''Escrevi a minissérie para o Jayme''

Manoel Carlos fala sobre a delicada missão de escrever uma biografia que seria dirigida pelo próprio filho da biografada

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

30 Setembro 2008 | 00h00

O autor Manoel Carlos conta que recebeu apenas dois pedidos do diretor Jayme Monjardim durante o processo de roteirização de Maysa. Que a minissérie não terminasse com o enterro de sua mãe. E que ele, como personagem, tivesse a chance de dizer a ela o quanto ficou magoado, quando ela foi visitá-lo no internato e se negou a beijá-lo, porque ele tinha febre. O autor atendeu prontamente o segundo pedido, e criou uma cena em que Jayme tem a oportunidade de dizer à mãe que carregava certa mágoa desde criança. Das cenas do enterro, entretanto, o autor não quer abrir mão. "Pretendo convencer o Jayme até o fim das gravações", diz Maneco, que neste trecho da entrevista segue dando detalhes sobre o processo de recriação da vida de Maysa. Como foi a relação com Jayme Monjardim na hora de escrever?Quando ele me convidou, fiquei muito honrado e muito hesitante. Pensei seriamente em não aceitar, achei complicado escrever sobre a mãe do diretor. Mas ele me deixou claro que não faria objeção a nada, e cumpriu. E eu disse que ia fazer de conta que escrevia sobre a vida da Ângela Maria. Mas depois de um tempo, pensei o seguinte: "Vou fazer essa minissérie para o Jayme, para ele ver e ficar feliz." Mesmo assim, você verá, há coisas muito pesadas. E ele só fez duas pequenas objeções. Pediu para não pôr o enterro dela. Não por qualquer razão sentimental, mas porque achou que a minissérie pode acabar para baixo. Deixamos para resolver mais tarde. E há uma cena em que a Maysa vai visitar o filho no internato na Espanha e ele está com muita febre. Ela é particularmente dura, porque ele quer dar um beijo nela, mas ela se recusa. Todo mundo que leu fica escandalizado. Então o Jayme me pediu para mencionar essa coisa da garganta na cena em que os dois se vêem pela última vez, no aeroporto, antes de ele viajar em lua-de-mel. Na cena, ele diz que ficou triste quando ela fez aquilo. E ela explica que era por que tinha de cuidar da voz.Você chegou a conhecer a Maysa pessoalmente?Sim, mas não fomos amigos. Conheci-a nos bastidores da Record, quando ela tinha o programa dela. Depois, quando eu dirigia O Fino da Bossa, ela participou de um dos programas. Mais tarde, eu cheguei a ir à casa dela, com colegas da TV Record. Ela cantou com violão, como era hábito. Foi uma época em que as pessoas se reuniam muito, era o começo do banquinho e violão.Como o senhor lidou no texto com os escândalos e a relação dela com as drogas?Não existe um artista brasileiro cercado de tantas lendas como a Maysa, talvez por causa de sua vida conturbada e tão pública. Ela estava muitas vezes no jornal como artista e cantora, e outras vezes por tentativas de suicídio, bebedeiras, brigas. Mas ela não se drogava como as pessoas pensam - cocaína, ópio, nada disso. O máximo que se tem registro era uns "tapas" de maconha. A droga da Maysa era remédio - para emagrecer, para dormir, para acordar - tomado com uísque e vodca. Era uma coisa pela vaidade, como a Maria Callas?Muito, boa lembrança. Ela tinha uma tendência para engordar muito grande. Ela poderia ser gorda como a Lenny Anderson, mas ela era vaidosa. E privilegiava muito os romances, estava sempre envolvida com alguém. Ela era cantora de boate, onde todo mundo bebia e fumava desbragadamente. A foto mais comum da Maysa é com um copo na mão e um cigarro entre os dedos.A época da saúde acabou com esse tipo de voz, regada a uísque e cigarro. Só temos a Amy Winehouse.Você lembrou bem, talvez ela seja correspondente nos dias de hoje às cantoras como a Maysa. Não sei como é que o público de hoje vai receber essa história e essa voz. Quando eu fiz (a minissérie) Presença de Anita, pus Ne Me Quitte Pas cantada por ela na trilha. As pessoas ficaram deslumbradas com a interpretação. Entre as lendas existentes , há a de que quando ela cantou em Paris, no Olympia, o Jacques Brel estava na platéia e disse que foi a melhor interpretação que ele já tinha visto da música dele.Fico surpresa com o que o senhor falou, sobre a Maysa ter reinado nas revistas de celebridades. Por que será que ela não passou à posteridade como uma Elis Regina, a ponto de quase não tocar mais no rádio?Ela foi a mais popular artista brasileira de um determinado tempo, assim como foi a artista que mais ganhou dinheiro num determinado período. É estranho mesmo como ela ficou obscurecida. Talvez isso tenha acontecido porque ela entrou nessa mudança do samba-canção para a bossa nova. Ela tinha uma voz inconfundível, não se parece com Nara, Gal, Bethânia, com ninguém. Isso dá uma distinção grande a ela. É uma voz única, mas com um repertório que ficou muito datado.

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