (Ben Affleck, Jennifer Aniston, Drew Barrymore, Jennifer Connelly e Scarlett Johansson). O filme se baseia num livro que vendeu dois milhões de exemplares nos Estados Unidos, escrito por Greg Behrendt e Liz Tuccillo, roteiristas do Sex and the City, o seriado de televisão gerado pelo best-seller de Candace Bushnell. Tendo como eixo central as desventuras de Gigi, uma empedernida ingênua às voltas com o enganoso mundo dos homens, desfilam no enredo alguns casais com diversos problemas amorosos. Preocupadas em atrelar sua sexualidade ao casamento, as mulheres são doces, amoráveis e vítimas dos homens, quase todos empenhados em seduzir e abandonar - com as exceções que confirmam a regra. Vê-se que atrás da aparência moderninha que procura ostentar ao tratar da condição da mulher e dos relacionamentos amorosos nos dias de hoje, o filme se revela convencional e conservador. A própria heroína, a inacreditável Gigi, parece ter saído direto de algum volume da antiga Biblioteca das Moças. As decorrências da liberdade sexual e da liberação da mulher observadas nas grandes metrópoles ocidentais parecem muito mais bem retratadas no excelente Closer - Perto Demais (2004) , dirigido por Mike Nichols, baseado na peça premiada de Patrick Marber, com Natalie Portman, Julia Roberts, Jude Law e Clive Owen. O que Closer - cujos personagens não poderiam ser mais "cool" - mostra é que a liberdade sexual, a ausência de entraves religiosos e preconceitos sociais não eliminam os "antigos" conceitos de traição ou desilusão amorosa. Na verdade, poderíamos acrescentar, eles estarão sempre presentes, pois, na medida em que se ama, é impossível não correr os riscos da perda e seus desdobramentos em termos de sofrimentos. Assim, Closer parece dizer que a pós-modernidade não nos isenta das dores do amor. O que ela faz é facilitar as defesas contra estas dores, possibilitando, em função da liberdade sexual e do "ethos" narcisista que impregna atualmente a cultura, a prática do sexo casual. Ao ver Closer, entendemos que sexo casual ou o "estar a fim" são práticas que satisfazem basicamente o narcisismo de cada um dos envolvidos. É como uma masturbação a dois. Não tem nada a ver com um relacionamento amoroso, pois este implica uma superação do narcisismo, o estabelecimento de uma relação objetal, a construção de um vínculo afetivo, a temeridade de lançar-se no voo cego de uma entrega confiante no outro, sem nada a garantir o sucesso da empreitada. Ele Não Está Tão a Fim de Você e Closer se inscrevem em diferentes registros. O primeiro é mero entretenimento, o segundo é uma obra de arte. O entretenimento pretende primordialmente divertir e, para tanto, evita abordar a dimensão trágica da vida. Uma posição radicalmente diferente da arte, que não se recusa a integrar em seu interior todas as contingências da existência humana, inclusive seu inevitável caminhar para a morte, ao mesmo tempo em que oferece o prazer estético, que ameniza e torna mais palatável seus fortes conteúdos. Uma outra característica do entretenimento é o uso abundante de clichês e estereótipos, que proporcionam ao grande público um tranquilizador sentimento de reconhecimento e familiaridade com o que lhe é apresentado. Mais uma vez, situação bem diferente daquela proposta pela criação artística, com sua preferência pelo inusitado, pelo inédito, pelo desafio do novo. É verdade que mesmo bons artistas, como Woody Allen, vez por outra apelam ao chavão para garantir uma boa bilheteria. É o que acontece em Vicky Cristina Barcelona (2008). Num ininterrupto desfile de lugares-comuns, duas jovens norte-americanas vão passar o verão em Barcelona, na casa de um rico compatriota. Envolvem-se numa série de imbróglios amorosos e tudo se acaba com o verão, quando as duas voltam para seu país, "enriquecidas" com suas novas experiências. Há os "artistas" e os "burgueses". Há os "espanhóis", com seu sangue latino caliente, e há os "americanos" e "ingleses", comedidos, sofisticados e irônicos. Os "artistas" têm um temperamento excessivamente "original", criando "obras de arte" a todo instante. Penélope Cruz, num papel que lhe deu o Oscar (!), como a pintora genial e geniosa, explosiva e imprevisível, é a própria encarnação da artista "espanhola". Os ricos "burgueses", como era de se esperar, nada mais fazem que langorosamente lutar contra o tédio, em meio a festas, iates e pequenas traições.Abordada de forma leve e estereotipada ou com a complexidade que ela exige, o fato é que a eterna luta entre os sexos é um tema da maior importância, tratado anteriormente por inúmeros cineastas. Para citar alguns, lembramos Bergman, especialmente em Cenas de Um Casamento (1974) e seu dilacerante epílogo, Sarabanda (2003); Ridley Scott em Thelma e Louise (1991), um dos mais pungentes filmes sobre os impasses da condição feminina em nossos tempos; e Almodóvar em Volver (2006), onde disfarçado no tom de comédia, transparece a visão trágica de dois mundos fechados - o masculino e o feminino - que, ao se aproximarem, não produzem o amor e a criação, e sim o incesto, a violência, o assassinato. "Anatomia é o destino", disse Freud. Com isso apontava para o fato de ser a diferença anatômica entre os sexos um referencial incontornável na realidade humana, estabelecendo lugares e papéis específicos culturalmente determinados.O embate entre homens e mulheres, no qual cada sexo usa de suas armas e estratagemas, toma feições diversas em função do tempo e do lugar na história. É inegável que, durante séculos e na maioria das culturas, o falicismo prevaleceu, fazendo com que as mulheres fossem submetidas ao poder dos homens. E assim ainda ocorre com vastas parcelas da população mundial. Somente com Freud foi possível obter uma compreensão acurada dos aspectos mais profundos e inconscientes do falo e da castração, e de seus efeitos na organização dos grupos humanos. É irônico que o feminismo, que tanto deve a Freud, se tenha voltado, num determinado momento, contra a psicanálise, ignorando ter sido ela o que tornou possível entender o caráter fantasmático que sustentava (e ainda sustenta) a pretendida superioridade masculina sobre as mulheres. Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de O Psicanalista Vai ao Cinema I e II, entre outros

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