''''Esse filme idiota eu não faço, não''''

Assim Michael Bay reagiu ao convite de Spielberg para dirigir Transformers; nesta entrevista, ele conta como mudou de idéia

Marcio Damasceno, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Michael Bay colocou o telefone no gancho como uma idéia na cabeça: ''''Esse filme idiota eu não faço.'''' A voz do outro lado da linha era de Steven Spielberg e acabara de convidá-lo para dirigir uma produção com argumento que soava infantil demais até para ele, especialista em blockbusters de ação cheios de barulho, pirotecnia, grandes bilheterias e poucos afagos da crítica. Isso foi há um ano e meio, quando ele finalizava seu último longa, A Ilha.''''Olha, Michael, queria que você dirigisse um filme chamado Transformers, que é sobre um rapaz que ganha seu primeiro carro, um carro que é, na verdade, um robô alienígena.'''' Assim o mestre Spielberg descrevera o argumento no telefonema, como lembra o diretor em entrevista ao Estado. Bay preferiu desconversar. ''''Eu disse ''''ok, Steven, vou pensar'''''''', conta. Mas ele não estava mesmo a fim de topar a empreitada. ''''Achava que era um filme de bonecos, não sabia direito o que era. Todos os meus amigos ficavam me perguntando se eu ia participar agora de uma animação ou coisa do gênero'''', justifica.Ironicamente, a opinião dele foi mudando com um convite para visitar a fábrica de brinquedos Hasbro, criadora dos Transformers. ''''Eu sempre vi muito filme japonês de animação, que tem a ver com os Transformers, e então pensei ''''taí, acho que posso fazer um filme legal, com o máximo de realismo e que seja divertido de fazer'''''''', lembra. Ter Steven Spielberg, um de seus ídolos, na produção executiva, também pesou na balança. ''''Trabalhamos bastante juntos no roteiro e foi sempre muito divertido'''', conta. ''''Nos comunicamos muito bem, visualmente falando'''', observa.Bay gosta de recordar o dia em que, ainda durante as finalizações, convenceu Spielberg a ver uma das cenas engraçadas do filme, em que o garoto Sam Witwicky tenta esconder os robôs gigantes de seus pais no jardim de casa. O produtor concordou, embora não quisesse ver nada antes de tudo estar pronto. ''''De repente, ele estava ali do meu lado, se acabando de rir, como uma criança, batendo com as mãos na minha perna e dizendo ''''nunca vi robôs fazerem isso, nunca vi!'''' Eu tomei isso como um tipo de elogio'''', recorda. ''''Ele é um cara sempre muito engraçado, sempre me dizia, ''''Michael, roubei uma idéia sua''''. Então, eu respondia ''''também roubo muita coisa de você, Steve''''.''''A resistência inicial em fazer um filme com robôs como protagonistas deu lugar à obsessão em conferir o maior realismo possível à história. ''''Fazer um filme sobre e com robôs é uma coisa difícil. Foi um desafio tornar a coisa o mais real possível. Por isso me preocupei muito com a luz'''', conta. ''''Minha teoria é que todos sabemos quando alguma coisa não parece real por causa da luz. É algo que está na nossa cabeça. Em Pearl Harbor, trabalhamos muito duro para fazer com que a luz estivesse correta. A luz de Homem Aranha e Guerra nas Estrelas, por exemplo, parece como de um desenho animado, não fica real'''', compara. ''''Nesse filme não, e acho que conseguimos, desta vez, produzir um marco em termos de realismo'''', avalia Bay.Aos desafios de filmagem juntaram-se as intimidações vindas de fora dos estúdios. Devotos empedernidos dos robôs alienígenas, descontentes com a escolha do diretor, procuraram amedrontar Bay, não só escrevendo reclamações e ameaças de morte na internet, como através de ataques aos sistemas de computador da Light and Magic, empresa responsável pelos efeitos especiais do filme. ''''Eles continuaram tentando penetrar em nosso trabalho. Nunca vi isso. Sofremos 39 mil tentativas de ataques de hackers no servidor da equipe responsável pela arte do filme'''', revela.Mesmo assim, ele resistiu às pressões, insistindo no realismo e mudando a aparência dos robôs, que ganharam um aspecto bem mais complexo que o dos desenhos animados dos anos 80. Aliás, Bay nunca foi um entusiasta dos Transformers, coisa que ele não esconde e vê até como uma vantagem. ''''Eu não era fã dos Transformers e acho isso bom, porque pude fazer uma coisa talvez bem mais acessível para quem nunca foi fã dos bonecos.''''O diretor é tido como um profissional durão que, dizem, grita muito no set e não dá refresco para a equipe. Uma fama que ele relativiza, afirmando ser alguém que filma rápido, sempre de olho no orçamento, e que trabalha como um ''''assistente de direção de si mesmo''''. ''''Os assistentes de direção ficam dando instruções, agitando, não largam a equipe um segundo. Eu sou assim, estou sempre no set, nunca deixo o set, alinho eu mesmo as câmeras, filmo 12 horas por dia. Trabalhamos duro e rápido. Procuro ser organizado e me manter sempre dentro do orçamento'''', diz.Um de seus orgulhos foi ter feito um filme desse porte, com tantos efeitos especiais e de animação computadorizada, com ''''apenas'''' US$ 150 milhões, a metade do que foi gasto em Piratas do Caribe - No Fim do Mundo, por exemplo. Nem a forte gripe, que arriou parte da equipe durante as filmagens, pôde arrefecer a determinação de Bay de segurar custos. Disposto a não perder um dia sequer, ele pediu a um assistente para instalar no set um sistema de som e vídeo. Através do equipamento, coordenou os trabalhos de rodagem, deitado em seu trailer.Não é à toa que ele agora só pensa em descansar, depois de um ano e meio envolvido em cada fase da empreitada, mesmo depois de o filme estar pronto. ''''Trabalhei duro, sempre por dentro de cada detalhe, de cada peça promocional que é feita. Pode acreditar em mim, estive envolvido em tudo'''', diz, enfatizando a última palavra. Por isso, afirma não querer, pelo menos por enquanto, se envolver numa seqüência do filme. ''''Já estão querendo começar a trabalhar nisso, mas eu não sei. Tenho de dar um tempo para recarregar, ouvir o meu corpo. Estou bastante esgotado.''''

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