Estação Pinacoteca reúne as mitologias de Nuno Ramos

Estação Pinacoteca reúne as mitologias de Nuno Ramos

Sob o signo de Proteu, a deidade das metamorfoses, o artista ocupa todo o quarto andar do prédio com pinturas, desenhos, filmes e esculturas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2015 | 07h00

Houyhnhnms é uma raça de cavalos de inteligência sobrenatural que aparece na quarta parte de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. É também o título da melhor exposição de Nuno Ramos em muitos anos, que será aberta hoje, às 11 horas, na Estação Pinacoteca. Houyhnhnms é uma mostra alegre, colorida, que contrasta com o tom cinzento da realidade brasileira atual. Nuno volta a pintar como fazia há 30 anos, na Casa 7, só que com mais vigor – e direção.

Artista multidisciplinar, ele ocupa o quarto andar inteiro da Estação Pinacoteca com pinturas, desenhos, instalações e filmes, todos integrados. Sob o signo das metamorfoses de Proteu, a deidade grega com o dom da premonição, que se transforma para não contar o futuro aos humanos, Nuno Ramos vai mudando de aspecto a cada sala, usando fragmentos de obras em outras obras. 

Exemplo: há um filme seu, Pierrot por Cavalo, com um ator excepcional, o também artista visual Eduardo Climachauska, em que um palhaço é sequestrado por motoqueiros e trocado por um cavalo. Misto de Buster Keaton com Marcel Marceau, Eduardo Climachauska, o pierrot, ilumina a sala com seu gestual equino – uma sala, diga-se, cheia de atrações, com um cavalinho de carrossel sobre um trilho de montanha-russa, entre outros elementos líricos.

Dessa mesma sala migram para a sala seguinte móveis vistos em outro filme, Casa por Arroz, em que, como sugere o título, uma garota troca as chaves da casa por arroz. Dos elementos do filme, Nuno constrói uma metonímia da casa em delicado (des)equilíbrio. Sofás, armários, todo o mobiliário é transferido no filme para uma plantação de arroz. Na sala real, o arroz é replicado numa escultura que lembra uma balança.

Finalmente, na sala final, vem a apoteose, em que Nuno mostra suas mais recentes pinturas, de um cromatismo vibrante, livre, sensual – todas inspiradas pela leitura de Joyce, Montale e o polonês Bruno Schulz, um autor de autores, amado por Kafka e Coetzee. Nuno Ramos é também poeta e escritor – e dos bons –, o que explica em parte a contaminação de sua poética visual pela narrativa literária.

Schulz (1892-1942) é irmão gêmeo literário de Nuno – e divide com ele as mesmas preocupações filosóficas. Em seu livro mais conhecido, Lojas de Canela, Schulz opta por contar em registro mítico uma saga familiar, no lugar de recorrer à linguagem realista para narrar a vitória do capitalismo sobre as vidas minúsculas da província (a realidade, dizia ele, “é a sombra das palavras”). Em Schulz não existe mimese, representação do mundo real. Tudo é invenção, como na tela de Nuno pintada sob inspiração da leitura do escritor polonês.

Numa outra tela da última sala, natureza e arte se confundem. Nuno evoca o poeta hermético italiano Eugênio Montale. Nessa relação especular, a palavra poética – instrumento limitado – é transfigurada num ato de fé pictórico, uma passagem para outra dimensão. Curiosamente, as formas da pintura de Nuno remetem (involuntariamente) ao gesto do Criador dando vida ao primeiro ser, pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina. O ato poético de Montale recria o mundo. O ato pictórico de Nuno espelha o poeta, que dependia igualmente de um objeto indutor para se expressar.

“Sinto que preciso começar de novo”, diz Nuno, justificando a retomada das grandes telas da época da Casa 7. “Já fui agressivo, já fui neutro, mas hoje tenho minha própria poesia para recomeçar.” E ela não é pequena. As grandes dimensões das telas e esculturas estão a serviço do excepcional.


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