Estação da Luz vira o território livre dos ''malucos-beleza''

Uma legião de fãs vestidos como Raul Seixas cantou todas as músicas do ídolo

Pedro Henrique França, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

Já era madrugada de domingo. O relógio da Estação da Luz confirmava: 1h45. Ali próximo, no Palco da Luz, os primeiros acordes da Caverna Guitar Band, com Tente Outra Vez, atestava: era ali o espaço e a vez dos "malucos-beleza". E não eram poucos. Vestidos de preto e com camisetas de Raul Seixas, os fãs do cantor e compositor baiano, morto em 1989, cantavam letra a letra com uma devoção de quem esperava há anos por aquele momento, ou melhor, há duas décadas. O tradicional bordão "Toca Raul", tão gritado nos bares, era enfim bem-vindo. Carlos Bigode veio de Caieiras reverenciar o mito. Na primeira fila do palco, desde as 16 h do sábado, discursou sobre a importância da obra: "Raul implantou a maior filosofia de vida na música." Era fácil descobrir que filosofia era essa: todos os entrevistados exaltavam o anarquismo e sua sociedade alternativa. Houve até quem fosse confundido visualmente com o próprio, como Tarcísio Araujo de Carvalho, de 32 anos. Ele tinha apenas 12 anos quando o ídolo morreu e só teve conhecimento da obra dois anos depois, quando trabalhava no extinto Teatro Taib, no Bom Retiro. "Alguns atores me mostraram vários álbuns dele. A partir daí, foi só Raul na cabeça." Mesmo não tendo acompanhado de perto a trajetória de Raul, ele afirma: "É uma falta tão grande que me dá calafrio." E emenda: "Ser parecido com ele é ?mó? orgulho." Mas, entre os tantos fanáticos, uma história se destacou. Conterrâneo do homenageado, Jutaí Alves, de 48 anos, chegou a São Paulo uma semana antes da morte do ídolo. Ele, que já havia acompanhado tantos shows ao vivo de Raul Seixas, tinha vindo justamente para acompanhar as apresentações que o "maluco-beleza" vinha fazendo com Marcelo Nova. "Ele já não cantava mais em outros Estados, estava radicado aqui. Cheguei dia 19 de agosto; dois dias depois ele morreu. Eu tinha 28 anos, e só havia chorado, até então, a morte do meu pai. Fiquei em São Paulo e nunca mais saí", recordou ele, que prometia ficar as 24 horas da Virada no Palco Raul. A tal "sociedade alternativa" é levada a sério até hoje por Jutaí, que batizou o filho, hoje com 7 anos, de... Raul. Todos, na Luz, de certa forma, tinham nascido "há 10 mil anos atrás".

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