Escritor francês diz: no princípio era o sofrimento

Michel Houellebecq trata, em ensaio na Coyote, das raízes do ato de escrever

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

No princípio era o sofrimento. "Em sua origem, há um nó de sofrimento", escreve Michel Houellebecq. "A partir de um certo nível de consciência, o grito se produz. A poesia deriva disso. A linguagem articulada, igualmente", continua. "O primeiro passo poético consiste em remontar à origem. A saber: o sofrimento." O escritor francês acredita que todas as modalidades de sofrimento são essenciais. Elas dão frutos. Se os homens existem, é porque certo dia o nada vibrou de dor, e dessa vibração se constituiu o ser.Manter-se Vivo: Méthodo é o ensaio de Michel Houellebecq - autor de Partículas Elementares, Plataforma e A Possibilidade de Uma Ilha -, publicado na Coyote 18, edição primavera (52 págs., R$ 10). A revista está à venda em livrarias ou nos sites www.iluminuras.com.br e www.sebodobac.com. Para o francês, sofrer é a conseqüência necessária do livre jogo das partes da existência.Na superfície, o texto lança um olhar inusual sobre o ato de sofrer, mas no fundo Houellebecq trata do ato de escrever. De qualquer maneira, quem pariu o verbo foi o sofrimento. Escrever é ter a compreensão. É colocar em letras o acúmulo de vivências - e frustrações - da vida, essa "série de testes de destruição". "Ame o seu passado, ou odeio-o, mas que ele permaneça presente em seus olhos." Houellebecq assusta os bons moços ao conclamar o ressentimento, que não é o senso comum da mágoa com o passado, mas um despertar a partir da visita às memórias. "Desenvolva em você um profundo ressentimento quanto à vida. Esse ressentimento é necessário para toda verdadeira criação artística." Recordar é criar. Talvez o ressentimento seja malvisto porque aqueles que desejam manter tudo inalterado o combatem com certa ferocidade - como se presente e passado fossem instâncias sem ligações. Não é bom acreditar nessa turma. Segundo Houellebecq, o ressentimento deve estar à mão. Daí, "quando você suscitar nos outros uma mistura de piedade assustada e desprezo, saberá que está no caminho certo. Pode começar a escrever." Escrever não é para amadores. É para os ressentidos.

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