Mark Niedermann, Cortesia Fondation Beyeler
Mark Niedermann, Cortesia Fondation Beyeler

Estação de trem em Zurique ganha escultura de Ernesto Neto

Artista brasileiro é tema de mostra e realiza instalação na principal estação de trem da cidade suíça

Pedro Rocha, Especial para o Estado

11 Julho 2018 | 06h00

Um pedaço do Brasil preenche o saguão da mais importante estação de trem da cidade de Zurique, na Suíça. Com cerca de 20 metros de altura, a escultura GaiaMotherTree, ou Gaia Mãe Árvore, em tradução livre, foi criada pelo artista brasileiro Ernesto Neto, que ganha também uma mostra na cidade. 

Ernesto foi convidado pela Fondation Beyeler, que, além de comissionar o trabalho temporário para a estação de trem, realiza ainda uma exposição com obras dos anos 1980 e 90, além do trabalho Altar for a plant, de 2017, no jardim da instituição. Em complemento, a fundação promoveu também, no início do mês, uma série de debates com intelectuais e líderes espirituais de todo o mundo, como representantes de povos indígenas brasileiros, para discutir a situação das florestas. 

“A gente precisa repensar a Terra”, analisa Neto em entrevista ao Estado, por telefone, de Zurique. “Gaia representando o espírito da Terra, numa conexão com o infinito e o conhecimento.” A escultura do artista é feita para a reflexão sobre a natureza. Além de eventos sobre o tema, o próprio espaço, uma espécie de tenda, em que as pessoas podem entrar e sentar, propicia que os visitantes conversem e meditem. “Várias pessoas sentam, deitam, oram. Já vi gente chorando”, relata o artista. “A recepção tem sido muito boa.”

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Ao longo de sua vida e sua carreira, Ernesto Neto construiu uma relação com a natureza brasileira a partir da comunidade indígena Huni Kuin, na fronteira entre o Estado do Acre e o  Peru. Não por acaso, sua grande escultura em Zurique é feita majoritariamente de crochê, a partir do algodão, formando imagens como cobras e minhocas de pano. A sustentação da instalação se dá com pesos de sementes, que equilibram a obra na estrutura da estação.

Já a grande inspiração para a parte central da escultura é a cabeça de uma jiboia. Neto relata que até pensou em intitular a obra a partir da cobra, mas julgou a ideia de Gaia mais universal. “É mais legível que a jiboia”, acredita o artista. “Eu traduziria o título da obra como ‘jiboia é a mãe árvore’. Foi ela que entregou a maçã para Eva, e há um equívoca nesta interpretação. Foi a serpente que deu à luz a humanidade.”

Para o brasileiro, o mundo está vivendo uma crise ecológica e social, que já havia sido prevista pelos povos indígenas da floresta amazônica. “A floresta está sendo ignorantemente atacada pela brutalidade da sociedade, que não percebe a grande riqueza que está ali”, analisa. Por isso, Ernesto Neto acredita que a difusão da mensagem dos povos indígenas, como a que tem feito com sua arte, é importante. “Não estudamos nossas raízes. Não estudamos os índios ou os povos africanos.”

Em época de Copa do Mundo, o artista faz uma analogia com o futebol para falar do grave problema brasileiro. “O Brasil está precisando de cura. Aquele sete a um foi uma mensagem espiritual”, diz.  “Os índios conhecem a cura que vem da floresta, são mensageiros. Deveríamos ouvir mais os pajés.”

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