Essa problemática panacéia nacional

Em Veneno Remédio, José Miguel Wisnik analisa o futebol como solução e problema, uma presença definidora na vida brasileira

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

José Miguel Wisnik é um pouco como Lima, antigo craque do Santos nos anos 60 - joga, e bem, em várias posições. Wisnik é professor de literatura da USP, músico, ensaísta, compositor. Além de um apaixonado por futebol e pelo Santos Futebol Clube. Seu novo livro, Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil (Cia. das Letras, 448 págs., R$ 41) é, desde já, uma obra incontornável sobre o esporte mais popular do País. Nela, Wisnik mobiliza um impressionante arsenal de conhecimentos para escrever sobre a experiência do futebol.Em postura oposta à maioria dos estudos acadêmicos sobre o esporte, Wisnik procura examinar o futebol ''por dentro'', a partir da estrutura do jogo. Mas, ao fazê-lo, dialoga também com uma miríade de disciplinas, que vão da literatura à psicanálise, o que o ilumina ''de fora''. Dessa dialética esperta entre o fora e o dentro, desse ziguezague inesperado como um drible de Pelé ou uma frase de Machado de Assis, saem iluminados tanto o futebol como o país que se consagrou pentacampeão mundial ao adotá-lo como jogo preferencial. A seguir, trechos da entrevista de José Miguel Wisnik ao Estado.É interessante que num livro densamente analítico você tenha começado por expor-se de maneira pessoal - sua infância em São Vicente, o futebol de praia, a escolha pelo Santos Futebol Clube...O pesquisador de futebol vive muitas vezes uma cisão entre a visão distanciada da análise e o envolvimento passional no jogo, onde a gente se esquece tantas vezes de tudo, inclusive se esquece de quem é. O discurso analítico carrega muito desse esquecimento pelo outro lado, como se ele fosse obrigado a fingir para si e para o leitor que não há esse mergulho no jogo, que passa a ser desprezado implícita ou explicitamente pela análise. Parti, então, do testemunho da experiência, ao mesmo tempo que da reflexão sobre ela. Considerei que a minha era uma experiência comum e incomum: jogar futebol de praia em São Vicente e Santos, assistir a futebol de várzea, e ver nascer e crescer o Santos de Pelé.Sem abusar do termo, nota-se no livro um dialética entre o dentro e o fora do futebol.É uma abordagem que parte dos elementos internos ao jogo para buscar uma dialética entre o interno e o externo, o acontecimento em campo e os discursos que ele provoca e que retornam sobre ele, as grandes transformações do mundo e o modo como elas repercutem no futebol, sem nunca desprezar certa autonomia do jogo, pressionada por fatores muitos. Acho que se pode reconhecer nessa abordagem o método crítico de Antonio Candido para a análise e a interpretação literária. No caso, aplicadas a um campo não-verbal, o do futebol, o que não deixa de ter relação com a abordagem da música que eu busquei fazer em O Som e o Sentido.Você parece ter encontrado na distinção de Pasolini entre futebol de prosa e de poesia um conceito fértil para sua análise. Há quem diga que a colocação de Pasolini estaria hoje superada, pois a globalização da bola tende a fixar uma espécie de jogo único.A colocação de Pasolini é, sem dúvida, datada, foi feita no início de 1971, sob a impressão da Copa de 70. Ele falava de um ''futebol de poesia'' (criativo, inventor, imprevisível, não-linear, que ele via como predominante nos sul-americanos, e em especial no Brasil) e um ''futebol de prosa'' (mais coletivo, tático, planejado, linear, que ele via no futebol europeu). O livro explica isso melhor do que eu estou fazendo agora, e eu recorro à idéia de um jogo feito de elipses, que a escola brasileira de futebol desenvolveu e consagrou àquela altura em que Pasolini escrevia. O futebol transnacional que se joga hoje dissolveu a clareza dessa oposição, sem dúvida (embora a colocação de Pasolini também nunca tenha sido esquemática como as leituras simplificadoras fazem com que ela seja). Acontece que relances de poesia, fulgurações do imprevisível, saltos não-lineares na lógica do jogo continuam existindo e por eles nós continuamos sempre esperando. Eles são inerentes ao horizonte de expectativa do futebol brasileiro, por razões profundas e históricas, mesmo quando não acontecem, quando fracassam, quando se mostram impossíveis. Isso, a meu ver, demonstra a pertinência analítica da intuição de Pasolini para entender a singularidade do futebol brasileiro e a singularidade do futebol como o esporte que admite em sua lógica discursiva várias lógicas simultâneas. Mesmo que a relação entre ''prosa'' e ''poesia'' tenha mudado radicalmente, a ponto de parecer se submeter ao império da prosa.Como, olhando para o futebol, podemos compreender alguma coisa do País como um todo?Não sei se é possível respondê-la, como quem a esgotasse; acho que só é possível atravessá-la. Começo com algumas reflexões de Machado de Assis sobre modos do ser brasileiro, feitas de passagem em algumas crônicas, vou levando essas questões, rebatidas em muitos intérpretes, através da história do futebol ao longo do século, privilegiando o momento ''oracular'' das Copas, e chego de certo modo à formulação ambivalente de que o futebol brasileiro é o Emplasto Brás Cubas que deu certo, a seu modo, ao oferecer um ''alívio à nossa melancólica humanidade'', nossa e do mundo. No processo, o Brasil é identificado como tendo as propriedades ambivalentes de uma droga, o veneno e o remédio.Interessante a análise dos grandes ''explicadores do Brasil'' dos anos 30, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Os três escrevendo numa época em que o futebol se profissionalizava e se generalizava . Como, e por que frestas, o futebol entra na obra deles?Gilberto Freyre foi quem fez do futebol um assunto central, a comprovação prática, na Copa de 38, das teses que ele havia desenvolvido em Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos. O futebol brasileiro era o adoçamento curvilíneo e mestiçado do futebol britânico, anguloso e ''quadrado''. O futebol brasileiro desvela e exponencia algo que está adormecido no futebol inventado pelos ingleses, e que consiste na ''quadratura do circo'' da modernização. Nesse sentido, a sociabilidade brasileira, com base na mestiçagem, é para Freyre um remédio - a civilização original nos trópicos - extraído do veneno da violência escravista. Já Caio Prado Junior é um crítico da formação brasileira, fundada no atraso, na pobreza, na dissolução, na inércia e na corrupção. Um jogo de bola visto por Saint-Hilaire em Itu, no século 19 (ainda antes de existir o futebol), citado por ele, pode ser considerado como uma fresta, de passagem, sobre a vocação inercial desse aglomerado desconexo que o é o Brasil, e que a vocação futebolística reforça e consuma. Forçando um pouco, pode-se dizer que para Caio Prado Junior o Brasil é o ''veneno'' a ser vencido pela crítica e pelo salto político. O ''homem cordial'' de Sérgio Buarque, por sua vez, afetivo e arbitrário, afável e truculento, incapaz de arcar com o ônus da responsabilidade pública, produzindo belezas e horrores, é um ambivalente veneno-remédio a ser compreendido e superado (talvez sem ser perdido). Uma marca sérgio-buarquiana no futebol brasileiro: os jogadores nomeados pelos apelidos (índice afetivo e pessoal) e não pelos sobrenomes, ao contrário do que acontece em todas as nações do mundo ocidental. Talvez mais importante do que as frestas abertas em cada um ao futebol seja o fato de que constituem três grandes paradigmas interpretativos, cujos seguidores poderiam ser reconhecidos, e através dos quais o Brasil varia sobre as modalidades da droga: remédio, veneno e veneno-remédio. O entendimento disso poderia nos fazer sair, quem sabe, da gangorra viciosa em que balançamos eternamente entre a panacéia universal e o fracasso, entre o tudo e o nada.Como você projeta esse futebol no futuro - a ''futebolização do mundo'', mas que de certa maneira nos exclui, pois nos priva dos talentos pelo modelo exportador adotado?A formação do futebol brasileiro desenha uma espécie de império da ''diferença'' e da elipse, que a capitalização intensiva do jogo vai absorvendo como marketing mundial ao mesmo tempo em que dissolvendo como estilo de jogo. Um analista crítico, descolado da força significativa do jogo, poderá tomar isso como o diagnóstico do fim do futebol, da arte, do Brasil, da cultura e do mundo. Eu jogo em outra posição, e prefiro assinalar, nas enormes contradições que o futebol abriga, e na sua representatividade, por onde passa quase tudo, os sinais de alguma liberdade, que mantêm aberto o arco da promessa, da interrogação e da afirmação.DidiO extraordinário meio-campista Didi, grande lançador, ao mesmo tempo em que criador do chute em ?folha seca? (caso singular de aberração da reta e da curva, lugar geométrico de trajetória inconstante em que a bola chutada a gol ?cai? súbita e inesperadamente sobre a meta, sem peso e com direção imprevisível), ?nunca deu um passe com o lado do pé, feito um taco de bilhar, pra a bola ir certinha?, segundo o comentário de Mário Filho. (...) O próprio craque dizia que, jogando no Real Madrid recebia reclamações de jogadores espanhóis que estranhavam aquela bola que lhes chegava preciosamente aos pés, mas em curva, cheia de malícia e de subentendidos, girando sobre si mesma de maneira inabitual.Garrincha Como o Brasil atávico, Garrincha está na zona ambígua entre o mito e a história, a natureza e a cultura, a aparição moderna e a experiência imemorial inconsciente. Ele é ao mesmo tempo espécime único e a expressão mais acabada da espécie. Exatamente como Macunaíma, habitando o continuum por onde passam o índio, o negro e o branco, o bicho do mato, o curupira, o Pedro Malasartes, o malandro, o aprendiz de operário numa ordem social lábil, mais a transfiguração de tudo isso. O resumo miraculoso e anômalo do país novo, na acepção de Darcy Ribeiro, como resultado de sucessivas aculturações e deculturações. Nele, esse complexo ganhou a sua expressão criativa mais pura.PeléEm 1958, com 17 anos e já se mostrando ''qual na inteira idade'', Pelé dava realidade à figura mítica da criança madura, com a qual se confirmava e transcendia o papel do moleque como inventor essencial da releitura que o futebol brasileiro impõe ao modelo inglês. (...) Quando, na partida final contra a Suécia, o jovem Pelé mata a bola no peito, disputando-a com um adversário, e, sem deixá-la tocar o chão encobre o adversário seguinte que se apresentava para despachá-la, concluindo em seguida para fazer o terceiro gol, a súbita subida da bola, como um repuxo, faz pensar na irrupção de lençóis petrolíferos e no desabrochar definitivo das potencialidades de uma cultura, dando-se em espetáculo - sempre em elipse.Seleção de livrosAlém da definitiva obra de Wisnik, veja abaixo um timaço de outros 11 livros imperdíveis sobre o tema futebol: A DANÇA DOS DEUSES, de Hilário Franco Jr. Cia das Letras, 2007 VENCER OU MORRER, de Gilberto Agostino, Mauad, Rio, 2002 COM BRASILEIRO NÃO HÁ QUEM POSSA, de Fátima Antunes, Unesp, 2004 FUTEBOL - O BRASIL EM CAMPO, de Alex Bellos, Jorge Zahar, Rio, 2002 A ESTRELA SOLITÁRIA - UM BRASILEIRO CHAMADO GARRINCHA, de Ruy Castro, Cia das Letras, São Paulo, 1999 FUTEBOL AO SOL E À SOMBRA, de Eduardo Galeano, L&PM, Porto Alegre, 2004 ANATOMIA DE UMA DERROTA, de Paulo Perdigão, L&PM, Porto Alegre, 2000 O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO, de Mário Filho, Mauad, Rio de Janeiro, 2003 À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS, de Nelson Rodrigues, Companhia das Letras, São Paulo, 2002 COMO O FUTEBOL EXPLICA O MUNDO, de Franklin Foer, Jorge Zahar, 2005 FEBRE DE BOLA, de Nick Hornby, Rocco, 2000.

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