Essa Vila Verde nunca mais será a mesma

Moradores de bairro periférico curitibano, tido como violento, interagem com trupe teatral e equipe de filmagem

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2008 | 00h00

O documentarista Evaldo Mocarzel e o diretor de fotografia Fabiano Pierri chegam junto com a reportagem do Estado à comunidade de Vila Verde. A primeira parada é o Teatro Peça por Peça, construído por uma empresa privada no bairro que é fruto de uma ocupação feita há 20 anos, na periferia da cidade, e é visto como área perigosa e violenta. Ao estacionar o carro, uma simpática senhora negra, cabelos já brancos, passa pela rua e ameaça brincando: ''Olha a surra de bambu.'' O cineasta apresenta: ''Essa é dona Cecília, que deu uma surra no marido.''A narrativa está numa das cenas do espetáculo A Fauna, criação dirigida por Rodolfo García Vázquez, que une atores dos Satyros com moradores de Vila Verde e faz parte do projeto Residência das Artes, uma das inovações desta edição do festival. ''A organização nos convidou para escolher um bairro de periferia e ali criar um espetáculo com nossos atores e moradores locais. O resultado foi uma interferência urbana radical por meio do teatro. Eu tenho certeza de que aquelas pessoas não serão mais as mesmas, vão ter outra capacidade de mobilização depois de terem participado de A Fauna'', diz Vázquez.Inicialmente como parte de seu documentário sobre os Satyros, o cineasta Evaldo Mocarzel foi fazer cenas sobre esse trabalho. Mas acabou filmando 130 horas só em Vila Verde e avaliou que deveria fazer um filme à parte. Para ele, importante foi captar o processo de criação. ''Como sempre acontece no teatro, a montagem resultante é apenas a ponta de um iceberg.'' Mocarzel faz questão de frisar que não está fazendo um documentário sobre o bairro de Vila Verde. ''O que documentei foi o processo cênico da busca dessas pessoas pela representação de sua realidade na linguagem teatral.''Mocarzel deixou as câmeras ligadas o tempo todo. E captou em sala de ensaio histórias terríveis de violência, dor, superação, mas também engraçadas. Algumas estão no espetáculo itinerante A Fauna - um título obviamente irônico - que começa no teatro, passa pela escola, cruza ruas, entra em casas. O público é conduzido por Jesse do Rosário, líder comunitário. E os moradores fizeram uma espécie de tour com a reportagem, contando tudo sobre as cenas, posando para as fotos, com energia e entusiasmo impressionantes.Num determinado momento do espetáculo, cujas cenas Vázquez chama de instalações dramáticas, o público entra numa cooperativa de costureiras. Na penumbra, debruçada sobre as máquinas, elas fazem o seu trabalho, enquanto num telão aparecem seus depoimentos. Entre elas, a ''dona'' Cecília da Costa Santos, da surra de bambu. Ela faz parte dessa cooperativa fundada por Julieta Maria Cerri com outras duas costureiras em 2001. ''Hoje somos 18 costureiras'', fala dona Julieta, com orgulho. A repórter viajou a convite da organização do festival

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