''Escrever novela das 8 é dar festa e não ir''

João Emanuel Carneiro comenta a virada de sucesso de sua A Favorita

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

11 de dezembro de 2008 | 00h00

Da escola de Silvio de Abreu, João Emanuel Carneiro fala de A Favorita como se fosse mero espectador, não o autor da trama. Vibra com as maldades da sua Flora (Patrícia Pillar), ri da inocência de Irene (Glória Menezes), sente pena de matar Dodi (Murilo Benício) e até um certo remorso por matar a cachorra Vilma, do intrépido repórter Zé Bob (Carmo Della Vecchia). Silvio supervisionou o texto de Carneiro em Da Cor do Pecado (2004), sua primeira novela de sucesso no horário das 7 da TV Globo. Depois dela, em 2006, veio Cobras & Lagartos, também às 7 horas, e antes de tudo isso, em 1998, o roteiro do longa-metragem Central do Brasil, de Walter Salles. Ouça trechos da entrevistaDo cinema, ficou a teimosia de fazer "várias demãos de tinta nas paredes dos capítulos", como ele define seu método de trabalho. E dos ensinamentos de Silvio de Abreu, ficou o gosto pelos diálogos e acontecimentos concentrados, em texto enxuto - o que põe em cada final de bloco de A Favorita um clima de final de capítulo, o mesmo que se vê nas novelas de Silvio de Abreu.Na continuação da entrevista, Carneiro fala sobre seu método de trabalho - "Lento demais", confessa - e dá suas impressões sobre a vida de autor de novela das 8, que ele experimenta pela primeira vez. "É como dar uma festa e não poder ir. Quando você finalmente pode ir, a novela acaba e ninguém mais quer saber de festejar com você."São duas horas da tarde e você parece tranqüilo para quem tem de escrever a novela das 8. Como é seu esquema de trabalho?Desta vez, estou acordando meio-dia e trabalhando até 4 horas da manhã. Em Cobras & Lagartos eu consegui ficar mais diurno . E em Da Cor do Pecado eu extrapolei, e passei a trabalhar até 9 horas da manhã. Fiquei deprimido com isso, é péssimo. Agora, tenho um relógio: 4 da manhã acabou. Mas pára e vê a novela?É melhor ver gravado, porque é comida fria. Assim, não sofro. Quando o capítulo está no ar e você vê alguma cena que poderia ter ficado melhor, dá nervoso. Ver gravado é uma coisa boa para o autor, um prato comido frio.Quer dizer que você cozinha o jantar e come a comida fria...Há, é! É o mal da cozinheira. A satisfação que você tem é essa. A sensação de fazer novela é a de que você está dando uma festa, mas não pode ir. É uma coisa comentada, mas você não pode participar das discussões porque tem de escrever. E quando termina, acabou, já querem saber da próxima. Há muitas versões a respeito de como você decidiu levar a trama. Ela já teria uma virada, mas desde o começo estava decidido que seria a Flora?Eu... Será que assumo a verdade? Vou assumir. Fui um pouco manipulador, manipulei a imprensa, já tinha isso decidido desde o início. Acabei de te falar que já tinha 60 capítulos prontos quando começou. Menti como a Flora, a favor da trama. O que você acha, criou muita confusão?Acho que demoramos mesmo para entender. E, depois, quando veio a virada, em meio a um Ibope baixo, houve quem achasse que foi relançamento, uma reformulação total da novela.A imprensa de televisão está mais viciada do que o telespectador numa fórmula boba de fazer novela, sempre achando que ela será uma repetição de clichês, do "quem matou?", do "quem vai ficar com quem?". Isso mostra que as pessoas estão viciadas numa fórmula de sardinha em lata. Novela das 8, então, é um terreno difícil de plantar inovação?É muito difícil você fazer algo que não seja a fórmula, porque é uma responsabilidade muito grande, algo que não envolve só meu talento, mas um empreendimento da televisão. É muito difícil para um autor de novela das 8 tentar ousar. E, às vezes, para dar certo, você tem de ousar em alguma coisa. Essa negociação é complicada. Não é uma obra minha, só minha. Como é o seu contato com a produção?Conversamos para combinar as cenas-chave. Conversamos muito, por exemplo, sobre a morte do Gonçalo que vai acontecer agora.Ah, não queria que ele morresse.Não queria, né? Ninguém queria. Mas chega um ponto em que a história se conta sozinha.

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