Escrita alimentada pela infelicidade

Os contos de A Boca da Verdade, terceiro livro do autor, buscam no sofrimento de existir o caráter mais universal da literatura

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

O que faz a boa literatura é a infelicidade - eis o motor da escrita de Mario Sabino, que, depois do romance O Dia em Que Matei Meu Pai (2004) e dos contos de O Anticristo (2005), volta aos textos curtos em A Boca da Verdade (144 páginas, R$ 29,90), lançado agora pela Record, que também editou os volumes anteriores. Trata-se de uma série de histórias em que tanto um papa duvida da existência de Deus como um escritor busca entender a evolução, questionando a moral divina e a biologia.São relatos pautados pela dor de existir mas construídos novamente com uma prosa elegante, refinada, cosmopolita. Qualidades que despertaram editores estrangeiros - O Dia... já foi publicado em cinco países - e que, garante Sabino, 47 anos, redator-chefe da revista Veja, estarão também presentes no próximo romance, O Vício do Amor, a ser lançado em 2011. Sobre a arte literária, Mario Sabino conversou com o Estado.Qual o seu interesse pelo conto?Usando uma metáfora pouco original, o conto é uma corrida curta. Funciona, do ponto de vista da escritura, como um adestramento para o romance ao se condensar a narrativa. Com isso, o romance torna-se mais intenso, sem parecer um gênero em que determinadas passagens sejam marcadas por uma certa lassidão estilística. A tensão acaba se mantendo mais, em função do exercício do conto.A atividade jornalística é útil na conquista dessa precisão?Procuro separar, digamos assim, as duas personas. Meu trabalho de editor ajuda, pois já escrevo cortando o desnecessário, buscando a palavra exata. Gosto de dizer que, enquanto um bom jornalista é um bom pintor de paredes, a literatura está mais próxima da pintura artística. Por isso, não acredito em jornalismo literário.Por quê?Acho graça nesses senhores de chapéu que vêm ao Brasil como jornalistas literários. Mas, ao analisar seus livros, percebe-se que não são nem boa reportagem tampouco boa ficção. Claro que há Truman Capote, que fez um belo trabalho em A Sangue Frio. O jornalismo é um trabalho de fora para fora - há um olhar subjetivo, mas, espera-se, impessoal. Certos aspectos são usados para enxergar a realidade de determinada forma. Na literatura, no entanto, é preciso uma entrega pessoal, elaborada, em que as experiências individuais são transformadas em algo universal. Não acredito em literatura sem entrega, sem exposição de angústias e perplexidades - o que não cabe no trabalho jornalístico pela sua própria natureza. A boa reportagem pressupõe um certo distanciamento, enquanto na literatura há um mergulho no tema, na narrativa. E o trabalho literário pede uma humanização.A boa literatura, então, deve ser mais confessional?Sim, acho básico isso. Escrevendo um épico ou um romance social, o autor utiliza um tom confessional. É como entrar em uma casa com traços arquitetônicos modernos, funcionais, mas cujo espírito é impessoal. Parece mais um cenário. Seu proprietário até dispõe de instrumentos para contratar um arquiteto e construir uma boa casa, mas não consegue. Há escritores assim: capazes de fazer uma boa arquitetura, uma boa decoração, mas em cuja casa predomina um vazio. Por outro lado, outros sabem como decorar com personalidade, utilizando as memórias e deixando a casa com um cheiro pessoal. Eu tento esse segundo caminho. Percebo o esforço de alguns jovens escritores em fazer uma boa literatura, mas falta alma em sua produção, até porque lhes falta vivência. Como iniciei relativamente tarde, eu tinha essa preocupação. Comecei a escrever meu romance com 28 anos, mas parei ao perceber que era apenas um exercício de vaidade, sem entrega. E só o retomei 13 anos depois.O mercado, sempre em busca de um filão rentável, seria o grande vilão da literatura?Não acredito que seja um problema criado pelo mercado. Na verdade, a literatura não escapa da síndrome da celebridade. Muitos autores buscam apenas celebrizarem-se como escritor, atendendo a um exercício de vaidade. Não é uma condenação, pois todo artista quer ser conhecido e apreciado. Mas, às vezes, há uma ânsia em se escrever um romance. Para ser um bom escritor, acredito, é preciso ter calma e fugir do holofote. Claro que é possível um jovem tornar-se um escritor, mas a juventude hoje parece mais infantil que na época de Rimbaud. Daí a necessidade de se esperar pelo momento certo para começar a escrever. Aquela entrega só é possível depois de se adquirir algumas cicatrizes na vida.Com você, como foi?Minhas circunstâncias familiares foram determinantes. Com a morte da minha mãe, eu me voltei para a literatura. Claro que isso depende da história de cada um. Tenho nove anos de análise que também me ajudaram a perceber a literatura como um caminho possível. O sucesso do meu romance no exterior se deve ao fato, acredito, de eu não fazer literatura brasileira, apenas literatura.Como assim?Minha escrita não é regionalista nem está calcada em certas realidades. Eu me interesso pelas qualidades interiores e não pelas exteriores. Quando se opta por esse caminho, é mais fácil ser universal. Não condeno, claro, quem faz o contrário - não existe apenas um trajeto para a literatura, música ou pintura. Pensar assim seria adotar uma visão positivista e marxista, que aponta como único caminho as superações, ignorando certos recursos da geração anterior. Há o famoso caso de Tomaso di Lampedusa, cuja obra-prima Gattopardo foi recusada em uma editora por outro escritor, aliás, também famoso, Elio Vittorini. Em seu parecer, ele justificava ser aquele um romance do século 19. Um autor pode utilizar recursos tradicionais e continuar a ser moderno. O primeiro ato de sedução sobre o leitor é através da narrativa. Livro sem história está fadado ao esquecimento. Claro que isso não significa fazer concessão, mas contar uma boa história está na base da literatura. A narrativa é o instrumento mais poderoso de um escritor.A linguagem de sua escrita, aliás, é muito trabalhada.Vivemos um momento crítico no Brasil: a palavra escrita e televisionada sofre um assustador processo de degradação. Isso acontece formalmente porque a educação no País é um desastre, impossibilitando que as pessoas se comuniquem através da norma culta urbana. E degradada também no plano do sentido e de seus significados, muito em função do discurso político vazio ou enganoso que está perpassando a sociedade brasileira, invadindo as relações familiares e profissionais. Se o escritor tem uma missão, é o de deter esse processo. Ou seja, ter o cuidado na escolha certa da palavra, saber utilizar a norma culta da língua. É um trabalho de recuperação da linguagem. Acredito ser esse o lado mais político da literatura.E o que dizer dos escritores interessados em romper com a linguagem?Em alguns casos, desconfio, é porque não sabem escrever (risos). Veja por esse lado: o Rio de Janeiro está recebendo uma bela exposição, que deverá vir a São Paulo, chamada Virada Russa. Lá, um dos destaques é o trabalho de Kasimir Malevich, um pintor suprematista que desconstruiu e foi o mais radicalmente abstracionista de sua geração e, no entanto, era capaz de pintar como um renascentista. Ele pôde romper com a forma porque a dominava. Na literatura, acontece o mesmo: para se romper com determinados cânones, é preciso antes conhecê-los bem. Temo que não seja o caso de muitos escritores, que partem para uma linguagem das ruas, mais sincopada, uma sintaxe mais suja, e que talvez não saibam fazer diferente.

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