Escritor foi ver o filme e aprovou

García Márquez gostou de O Amor nos Tempos do Cólera, que chega amanhã

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2007 | 00h00

Mais amor ou cólera? Já virou brincadeira entre críticos fazer essa pergunta a respeito de O Amor nos Tempos do Cólera, que o inglês Mike Newell adaptou do romance de Gabriel García Márquez. O filme que estréia amanhã encerrou, em outubro, o Festival do Rio. Vieram o diretor e parte do elenco. O produtor Scott Steindorff disse que o próprio García Márquez aprovou a adaptação. Depois de assistir a O Amor nos Tempos do Cólera numa sessão privada, na Cidade do México, o escritor elevou o polegar, num gesto positivo. É curioso que García Márquez tenha se identificado no filme - ou que pelo menos tenha encontrado nele algum valor narrativo. Para o crítico do L.A. Weekly, publicação independente de Los Angeles - e ele não é uma voz isolada -, O Amor é o pior filme adaptado de qualquer livro de um vencedor do Prêmio Nobel, em qualquer época.Completam-se, em 2007, 30 anos da publicação de Cem Anos de Solidão, o livro que estabeleceu a reputação de García Márquez e pavimentou sua rota para o Prêmio Nobel de Literatura. A prosa do escritor é riquíssima. Os críticos literários dizem que ele é um dos grandes do realismo mágico e que seria este a melhor expressão do transe latino nas letras. É discutível - a descontinuidade é que nos representa na tela, como prova Terra em Transe, de Glauber Rocha, e ela não deixa de se manifestar em García Márquez. Não por acaso, o escritor e o cineasta fazem parte do movimento de afirmação da identidade cultural da América Latina, nos míticos anos 60.No Rio, Mike Newell explicou que o maior desafio, ao adaptar García Márquez, havia sido a ''''textura'''' da sua prosa. Comparou-a a um tecido finíssimo, que filtra (ou envolve) a realidade. Ele acha que o roteirista Ronald Harwood - vencedor do Oscar por O Pianista, de Roman Polanski - foi fiel ao escritor, mas ambos foram mais fiéis à história de amor, uma das mais belas já contadas. Em entrevista ao Estado, Fernanda Montenegro, que faz a mãe do personagem de Javier Bardem, disse que, na verdade, talvez fosse este o principal entrave à adesão do público. O cinema não conta mais histórias de amor dessa intensidade. A grande atriz buscou exemplos. Citou O Inocente, de Luchino Visconti, e Esposamante, de Marco Vicario. Não por acaso, são filmes italianos dos anos 70, a década em que George Lucas iniciou sua série Star Wars e, desde então, o desenvolvimento dos efeitos especiais virou dominante (com exceções, claro) na produção de Hollywood.Tudo conspirava contra O Amor nos Tempos do Cólera. A fleuma britânica (do diretor) parece uma coisa alheia à sensualidade de García Márquez e existe o problema do idioma - o filme é falado em inglês, o que parece um crime contra a ''''textura'''' da língua de García Márquez. Só isso já parece handicap negativo que chegue, mas o esforço de superação de Mike Newell não é negligenciável. Sombras de Goya, de Milos Forman, também é falado em inglês. Sobre isso, a atriz colombiana Catalina Sandino-Moreno, que participou da exibição do filme no Festival do Rio, sentenciou - ''''Essa história de amor é universal. Está acima da diferença de idioma.'''' Logo na abertura, ao ouvir o toque de finados anunciando a morte de seu rival, Javier Bardem apresenta-se à viúva para reafirmar seu amor. Ela o enxota aos pontapés e começa a narrativa em flash-back. Muitos anos antes, o jovem Javier ficou instantaneamente apaixonado. Mas, pobre e poeta, ele foi preterido pelo pai da moça. Ela se casa com um pretendente mais adequado. Passam-se décadas durante as quais o herói adquire prestígio e fortuna, sem nunca deixar de sonhar com a amada. Ele espera - muitos até pensam que é homossexual, por nunca se haver casado, mas o herói é um caçador que contabiliza centenas de mulheres em sua cama. Uma delas, numa cena particularmente fiel ao espírito do escritor, recebe o amante com a chupeta na boca, o que aumenta a voltagem erótica da cena.Toda a trama de O Amor nos Tempos do Cólera gira em torno dessa interrogação - o herói conseguirá lograr seu objetivo? A obsessão foi o que atraiu Mike Newell, a história de um amor maior que a vida. Existem muitas formas de definir este filme sobre uma espera de 50 anos. Ele trata do embate entre o amor e o desejo, entre a matéria e o espírito, entra a ação impulsiva e a palavra reflexiva. A decisão de filmar na Colômbia acrescentou novos problemas aos já existentes - o clima é úmido, chove muito e o calor é excessivo. Newell não abriu mão de filmar com elenco predominantemente colombiano. Deu um papel importante a Fernanda - o da mãe louquinha - e teve dois grandes colaboradores ligados ao cinema brasileiro, o compositor Antônio Pinto e o fotógrafo Afonso Beato. O esforço é grande, maior do que o filme. Mas, por essa história tão linda, pode-se sentir, sim, mais amor do que cólera.

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