Escrever para divertir, acima de tudo

No Rio, o britânico Bernard Cornwell mostra Azincourt, romance histórico sobre a famosa batalha entre França e Inglaterra

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

O britânico Bernard Cornwell era produtor de TV na cidade irlandesa de Belfast até se apaixonar por uma norte-americana e se mudar, por ela, para seu país. Sem licença do governo para trabalhar, optou por um ofício que pudesse desempenhar em casa: escrever. Trinta anos e 20 milhões de livros vendidos depois, Cornwell chega ao Rio. Na Bienal, vai lançar Azincourt (Record), hoje e amanhã. É mais um de seus romances históricos, lidos por fãs em mais de 16 idiomas. Gente "de 12 a 80 anos", ele estima, que o segue em sua página na internet e no Facebook. Para eles, este não é mais um Cornwell - é o melhor.

A sangrenta batalha de Azincourt, que durou cerca de três horas e resultou num campo repleto de gargantas cortadas, corpos estripados e armaduras perfuradas por flechas, é narrada em detalhes sob o ponto de vista de Nicholas Hook, um arqueiro que ajuda o exército de Henrique V, combalido pela disenteria, a vencer a França, que estava em maior número (6 mil contra 30 mil, estima-se) e em seu próprio território.

Fonte de inspiração de William Shakespeare ao escrever a peça Henrique V, Azincourt foi travada a 25 de outubro de 1415, Dia de São Crispim (chamado pelos franceses nos anos que se seguiram de "O Dia Infeliz"). Mas segue no imaginário dos ingleses, conta Cornwell. "Até hoje é das poucas batalhas cujo nome as pessoas reconhecem", diz o autor, admirado até por historiadores, que já prepara o próximo livro, sobre a Guerra da Independência norte-americana.

Quanto tempo durou a pesquisa para este livro?

Anos e anos, mas foram dois ou três meses de pesquisa intensa. Usei tudo o que eu podia, foram muitas fontes. Visitei Azincourt (no Norte da França), e foi ótimo. Os franceses preservaram muito bem. Se fosse eu, teria construído casas sobre o campo, mas eles colocaram placas indicativas, fizeram um museu. É um lugar que mudou muito pouco em 600 anos.

Outros livros já foram escritos sobre Azincourt. Por que essa batalha é tão fascinante para tanta gente?

Fascina os ingleses porque é provavelmente a mais famosa batalha na história inglesa. Não sei por que exatamente, mas parcialmente porque é contra os franceses, e existe essa relação de amor e ódio. O que a fez famosa foi o fato de o exército inglês ser tão pequeno e o francês, tão grande. Nem do lado inglês se acreditava na vitória. O rei talvez, porque tinha grande fé em Deus, mas mesmo ele sabia que teria problemas, porque não era bobo. Todo mundo ficou impressionado pelo fato de ter sido uma vitória tão clara para os ingleses.

Basicamente, qual foram as causas da vitória?

A maioria dos franceses veio a pé, uma minoria em cavalos. A razão do sucesso foi o fato de os franceses terem precisado andar com armaduras pesadas com lama grossa até os joelhos (por conta da chuva). Quando eles chegaram até os ingleses, estavam exaustos. E estavam sendo atacados por flechas, então tinham que manter as viseiras fechadas, sem conseguir respirar ou enxergar direito. Não pode ter sido muito agradável.

O senhor acha que os relatos deixados são confiáveis?

Acho que são confiáveis até certo ponto. São cinco testemunhas oculares (um padre e quatro guerreiros) que descrevem a batalha de uma forma parecida. O que difere é quantos homens havia: os franceses tendem a dizer que os ingleses tinham mais homens, e vice-versa. Temos muita sorte por existirem esses relatos.

Espera que seus livros despertem nos jovens o gosto pela História?

Espero que sim. Mas acima de tudo faço para divertir os leitores. Quando eu era garoto, gostava desse tipo de livro. Acho que você sempre escreve o que gostaria de ler.

O senhor considera essa vitória importante para a formação da consciência inglesa como nação. Por quê?

Foi a vitória da massa. Havia 6 mil ingleses presentes, sendo mais de 5 mil arqueiros, ou seja, a maioria não era nobre. Na volta, todo mundo sabia que eles é que tinham ganho, então foi a vitória de todos. O povo tinha orgulho. Muito rapidamente começou-se a comemorar a data.

Sua carreira de escritor se desenvolveu nos Estados Unidos. Esse começo foi mesmo acidental?

Eu já queria escrever, mas não conseguia um emprego aqui, porque não tinha licença para trabalhar, então falei para a minha mulher: "Vou escrever um livro, não se preocupe." Foi há 30 anos e ainda estou fazendo isso...

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