Estado Independente aponta um novo caminho da composição

Inspirada em Che Guevara, coreografia de Sandro Borelli agrega à questão estética um viés político

, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Começou a 2ª Mostra (In)dependente de Dança? (sim, o ponto de interrogação faz parte, sinalizando, na forma de uma provocação, para a necessária discussão política sobre o espaço da dança na cidade). Essa iniciativa da Cia. Borelli de Dança ocorre no lugar onde a companhia ensaia - Kasulo Espaço de cultura e Arte, na Barra Funda -, transformado em espaço público para apresentação de espetáculos, e soma-se a outras ações que vêm cumprindo o mesmo papel. A Cia. Corpos Nômades iniciou uma mostra no ano passado, na sua sede, chamada de Lugar. D(r)amas da Meia-Noite, que se encerrou no dia 28, depois de apresentar sete obras em duas semanas de programação. E o Estúdio Nave está realizando a sexta edição do Teorema, uma vez por mês, durante todo o semestre, também no seu espaço.

Tais realizações vão estabilizando formas mais autônomas de lidar com a ausência de políticas públicas para a dança. Tornam-se caminhos possíveis. Pena que a classe ainda não tenha acordado para o potencial estratégico dessa nova agenda, não somente para frequentá-la, mas, sobretudo, para replicá-la em uma escala que monte um circuito.

Quem abriu a Mostra (In)dependete, que exibirá seis obras até o dia 27, foi a Cia. Borelli de Dança. Estado Independente, a mais recente de suas produções, tem coreografia, concepção e direção-geral de Sandro Borelli, e aponta para uma mudança no seu modo de compor. Tudo está muito mais seco, e essa secura trouxe uma tensão diferente para a coreografia, que mexeu nos hábitos composicionais de Borelli. Deixou o escuro em que acomoda as suas criações muito mais espesso, transformando-o em uma textura, e isso reconfigurou o espaço, estilhaçando as paredes como seus limites. O espaço vai sendo espacializado pelos deslocamentos da companhia. Ele não está lá e a dança o ocupa, pois são as movimentações dos bailarinos que vão criando a sua forma. Os corpos e a iluminação, cada qual com a sua movimentação, parecem ir propondo diferentes tamanhos e proporções para esse escuro. Quando um passa para o outro o "lampião", agrega à essa questão estética um viés político: escancara o sentido de que isso acontece quando se age em colaboração.

Estado Independente inspirou-se no legado de Che Guevara e continua o que se iniciara em Carne Santa (2007), obra que partia do trabalho de Renato Russo. Aqui, aquela dramaturgia se organizou melhor, ao descobrir como costurar o vocabulário dentro de cada cena e cada cena com a seguinte. A tradução instantânea foi abolida. As imagens que vão surgindo não guardam uma proximidade colada com uma mensagem a ser transmitida. O tipo de referencialidade que, geralmente, irrompia nas obras da companhia, aqui está modificada e, no seu lugar, aparece outro tipo de compromisso com a composição. Em vez de uma preocupação prioritária em nos retratar Che Guevara, Estado Independente nos mergulha em contextos que podem ser relacionados com ele, e também com todas as situações semelhantes de opressão que abundam pelo mundo e, no seu caso particular, o transformaram em fenômeno midiático.

É uma inauguração no sólido percurso de Borelli e nela seus duos sintetizam o que sucede. São corpos que inventam maneiras de fazerem algo juntos, às vezes em complementaridade, às vezes em oposição. Muitas vezes também se acoplam, transformando-se em corpos-protuberâncias, grávidos de seus próximos desdobramentos. O futuro já está lá, nos indica o dueto final com os impecáveis Roberto Alencar e Vanessa Macedo, ele é pesado de carregar e, ao mesmo tempo, possível de acalentar. A inventividade nos pas-de-deux é pontuada por um uso do grupo como "corpo de baile", e esta escolha promove uma boa discussão sobre as diferenças do que hoje significa ser massa/povo/multidão.

A secura que tudo pontua oscila entre dureza e uma ternura que titubeia, duvidando se deve ou não se expandir. A contundência da inventividade dos pas-de-deux ecoa na repetição do trabalho de grupo. Aos poucos, aquilo que se destaca vai sendo porque vai ficando evidente que a força dessa obra vem do jeito como essas duas situações - indivíduo e grupo - são postas em relação. Assim, o que ainda estava insólito em Carne Santa, aqui se consolida, fazendo de Estado Independente um marco na carreira de Sandro Borelli.

A programação segue com Speranza, Dona Esperança, solo de Mariana Muniz, dirigido por José Possi Neto (3 a 6/09); depois, vem Cabeça de Orfeu, com a J. Garcia & Cia. (10 a 13/09); na terceira semana de setembro, Linhagens, com o Grupo Pró-Posição, e Versos da Última Estação, com a Cia. Fragmento de Dança (17 a 20/09), e, encerrando a Mostra, Somos Todos Nós, com o Grupo Gestus (24 a 27/09).

Além dos espetáculos, a 2ª Mostra (In)dependente de Dança? programou três debates: A Crítica nas Artes Cênicas (ocorrido ontem), A Dança na Universidade Privada (9/09) e Videodança: Escolha Estética ou Modo de Sobrevivência? (23/09). Haverá também um workshop com a J. Garcia & Cia. (11 e 12/09), uma Mostra de Vídeodança (23 a 27/09), e o lançamento do livro escrito por Mauro Fernandes, para celebrar os 12 anos de existência da Cia. Borelli de Dança. Sonhos Intranquilos foi lançado ontem.

Serviço

2.ª Mostra (in) Dependente de Dança?. Kasulo Espaço de Cultura e Arte. R. Souza Lima 300, 3825-2711. 5.ª a sáb., 21h; dom., 19h. R$ 10. Até 27/9

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