GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
Detalhe de 'Espelho de Som', do artista argentino Eduardo Navarro GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Especial 32ª Bienal: O ambiente da arte

Oscilamos entre projetos utópicos de preservação e ficções de abandonar a Terra

Felipe Chaimovich, Especial para O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 05h00

A arte contemporânea pode esclarecer o sentido da ecologia. Embora os dados científicos atuais convirjam para a constatação de que a humanidade está afetando a própria capacidade de sobrevivência no meio ambiente, o modo de planejar uma mudança efetiva de curso não é consensual. A demanda econômica por empregos parece incompatível com nossa capacidade tecnológica de diminuir os impactos ambientais. Assim, oscilamos entre projetos utópicos de preservação de partes do planeta, como se fosse possível isolar áreas num mundo contínuo, e ficções de abandonar a Terra. Como, então, entender a ecologia?

A relação entre o ser humano e o meio ambiente foi decisivamente afetada pela sociedade de consumo. Após a Segunda Guerra Mundial, o enriquecimento dos Estados Unidos levou a um acréscimo do valor dos salários no país, gerando um excedente de renda. Havia a possibilidade de o Estado fomentar a poupança ou estimular mais a produção por meio do incentivo à compra de mercadorias desnecessárias pelos assalariados. A opção por incentivar a compra como um fim em si mesmo deu início à sociedade de consumo, na década de 1950. Mas a produção acelerada de mercadorias descartáveis em escala infindável tem causado consequências planetárias que ameaçam a sobrevivência da espécie humana.

No contexto da Guerra Fria, a sociedade de consumo era identificada com o modelo opressor do Primeiro Mundo. A obra de arte também estava sujeita a entrar na velocidade avassaladora do ciclo do consumismo, indo do desejo irrefreável de posse à lixeira da história. Artistas que refletiam sobre a nova posição das imagens e das coisas na sociedade de consumo passaram a mostrar, como arte, elementos imateriais, perecíveis, efêmeros, intelectuais, rituais, tudo o que resistisse à banalidade do formato comercial.

Após o fim da Guerra Fria, a sociedade de consumo continuou impulsionando a economia mundial. Embora não haja mais um protagonista do capitalismo global como oponente dos artistas, a crise ambiental ainda exige uma crítica da cultura à sociedade de consumo como modelo hegemônico de desenvolvimento econômico.

A arte contemporânea esteve alerta desde o início da Guerra Fria às consequências da sociedade de consumo. Diante da urgência atual em se esclarecer a natureza da crise ambiental que enfrentamos, a arte está pronta para trazer à tona aquilo que a velocidade consumista borra.

* FELIPE CHAIMOVICH É CURADOR DO MAM (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO)

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