TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Espaço Porto Seguro abre mostra com 400 fotos de Carlos Moreira

Fotógrafo paulistano veterano, professor de grandes nomes do fotojornalismo, exibe parte de sua produção de imagens feitas na rua, seu estúdio

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2019 | 19h55

O título da exposição soa um pouco como um mantra de Beckett – aquele de sua penúltima novela, Worstward Ho (1983), que recomenda “falhar de novo para falhar melhor”. O nome da mostra, Wrong so Well, reitera o dramaturgo e surgiu de uma anotação em inglês perdida no arquivo do fotógrafo Carlos Moreira, que, aos 83 anos, abre neste sábado (10), no Espaço Cultural Porto Seguro, sua retrospectiva, uma elegia ao ato de amar o que o outro “faz de errado tão bem”. Com curadoria de Fábio Furtado, Regina Martins e Rodrigo Villela, a mostra, com 400 fotos – metade delas inédita – é a maior dedicada ao fotógrafo, um veterano professor cujo olhar para a rua valoriza cada ponto das cidades por onde passou. Ele fez por São Paulo o que Atget (1857-1927) fez por Paris. Com uma diferença: não há espaços vazios em Moreira, cujo interesse pela cidade não é exclusivamente arquitetônico. O homem sempre é o protagonista nessa história.

Dividida em núcleos, a exposição reúne desde as fotos dos anos 1970 até imagens digitais recentes. Ela tem início com fotos do primeiro livro de Carlos Moreira, de 1977, ano de sua primeira exposição individual na Escola Arte Viva, nove anos após participar de duas coletivas seminais (1968), no Rio e em São Paulo, que marcaram sua opção pela fotografia – economista, ele não exerceu a profissão. Com exposições em Paris (1983), Washington (1986) e Nova York (1988) no currículo, Moreira tem fotos em acervos como o do Pompidou.

Prestes a ganhar um novo livro pela Porto Seguro, Moreira não se deixa impressionar pela onda mundial de colecionismo fotográfico. Nascido em São Paulo, em 1936, e atraído pela fotografia de rua desde menino, quando viu uma foto de Cartier-Bresson reproduzida na extinta revista Manchete, o fotógrafo será representado na SP-Arte Foto (a partir do dia 21) por algumas imagens que certamente irão atrair a cobiça de colecionadores. Mas ele nunca dependeu deles para viver. Por vocação, foi professor e formou alguns dos melhores nomes do fotojornalismo em atividade, embora não tenha se dedicado à foto documental – Moreira integrou, sim, o grupo Novo Ângulo nos anos 1960, que buscou um contato mais direto com a rua, na tradição de Cartier-Bresson e Lee Friedlander, mas não fez fotojornalismo.

Sentia uma forte influência de Cartier-Bresson, mas queria se libertar da rigidez composicional, interagindo com personagens da rua sem se importar demais com o formalismo que caracterizava a produção dos egressos do Foto Cine Clube Bandeirantes, por onde passou – ele não abjura sua produção com elementos geométricos, fruto de sua aproximação com o concretismo, mas prefere claramente suas fotos de rua. “Há uma certa ‘dureza’ em Cartier-Bresson que hoje me incomoda, mas foi importante na minha formação”, analisa Moreira, que recomendava a seus alunos não fugir de suas influências, mas encará-las, copiando, se for preciso, até desenvolver uma linguagem autônoma.

Talvez essa reflexão sobre o cofundador da Magnum deva algo às conversas que tinha com o pintor expressionista paulistano José Antônio Van Acker (1931-2000), avesso a Cartier-Bresson. Sempre próximo da sintaxe pictórica – a avó do fotógrafo era pintora e, como o amigo Van Acker, teve precedência na sua formação – Moreira julga necessária ao fotógrafo uma cultura humanista. Sua Leica era seu pincel. Grande leitor, ele cita um dos mais conhecidos livros de André Gide, A Sinfonia Pastoral (1919), numa tentativa de traduzir como o fotógrafo é, na verdade, um cego que vê através da câmera e passa, então, a enxergar o mundo – no romance de Gide, a protagonista, Gertrude, é cega, mas vê o que o hipócrita pastor não consegue, a própria natureza.

Por fidelidade a si mesmo, Moreira revela que, sem assumir sua homossexualidade – o que fez aos 18 anos, ao pai –, ele jamais teria se tornado um fotógrafo. “Isso aparece em meu trabalho inteiro”, avalia o fotógrafo. Como Gide na literatura, Caravaggio na pintura, Visconti no cinema e Samuel Barber na música, todos eles e mais Moreira só fizeram o que fizeram por expor uma visão de mundo filtrada por um olhar de gay renegado, que encontra refúgio na arte e na beleza. Ao mostrar uma foto feita em 2017, em Buenos Aires, na qual figura um garoto de boné, de passagem por uma rua estreita do centro, vem a confirmação de que esse é o tipo de foto enigmática, intimista, que, paradoxalmente, sai da rua, mas carregada da experiência existencial e do olhar de Eros do fotógrafo. “A cidade é meu estúdio, é preciso descobri-la e vivenciá-la.” Hoje, na era das selfies, ninguém parece se dar conta dela. “Fiz muitos autorretratos, mas não selfies”, conclui o fotógrafo, comparando esses retratos com a mania de Rembrandt de se pintar durante toda a vida. “Uma forma de autoconhecimento, enfim”, define Carlos Moreira.

 

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