Está tudo muito bom?

Me aventurei a ler As Aventuras da Blitz (Ediouro), biografia da banda apontada como uma das precursoras do brock brasileiro, ou breque?n-roll, escrita pelo jornalista Rodrigo Rodrigues. Olho pela janela, vejo um Rio Janeiro ensolarado, as Ilhas Cagarras, o mar, e sinto a vibração de uma época.Na verdade, estou a cinco quadras da praia, vejo a muito custo apenas a ponta da Ilha Redonda e um dedo de uma mancha escura que juro que é o mar. E vi Regina Casé de turbante, no sambódromo, cantando todos os sambas-enredos. É, sinto a vibração de uma época.Muitos são pais do rock que explodiu nos anos 80. Tem gente que diz que começou bem antes, com a gravação do primeiro disco dos Secos & Molhados. Outros se lembram do recomeço de Rita Lee sem os Mutantes, e da banda Cor do Som, com baladinhas fáceis, mas um astral puro rock. Eduardo Dusek ganhou um festival da Globo e estourou com Rock da Cachorra, música com uma levada rockabilly. Foi o Nosso Louco Amor da Gang 90 a mãe do despertar? Ou teria sido a atonalidade vertical de Arrigo Barnabé que detonou o renascimento? Foi o estouro nas rádios e nas lojas de Menina Veneno, de Ritchie.O fenômeno Blitz, que segundo o livro vendeu 900 mil cópias do compacto de estreia, se deu no mágico ano de 1982, tirou o rock do underground, despertou a indústria fonográfica, as majors, que disputou as bandas que já rodavam a estrada há tempos. E o Brasil não foi mais o mesmo.O livro é despretensioso, como era a banda. É um livro Blitz, para a "rapaziada": muita iconografia, fotos, papos e estórias engraçadas. E lembra de passagem a birra que paulistas tinham com o grupo.Cita o debochado crítico Pepe Escobar, que não poupava nada e ninguém. "Esquálida subcosmologia do realce banal", definiu Pepe, que terminou a crítica de Radioatividade propondo possibilidades para a banda: "1. Passar o resto da vida pegando jacaré na praia. 2. Pegar seus royalties e fazer um curso nas fontes adequadas."Rodrigues fala de sentimentos bairristas. Não é verdade. A maioria dos artistas cariocas - Barão Vermelho, Lobão, Leo Jaime e os Miquinhos Amestrados - caíram no gosto do exigente público paulista.Achávamos apenas que o Brasil vivia um momento delicado demais para se sair por aí cantando "tá tudo muito bom, tá tudo muito bem...", de Você Não Soube Me Amar.A cena roqueira de São Paulo sofria influência direta do movimento punk local, que explodira um ano antes. Além de Ratos de Porão, Cólera e Inocentes, a ira e a insatisfação contaminavam a musicalidade do Ira!, Mercenárias, Ultraje a Rigor, das brasilienses Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Preferíamos as angústias de Fellini, Azul 29, Zero e Titãs.Nas casas em que as primeiras bandas de rock tocaram - Napalm, Carbono 14, Rose Bom Bom -, o clima era de raiva contra a ditadura militar, a repressão policial, a frustração pela derrota das Diretas Já, o modelo de se governar o Brasil, o temor de uma guerra nuclear, o fim do estado de bem-estar inaugurado por Margareth Thatcher, e o silêncio e a alienação da grande mídia.Quando a gravadora dos Beatles, EMI, apresentou ao Brasil a sua novidade, a Blitz, aqueles que conheciam a cena underground perguntavam: "Não tinha coisa melhor para nos representar? Não frequentam as casas?"A banda de garotos sarados e roupas coloridas, cantando o refrão "você não soube me amar", não combinava com a raiva e o desespero que a nova juventude urbana - que negava a luta armada e os caminhos sugeridos pela esquerda -, influenciada pela literatura beat, poesia de Paulo Leminski, pelas narrativas de Dalton Trevisan, Bukowski e Rubem Fonseca, pelos primeiros filmes de Scorsese e Coppola, pelo pessimismo de Blade Runner, The Clash, The Cure e Smiths, e pelo teatro de Asdrúbal Trouxe o Trombone e Antunes Filho, propunha.Ainda não estava decretada a concordata das utopias. Lutávamos contra a velha liderança, ainda dopada por Geraldo Vandré e Mercedes Sosa, que nos tachava de alienados (Geração AI-5 ou Geração Coca-Cola)."Quem é o inimigo, quem é você?", perguntava Renato Russo. "Eu sei que vivo em louca utopia, mas tudo vai cair na realidade, pois sinto que as coisas vão surgindo, é só um tempo pra se rebelar", cantava Nasi, com o punho esquerdo cerrado levantado.O mais revoltante era que Evandro Mesquita, líder da banda, largara o projeto revolucionário do Asdrúbal, para cantar ao lado de duas gostosas com roupas da Company "no começo, tudo era lindo, tá tudo divino, era maravilhoso, até debaixo d?água, nosso amor era mais gostoso..."Curiosamente, a Blitz sofreu com o estado das coisas e teve duas músicas censuradas no LP já prensado, o que obrigou a gravadora a inovar e riscar as faixas manualmente.Mas a juventude brasileira se cansava de ser confundida com a juventude dourada carioca. Novelas globais e filmes de Antônio Calmon não eram a nossa voz, não frequentávamos o Posto 9 e preferíamos a fase London de Caetano Veloso, pensavam os mais radicais.Hoje, coçando minha barba branca, reconheço o valor da Blitz, que caiu no ostracismo rápido e foi suplantada por um rock com mais relevância e contestador.Tínhamos inveja. Pura e gelatinosa inveja. Não conseguíamos desarmar os ânimos, relaxar e simplesmente pedir: "Garçom, uma cerveja. Só tem chope. Desce dois, desce mais. Amor, pede uma batata frita..."Éramos uma massa urbana tensa, com rostos manchados de pátina, vestindo coturnos e jaquetas compradas na Galeria do Rock. A heroína e a cocaína já seduzia e viciava alguns de nós. Não víamos luz no futuro.A Blitz sugeria: entre no mar, olhe as garotas ao redor e viva a vida, dê valor ao blablablá, pois todo esse temor vai se acabar. Não entre em pânico. Você não está só. E, acima de tudo, somos brasileiros.Para a Blitz, os tempos foram difíceis, mas as coisas simples da rotina de um jovem - mil garotas, mesa de bar, papo-furado - não deveriam ser relevadas. Evandro Mesquita, como a banda do Titanic, queria alegrar a rapaziada. "OK, você venceu."Quem viu o maravilhoso documentário Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa pergunta se também não é hora de produzirem um documentário sobre a Legião Urbana e seu trágico desfecho.Eu soube pelo amigo Dado Villa-Lobos, guitarrista, que, sim, já tiveram vários interessados. No entanto, a família de Renato Russo continua a contenda com os ex-integrantes da banda. Que legado...

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